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Onda de Protestos se Espalha Pela Europa; Entenda o Que Acontece em 5 Países

As manifestações compartilham reivindicações relacionadas ao aumento do custo de vida, à precariedade dos serviços públicos e à insatisfação com governos

10 min

Uma onda de protestos liderados principalmente por jovens tem provocado manifestações, confrontos com a polícia e episódios de vandalismo em diferentes países da Europa. França, Alemanha e Itália registraram grandes mobilizações nas últimas semanas, enquanto a Espanha realizou prisões para impedir possíveis atos violentos. Na Sérvia, o movimento ganhou dimensão política ainda maior: candidatos apoiados por estudantes derrotaram nas urnas o grupo do líder Aleksandar Vucic, que dominava a política do país desde 2014.

Embora tenham motivações diferentes, as manifestações compartilham reivindicações relacionadas ao aumento do custo de vida, à precariedade dos serviços públicos e à insatisfação com os governos. Em alguns países, os protestos também envolvem questões como corrupção, condições de ensino e gastos militares.

O último sábado (31) foi marcado por novas manifestações. Na França, cerca de 320 mil pessoas participaram dos atos, segundo o Ministério do Interior. Na Alemanha, mobilizações foram convocadas em 34 cidades. Na Itália, uma greve havia levado mais de um milhão de pessoas às ruas na sexta-feira (30).

A participação dos jovens, especialmente da chamada Geração Z, tornou-se um dos principais pontos em comum entre os movimentos, embora cada país enfrente circunstâncias políticas e econômicas próprias.

França: protestos pressionam Macron e atingem o comércio de luxo

A França se tornou um dos principais focos da onda de manifestações. Os protestos ganharam força no final de setembro, quando o governo minoritário do presidente Emmanuel Macron iniciou as negociações sobre o orçamento de 2027.

A mobilização começou entre estudantes insatisfeitos com a deterioração das condições das escolas, as salas de aula superlotadas e um sistema de admissão nas universidades considerado injusto. Com o passar das semanas, os atos passaram a reunir sindicatos e integrantes do movimento dos Coletes Amarelos.

As reivindicações incluem medidas para enfrentar o custo de vida, os preços elevados dos combustíveis e a inflação, além de melhorias nos serviços públicos. As promessas do governo de reformar a educação e aliviar os gastos com combustível não conseguiram conter o descontentamento.

Em 17 de outubro, manifestações que reuniram 550 mil pessoas, segundo o Ministério do Interior, terminaram em distúrbios e saques, com danos a lojas, prédios públicos e empresas. Uma semana depois, 410 mil pessoas voltaram às ruas.

No sábado (31), a participação caiu para 320 mil manifestantes em todo o país, incluindo 70 mil em Paris. Embora os atos tenham sido majoritariamente pacíficos durante a tarde, confrontos foram registrados no encerramento das marchas.

A polícia de choque atuou para dispersar grupos em Paris e utilizou gás lacrimogêneo em Lyon e Toulouse. Também houve tensões durante manifestações não autorizadas em Marselha.

As autoridades haviam reforçado a segurança para evitar a repetição dos episódios de 17 de outubro. O Supremo Tribunal Administrativo da França também manteve a proibição do trajeto que os sindicatos pretendiam realizar entre as praças da Nação e da Bastilha, em Paris. Um percurso alternativo foi autorizado na região leste da capital, longe das principais áreas comerciais do centro.

Os impactos econômicos dos protestos são significativos. Segundo estimativas da Câmara de Comércio, as perdas para o varejo ultrapassam 1 bilhão de euros. Outros cálculos apontam para prejuízos que podem chegar ao dobro desse valor, considerando danos não segurados e receitas perdidas.

Entre os estabelecimentos atingidos durante os distúrbios anteriores estavam lojas de marcas de luxo, incluindo Hermès, Louis Vuitton e Burberry. Em importantes avenidas comerciais de Paris, vitrines foram protegidas com tábuas e grades de segurança.

A instabilidade ocorre em um momento delicado para a economia francesa. Na sexta-feira (30), a agência Fitch revisou para negativa a perspectiva da dívida do país, ampliando as preocupações dos investidores com as finanças públicas.

Com a dívida se aproximando de 120% do Produto Interno Bruto (PIB) e os custos dos empréstimos em alta, o governo Macron enfrenta dificuldades para conter os gastos públicos em meio à pressão popular.

O cenário também tem consequências políticas. O líder da extrema esquerda Jean-Luc Mélenchon participou da manifestação em Paris e ganhou popularidade nas últimas semanas. Marine Le Pen, da extrema direita, liderava as pesquisas de opinião para a eleição presidencial prevista para abril do próximo ano.

Alemanha: Geração Z convoca protestos em 34 cidades

Na Alemanha, milhares de pessoas participaram de manifestações no sábado (31), em um movimento inspirado pelos protestos liderados por jovens em outros países europeus.

Os atos foram organizados pelo grupo Gen Z regelt, expressão alemã que significa “A Geração Z assume o comando”. As convocações abrangeram 34 cidades, incluindo Berlim, Frankfurt e Munique.

Entre as principais reivindicações estão maiores investimentos em educação, medidas para reduzir o custo de vida e oposição ao serviço militar obrigatório.

A adesão, porém, ficou abaixo das expectativas dos organizadores. O movimento projetava inicialmente a participação de 182 mil pessoas. Na tarde de sábado, as polícias de Frankfurt, Munique e Berlim haviam contabilizado, juntas, 6 mil manifestantes, diante de aproximadamente 36 mil indicados no site dos organizadores.

As autoridades alemãs reforçaram a segurança diante da possibilidade de episódios de violência semelhantes aos registrados na França. Algumas empresas chegaram a proteger vitrines e planejar o fechamento antecipado de estabelecimentos, incluindo lojas da Kurfürstendamm, uma das principais avenidas comerciais de luxo de Berlim.

A mobilização ocorre em um momento de dificuldades econômicas para a Alemanha, que tenta recuperar o crescimento e enfrenta pressões sobre os sistemas de aposentadoria e os serviços públicos.

O envelhecimento da população e a redução do contingente de trabalhadores em idade produtiva também ampliam as preocupações sobre os encargos que serão assumidos pelas gerações mais jovens.

Apesar do protagonismo atribuído aos estudantes, surgiram questionamentos sobre a organização e a representatividade do movimento, diante da diversidade de grupos políticos e organizações da sociedade civil envolvidos.

A BSK, entidade nacional que representa estudantes do ensino médio, distanciou-se da iniciativa e anunciou uma mobilização independente para 20 de novembro. A organização, no entanto, ressaltou que os estudantes possuem reivindicações legítimas.

Itália: greve leva mais de um milhão de pessoas às ruas

Na Itália, as manifestações reuniram estudantes, sindicatos, trabalhadores portuários, bombeiros, agricultores e outras categorias profissionais. Uma greve realizada na sexta-feira (30) levou mais de um milhão de pessoas às ruas de aproximadamente 50 cidades.

Os manifestantes cobraram salários mais altos, fortalecimento dos serviços públicos e mudanças nas políticas do governo. Também houve pedidos de demissão do governo.

Em Turim, a polícia de choque impediu o avanço de manifestantes nas proximidades do prédio da Câmara e utilizou um canhão de água para dispersar a multidão.

Em Roma, um pequeno grupo se separou da marcha principal, incendiou contêineres de lixo e lançou garrafas contra policiais. Oito pessoas foram detidas e outras 200 a 300 foram identificadas pelas autoridades.

Já em Gênova, cerca de 15 mil trabalhadores portuários, estudantes e outros manifestantes entraram na área do porto para protestar contra a utilização das instalações no transporte de armamentos.

Os episódios mostram a diversidade de reivindicações reunidas nas manifestações italianas, que incluem questões econômicas, condições de trabalho, serviços públicos e críticas a decisões do governo.

Espanha: autoridades prendem suspeitos de planejar vandalismo

Na Espanha, a preocupação das autoridades esteve concentrada na possibilidade de atos violentos associados às mobilizações que ocorreram em outros países europeus.

Mais de dez pessoas ligadas ao movimento Blocus, descrito como um grupo de caráter violento, foram detidas. Entre os presos estava um jovem de 20 anos apontado como suposto líder da organização.

Segundo as informações divulgadas, o grupo estaria se preparando para promover atos de vandalismo durante a noite de sábado (31).

Sérvia: estudantes derrotam grupo político que dominava o país desde 2014

Na Sérvia, a mobilização liderada por estudantes já produziu consequências políticas de grande dimensão.

Depois de dois anos de protestos contra o governo, candidatos apoiados pelo movimento estudantil conquistaram uma vitória eleitoral, derrotando a aliança ligada a Aleksandar Vucic, que dominava a política sérvia como primeiro-ministro ou presidente desde 2014.

Com quase 99% dos votos apurados, a lista apoiada pelos estudantes havia conquistado 52,7% dos votos, contra 39,2% da aliança liderada pelo Partido Progressista Sérvio (SNS), de Vucic, segundo a Comissão Eleitoral Estadual.

O resultado representava 139 das 250 cadeiras do Parlamento para os candidatos apoiados pelos estudantes, enquanto a aliança do SNS ficava com 97.

A derrota foi reconhecida por Vucic no domingo anterior, provocando comemorações em Belgrado e em outras cidades do país.

O movimento teve origem nas manifestações contra a corrupção após a morte de 16 pessoas no desabamento da cobertura de uma estação ferroviária na cidade de Novi Sad.

O episódio desencadeou uma onda de protestos que passou a exigir a saída do governante e mudanças nas instituições públicas.

O que está por trás da onda de protestos na Europa?

Apesar das diferenças entre os países, a onda de manifestações reúne insatisfações que ultrapassam fronteiras.

Na França, os protestos refletem a pressão sobre o poder de compra, a educação e a situação fiscal do governo. Na Alemanha, os jovens questionam os investimentos em serviços públicos e os encargos que terão de assumir no futuro. Na Itália, sindicatos e estudantes se uniram em torno de reivindicações econômicas e políticas.

Na Sérvia, as manifestações foram impulsionadas principalmente pelas denúncias de corrupção e pela cobrança de responsabilidades após uma tragédia que deixou 16 mortos. Já na Espanha, as autoridades concentraram esforços para impedir ações de grupos suspeitos de planejar vandalismo.

Em comum, os movimentos expõem a insatisfação de parte da população com a capacidade dos governos de responder a problemas econômicos e sociais.

Os episódios de violência também criaram um desafio para as autoridades: garantir o direito de manifestação sem permitir que grupos envolvidos em saques e vandalismo se aproveitem das mobilizações.

Embora a participação tenha diminuído na França no último sábado, os protestos seguem como um fator de pressão sobre os governos europeus. Na Alemanha, uma nova mobilização estudantil já estava prevista para 20 de novembro, enquanto as reivindicações por melhores condições de vida e educação continuam no centro do descontentamento.

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