Em um palco já conhecido, no The Quail, A Motorsports Gathering, durante a Monterey Car Week deste ano, a startup automotiva de alta tecnologia Czinger, da Califórnia, apresentou uma nova versão aberta do hipercarro 21C, que já bateu recordes ao redor do mundo. O novo 21C Spyder não representa apenas a adição de um novo modelo à linha, mas também leva o desempenho aerodinâmico a um novo patamar, servindo como mais uma demonstração da metodologia revolucionária de design e desenvolvimento algorítmico da Czinger.
Muito mais do que uma simples versão sem teto, as atualizações do 21C Spyder vão além da esbelta carroceria de fibra de carbono e incluem a versão de produção de um Brake Node de peça única, antecipado muitos anos antes, além de um novo desenho de cabine, com maior integração do motorista e mais pontos de contato com diferentes texturas. No palco do The Quail, conversei com o CEO e cofundador Lukas Czinger sobre os desafios únicos de continuar refinando aquele que pode ser considerado o carro de rua tecnologicamente mais avançado do mundo.
Um Spyder sem perda de desempenho
Devido à configuração exclusiva 1+1 do 21C, na qual o passageiro se senta diretamente atrás do motorista, o conceito de um conversível ou mesmo de um teto Targa exige claramente uma decisão específica sobre como, exatamente, remover o teto.
“Pensamos em fazer uma versão menor”, revelou Lukas Czinger. “Na qual o passageiro ainda ficaria coberto, mas o motorista ficaria descoberto. Mas queríamos a experiência completa de um roadster, toda a atmosfera.”
A decisão de adotar uma área tão extensa de teto removível poderia, em tese, comprometer parte do desempenho que faz do 21C uma visão singular de performance automotiva. A Czinger, porém, afirma que o Spyder consegue atingir a mesma velocidade máxima de 330 Km/h da versão de alto downforce, inclusive com o teto removido. Tudo isso enquanto gera 1.500 kg de downforce com o teto instalado.
“É preciso fazer bastante trabalho para garantir que a aerodinâmica continue funcionando”, admitiu Lukas Czinger, apontando para detalhes do chassi que vão do splitter dianteiro alongado às duas aletas aerodinâmicas e à enorme asa traseira. “Não é como se você simplesmente cortasse a seção central. Este é um monocoque totalmente novo, que oferece a rigidez correta. A equipe de engenharia fez um trabalho extraordinário; perdemos apenas 18 kg de downforce em comparação com o cupê.”
O teto rígido removível pesa apenas 10 quilos e é fixado pelo lado de dentro da cabine com apenas duas travas. O 21C Spyder vem acompanhado de um suporte para armazenar o teto quando ele não está em uso, além de uma capota flexível dobrável que pode cobrir a cabine enquanto o carro está estacionado ou em caso de mau tempo.
Tecnologia sob a carroceria
Por mais surpreendente que uma versão conversível do 21C possa parecer, ela não supera o fato de que, quando dirigi um 21C, aquele carro não tinha o famoso sistema Brake Node que a Czinger havia apresentado muito antes do início da produção.
Essa peça integrada única combina cubo de roda, manga de eixo da suspensão e pinça de freio e sempre prometeu vantagens expressivas em termos de massa não suspensa, roteamento de fluidos e facilidade de manutenção. Por isso, pedi uma breve explicação sobre por que essa peça, especificamente, levou tanto tempo para ser introduzida junto com o 21C Spyder.
“Este não é um projeto pequeno, desenvolver um sistema completo de freios”, foi a resposta. “Mais de dois anos de pesquisa e desenvolvimento, mais de dois anos de validação; basicamente, desde o início da Czinger, este projeto estava em andamento. Somos totalmente a favor de ser um pouco cowboys no sentido de avançar rápido e inovar, mas esse foi o sistema no qual dissemos: se há algo em que devemos ser um pouco cautelosos e testar todos os casos possíveis, é nisso.”
Mais uma vez, os desafios únicos dos métodos de design e produção otimizados pela abordagem Pareto da Czinger exigiram esforço adicional. Um baixo teor de silício na liga impressa em 3D do Brake Node ajuda a evitar corrosão causada pelo fluido de freio altamente cáustico, e a Czinger também testou as linhas de freio integradas ao metal rígido sob pressão de até 500 bar (7.251 psi).
Esse valor é oito vezes superior à pressão padrão de funcionamento, enquanto pistões de titânio nas pinças dianteiras ajudam tanto a reduzir peso quanto a manter a temperatura do fluido de freio 15% mais baixa.
Tenho curiosidade para saber como a sensação do pedal do 21C melhora com o Brake Node, já que o carro sem esse equipamento já exigia praticamente níveis de força de um verdadeiro carro de corrida para ser conduzido. Mas Lukas Czinger destacou que os testes revelaram uma redução de 15% na distância de frenagem, além de uma economia de 600 gramas de peso em cada roda — novamente, não em comparação com qualquer carro, mas com o 21C original, que já havia estabelecido um novo padrão para a indústria antes de adotar o Brake Node.
Atualizações nos comandos do motorista
No interior do 21C Spyder, uma bem-vinda atualização dos instrumentos e dos comandos ajuda a levar o hipercarro a um nível de design e de sensação tátil que faltava nos modelos anteriores.
Durante meu test-drive, achei que os botões emborrachados do modelo original lembravam um pouco os de uma moto aquática, mas isso mudou. Uma nova estrutura impressa em 3D se destaca claramente por parecer mais característica da Czinger, enquanto os comandos de metal usinado têm uma textura muito melhor.
“Sabíamos que os interruptores poderiam ser melhorados, nós mesmos sentíamos isso”, admitiu Lukas Czinger. “E não queríamos simplesmente dar um passo incremental, sabe, apenas passar do plástico para o metal nos interruptores. Pensamos em como poderíamos mudar todo este console central. Como poderíamos melhorar o ar-condicionado, o painel de instrumentos, a rigidez da caixa de direção, integrar tudo isso em uma única peça, e acho que o resultado ficou excepcional.”
O ar do sistema de climatização agora passa pela sinuosa estrutura metálica, e o interior também passa a contar com suporte para celular e chave, além de um porta-copos. O conjunto agora está mais à altura da promessa visual agressiva do exterior do 21C, sem mencionar seu preço de sete dígitos.
Novos recursos podem ser instalados nos primeiros carros
Como benefício adicional, Lukas Czinger também me contou que, com exceção do teto conversível, os novos Brake Node e Neural Node podem ser instalados retroativamente nos primeiros exemplares entregues aos clientes.
“O carro evolui, certo? E essa também é a nossa filosofia”, afirmou. “Na verdade, já recebemos muitos carros de clientes para fazer essas substituições.”
É positivo ver como a Czinger continua comprometida com o projeto automotivo, já que o 21C originalmente serviu tanto como uma espécie de prova de conceito para a tecnologia por trás da empresa quanto como uma máquina de desempenho capaz de bater recordes.
Mesmo expandindo o sistema de produção Divergent para outras indústrias, a Czinger poderia facilmente ter perdido de vista aquilo que os entusiastas de automóveis realmente valorizam. Agora mais otimizado do que nunca, o 21C Spyder introduz melhorias importantes naquele que pode muito bem ser o veículo mais radical já criado para rodar em vias públicas, sem abrir mão, no processo, do conforto e dos elementos prazerosos da experiência de dirigir. Nos Estados Unidos, o preço do carro parte de US$ 2,75 milhões.
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com