A boa notícia para a Europa no Salão do Automóvel de Paris é que as vendas estão avançando rapidamente. O problema é que os chineses estão vencendo a corrida e levando todos os prêmios.
A China dobrou para 20 o número de marcas exibindo seus produtos no Salão do Automóvel de Paris em comparação com a edição anterior, de 2024. Marcas pouco conhecidas como Aito, Avatr e NEVO, da Changan, estão se juntando a nomes já mais estabelecidos como BYD, Chery e Geely.
É por isso que a notícia da GlobalData de que as vendas na Europa Ocidental cresceram em setembro no ritmo mais rápido em nove anos e aumentarão 3,8%, para mais de 12,2 milhões no ano inteiro, não animou os fabricantes europeus. Isso porque os chineses estão ficando com a maior parte desse crescimento. A Europa Ocidental inclui os cinco maiores mercados: Alemanha, França, Reino Unido, Espanha e Itália.
O Center of Automotive Management, da Alemanha, resumiu recentemente a situação desta forma: “Das aproximadamente 500 mil vendas adicionais entre janeiro e agosto [na Europa], 419 mil, ou 84%, foram para grupos chineses. A Tesla acrescentou outras 58 mil. Todos os outros fabricantes juntos cresceram apenas 0,3%”, afirmou o CAM.
A Auto Forecast Solutions, sediada em Chester Springs, na Pensilvânia, também espera uma aceleração do crescimento na União Europeia neste ano, depois de alguns anos de desempenho anêmico. A AFS prevê crescimento de 5,5% neste ano, para mais de 11,4 milhões de veículos.
“Em toda a União Europeia, as marcas chinesas estão crescendo rapidamente, com a BYD avançando 130% e subindo para a 11ª posição entre todas as marcas, pronta para ultrapassar a Hyundai, que ocupa o 10º lugar e caiu 30% em agosto”, afirmou a AFS em sua newsletter de outubro.
Vendas sobem enquanto mais fábricas fecham
Isso explica por que os modelos de negócios tradicionais das montadoras alemãs e europeias são atualmente lentos e caros demais para competir com a tecnologia superior e a eficiência de produção da China. Todos os grandes grupos europeus, especialmente o maior deles, Volkswagen, estão fechando fábricas e demitindo trabalhadores justamente quando o mercado começa uma recuperação aguardada há muito tempo.
A Europa está reagindo com novos modelos como o Audi A2 E-Tron. Há também a releitura conceitual do 2CV pela Citroën, da Stellantis, como um veículo elétrico barato. A Fiat, também da Stellantis, tem o novo SUV compacto Grizzly, que será vendido nos Estados Unidos como Chrysler Arrow.
A joint venture entre Mercedes e Geely reviveu o Smart de dois lugares como um carro urbano elétrico. Modelos já lançados, como Renault 5, Renault 4, Renault Twingo e Dacia Spring, além de VW ID.Polo, T-Cross, Cupra Raval e Skoda Epiq, mostram a força da recuperação europeia. (Cupra e Skoda são marcas da VW. A Dacia é a marca de baixo custo da Renault.)
“A reação europeia na eletrificação está realmente em andamento, com as estruturas de custos caminhando em direção aos padrões chineses”, afirmou Matt Schmidt, fundador da Schmidt Automotive Research.
Europa acelera, mas não rápido o suficiente
“Os preços europeus precisam cair ainda mais, com o 2CV produzido na Europa previsto para começar em € 15 mil (US$ 17 mil). Mas parece que, apesar de a Renault dizer que reduziu o tempo de desenvolvimento para dois anos e não estar disposta a ir abaixo disso porque não quer correr o risco de recalls e baixa qualidade, eles ainda parecem estar atrás do ritmo, com muitos carros-conceito que os [fabricantes] chineses colocariam nas ruas em até 12 meses, enquanto a maioria daqueles exibidos em Paris ainda não verá a luz do dia pelos próximos anos”, afirmou Schmidt.
Schmidt disse que os designs da Renault e da Stellantis frequentemente parecem “über-retro”, o que traz o risco de envelhecer rapidamente. Os alemães, com seus designs mais conservadores, provavelmente resistirão melhor ao teste do tempo.
“Parece que os franceses estão ficando dependentes demais do retrô e correm o risco de não conseguir ir além disso”, afirmou Schmidt.
Zoran Matovic, diretor-geral da Auto Business & Enterprise, na Sérvia, disse que o rápido aumento de marcas chinesas desconhecidas pode acabar sendo uma bênção disfarçada para os fabricantes locais, à medida que essas empresas disputam entre si os ativos básicos necessários para ter sucesso na Europa.
China contra China
“A próxima batalha automotiva na Europa talvez não seja chineses contra europeus. Pode ser chineses contra chineses. Dezenas de marcas chinesas estão de olho na Europa. Mas elas não estão competindo apenas por clientes, estão disputando as mesmas concessionárias fortes, os melhores showrooms, profissionais experientes, os mesmos clientes de frotas e o mesmo capital de investimento”, afirmou Matovic em uma publicação no LinkedIn.
Isso remodelará fundamentalmente o cenário automotivo europeu. “Minha visão é que as marcas europeias estabelecidas não desaparecerão, mas nem todas sobreviverão em sua forma atual. Fabricantes premium com forte valor de marca, clientes fiéis e poder de precificação estão mais bem posicionados, enquanto marcas generalistas operando com margens estreitas enfrentarão uma pressão significativamente maior”, afirmou Matovic.
“No entanto, não vejo isso simplesmente como China contra Europa. A verdadeira batalha será entre fabricantes que conseguem adaptar seus modelos de negócios rápido o suficiente e aqueles que não conseguem”, afirmou Matovic.
O professor Ferdinand Dudenhoeffer, diretor do Center for Automotive Research, afirmou que os fabricantes chineses ganharão ainda mais força, liderados pelos veículos elétricos, enquanto japoneses e coreanos, além da Stellantis, com suas várias marcas, e dos alemães, devem perder espaço. Isso inclui os fabricantes premium da Alemanha.
“Até 2027, a Xiaomi surgirá como uma grande concorrente de BMW, Audi e Porsche. Os veículos europeus também incorporarão mais tecnologia chinesa — algo visto, por exemplo, nas parcerias entre Stellantis e Leapmotor ou VW e XPeng”, afirmou Dudenhoeffer em uma troca de e-mails.
DNA chinês
“Até a BMW percebeu que sua abordagem conservadora — desenvolver tudo internamente em Munique — já não é um caminho viável para o futuro.”
“O automóvel está se tornando cada vez mais chinês — uma tendência claramente visível em Paris. Tecnologias elétricas e inteligentes são as novas prioridades fundamentais para o desenvolvimento dos veículos. O carro do futuro tem DNA chinês”, afirmou Dudenhoeffer.
O Salão do Automóvel de Paris acontece na Paris Expo, Porte de Versailles, até 18 de outubro.
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com