Johann Bordais tem uma relação pouco convencional com congestionamentos. Enquanto boa parte dos executivos vê horas perdidas entre aeroportos e centros financeiros como um problema, o CEO da Eve Air Mobility enxerga ali a comprovação diária de que seu negócio pode funcionar.
Recentemente, voltando de uma viagem de trabalho, depois de nove horas de voo entre Washington e São Paulo, gastou outras três para percorrer o caminho entre o Aeroporto de Guarulhos e a Faria Lima. “Foram três horas para andar 15 km”, diz. Para quem lidera o desenvolvimento de uma aeronave elétrica capaz de decolar e pousar verticalmente, poucos argumentos são tão visuais.
Francês de nascimento e recentemente naturalizado brasileiro, Bordais é um otimista quase por definição. Fala sorrindo sobre um projeto que ainda precisa superar alguns dos desafios mais complexos da aviação e costuma repetir uma característica que diz admirar no Brasil: mesmo quando as coisas estão difíceis, o brasileiro acredita que “amanhã vai ser melhor”.
É uma postura conveniente para quem trabalha com um horizonte longo. A Eve foi criada em 2020 e pretende certificar seu eVTOL em 2028. Até lá, terá de transformar testes, algoritmos e protótipos em uma aeronave capaz de transportar quatro passageiros e um piloto dentro das mesmas exigências de segurança aplicadas à aviação tradicional.
Do trânsito para o céu
O protótipo de engenharia do “carro voador” realizou o primeiro voo em dezembro de 2025. Em 2026, entrou em uma das fases mais delicadas do programa: deixar de se comportar apenas como uma aeronave que sobe verticalmente e passar a voar para a frente como um avião.
Nos testes, o veículo já chegou a cerca de 55 km/h. A meta é avançar para algo entre 110 km/h e 120 km/h, velocidade na qual os motores responsáveis pela sustentação vertical poderão ser desligados e as asas passarão a assumir o voo, auxiliadas pelo propulsor traseiro. A Eve prevê completar essa transição ainda em 2026.
O passo seguinte será produzir seis protótipos de conformidade, que participarão da campanha de certificação com a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Eles serão montados pela Embraer em São José dos Campos e levados a Gavião Peixoto para os testes. A expectativa apresentada por Bordais é concluir a certificação no fim de 2028 e, então, começar as entregas. Não será um projeto pequeno.
2.700 aeronaves antes da primeira entrega
Mesmo antes de ter um produto certificado, a Eve já construiu uma carteira que ajuda a dimensionar a aposta. Segundo Bordais, são 29 clientes em nove países, com compromissos que totalizam 2.700 aeronaves, considerando cartas de intenção e pedidos firmes que totalizam quase US$ 14 bilhões. Há contratos na América, Europa, Oriente Médio, Austrália e Japão. Entre os clientes firmes citados pelo executivo está a brasileira Revo, que atualmente opera voos em rotas curtas com helicópteros.
A principal missão será urbana. O eVTOL foi concebido para trajetos curtos, como a ligação entre um centro financeiro e um aeroporto. A autonomia projetada está na faixa máxima de 80 a 85 quilômetros, mas Bordais afirma que 99% das rotas estudadas pelos clientes têm entre 30 e 40 km.
A cabine poderá mudar de configuração ao longo do dia: transportar quatro passageiros, ganhar mais espaço para dois ocupantes ou retirar assentos para levar carga e equipamentos. A Eve também identifica aplicações em turismo, apoio médico e conexões entre localidades que hoje dependem de deslocamentos por grandes centros.
Bordais não vende a ideia como substituta do helicóptero. O argumento é complementaridade. Com propulsão elétrica, um piloto e menor nível de ruído, a expectativa é reduzir custos operacionais e permitir rotas ou horários hoje pouco atraentes — ou inviáveis — para helicópteros.

Uma empresa que ainda precisa queimar dinheiro
A ambição vem acompanhada de uma equação financeira incomum. A Eve continua pré-operacional: não espera receitas relevantes enquanto desenvolve a aeronave. No segundo trimestre de 2026, registrou prejuízo líquido de US$ 34,2 milhões, abaixo dos US$ 64,7 milhões do mesmo período do ano anterior. Os gastos com pesquisa e desenvolvimento caíram de US$ 45,7 milhões para US$ 28,9 milhões.
O consumo de caixa foi de US$ 49,4 milhões no trimestre. Ao fim do período, a companhia tinha US$ 403,3 milhões entre caixa, equivalentes e investimentos financeiros. Somando linhas de crédito ainda não utilizadas do BNDES e um grant, a liquidez chegava a US$ 531,3 milhões, montante que a empresa considera suficiente para sustentar o programa até 2028.
Bordais coloca a necessidade anual de caixa entre US$ 200 milhões e US$ 250 milhões. Até a certificação, estima que a companhia terá levantado aproximadamente US$ 1,2 bilhão, numa composição de 60% de capital e 40% de dívida. “Certificação não é o fim da jornada. É o começo”, afirma.
Uma fábrica preparada para crescer
A produção comercial será instalada em Taubaté, no interior paulista, dentro de uma estrutura da Embraer que está sendo convertida para fabricar os eVTOLs. A previsão é de que as montagens comecem em 2028.
A estratégia é modular. O primeiro estágio terá capacidade para até 120 aeronaves por ano. Se a demanda acompanhar as projeções, o volume poderá subir para 240 e, depois, chegar a 480 unidades anuais. Só depois desse limite a companhia pretende avaliar uma segunda fábrica, inclusive fora do Brasil.
Embora tenha sede corporativa nos Estados Unidos, o coração técnico da Eve está no Brasil. Bordais afirma que cerca de 130 dos aproximadamente 170 profissionais da companhia estão no país e que outros 800 funcionários da Embraer trabalham de forma dedicada ou contratada no desenvolvimento e na industrialização do projeto.
“Disciplina da execução”
Bordais chegou à presidência da Eve em setembro de 2023 depois de mais de duas décadas na Embraer. Comandou a área global de Serviços e Suporte, negócio de US$ 1,4 bilhão, participou do programa E2 e presidiu o conselho da OGMA, em Portugal. Antes disso, ajudou a ampliar a operação de serviços da Embraer em diferentes mercados, elevando a receita regional de US$ 20 milhões para US$ 230 milhões anuais.
Quando perguntado sobre liderança, resume sua fórmula em três palavras: “disciplina da execução”. O desafio é aplicar essa disciplina sem perder pessoas no caminho de um projeto que leva quase uma década para amadurecer. Por isso, um dos valores da Eve é “enjoy the ride”.
“Você tem que ter resiliência. Tem que motivar as pessoas para olhar muito longe”, diz Bordais. Talvez seja justamente por isso que o trânsito não pareça incomodá-lo tanto quanto deveria. Para a maioria, três horas entre Guarulhos e a Faria Lima são apenas três horas perdidas. Para Bordais, são também uma lembrança do problema que passou a carreira tentando transformar em negócio.