O apelo de um carro de US$ 4.000 ou de um Porsche pelo preço de um Honda torna a ideia de importar carros chineses para os Estados Unidos intrigante. As montadoras chinesas estão desenvolvendo uma reputação por inovações em design, tecnologia avançada de veículos elétricos e soluções inteligentes, levando consumidores, entusiastas e especialistas a perguntar: por que os americanos também não podem ter isso?
Enxergando as montadoras chinesas como uma ameaça às marcas nacionais e às importadas que preferimos, o governo dos Estados Unidos tem, em grande parte, desestimulado a importação de carros chineses com tarifas elevadas e restrições; também existem outras barreiras de entrada, como testes de colisão, normas de segurança, equipamentos exigidos pelo governo federal e redes de serviços.
Embora existam brechas para importar um carro chinês, o processo é trabalhoso, caro e, depois da compra, você fica por conta própria; não existe uma rede de concessionárias para ajudar com reparos ou atualizações.
No entanto, as marcas chinesas inundaram os mercados da Europa e da Ásia e estão oferecendo opções modernas de mobilidade a lugares que historicamente tiveram dificuldades para importar carros novos, como Cazaquistão, Belarus e países insulares do Caribe.
Se parece que os carros fabricados na China estão avançando ao redor dos Estados Unidos, é porque estão; portanto, deveríamos nos perguntar: como seria ver carros chineses à venda nos Estados Unidos? Vender carros chineses poderia ser benéfico? E o que isso significaria para os compradores de automóveis e para o mercado automotivo como um todo?
Embora muitos pensem que a resposta seria um mercado doméstico condenado pelas importações, será mesmo?
Os carros chineses estão aqui, gostemos ou não
Se você já dirigiu um Volvo, Buick, Lincoln, Chevrolet ou Tesla, basicamente já dirigiu um carro chinês. Essas marcas fabricam e vendem carros na China e ao redor do mundo.
Muitos componentes de veículos elétricos são desenvolvidos e produzidos na China, e muitas outras peças e sistemas de carros novos presentes em veículos fabricados nos Estados Unidos são desenvolvidos para a China ou utilizados no país.
Além disso, o mercado automotivo chinês produz muita inovação. O CEO da Ford, Jim Farley, elogiou o Xiaomi SU7 que dirigiu durante seis meses por sua engenhosa perfeição.
Eu dirigi vários carros chineses e também posso dizer que eles fazem muitas coisas corretamente, embora frequentemente também falte muita coisa.
Com mais de 150 marcas de automóveis à venda na China — algumas estatais, algumas apoiadas pelo Estado e outras independentes —, nem todas podem ser excelentes, baratas ou inovadoras.
Mas, sejam bons ou não, ou ofereçam ou não uma proposta de valor que o mercado automotivo maduro não consegue igualar, a preocupação fundamental permanece: a China vai desestabilizar a economia automotiva global?
E, sendo o maior mercado automotivo do mundo em receita, acabará também desestabilizando o mercado dos Estados Unidos?
A China é o novo Japão?
Qualquer pessoa que dirija um carro japonês — Toyota, Honda, Subaru, Mazda, Nissan, Mitsubishi — conhece a paixão por esses veículos por sua engenharia, fabricação sólida e tecnologia em evolução, de sistemas híbridos ao domínio fora de estrada.
Mas houve uma época em que não poderíamos imaginar isso: os anos 1970. Quando os carros japoneses chegaram aos Estados Unidos, eram vistos como claramente inferiores. Tendiam a ser pequenos, lentos e sem graça.
Mas os japoneses enxergaram o mercado dos Estados Unidos pelo que ele é: o maior e mais lucrativo mercado do planeta e um mercado que poderia proporcionar um futuro sustentável para o país.
Mas houve ainda mais resistência: os japoneses eram conhecidos por espionagem industrial e por roubar ideias de concorrentes empresariais.
As empresas tinham medo de fazer negócios com marcas japonesas nas décadas de 1970 e 1980.
A crise do petróleo forçou a questão. A guerra no Oriente Médio e os cortes na produção de petróleo fizeram os preços dispararem — soa familiar? —, tornando populares os carros japoneses menores e mais eficientes.
Os paralelos atuais são semelhantes: a economia dos Estados Unidos é marcada por preços de carros novos mais altos do que nunca, demanda crescente e, é claro, pelo desgaste causado pelo preço persistentemente elevado da gasolina, um fator que eleva o custo de todo o resto.
Superamos nossas objeções aos carros japoneses nas décadas de 1970 e 1980; deveríamos superar agora a oposição aos carros chineses?
Não é o que você faz, mas como você faz
Com a popularidade dos carros japoneses crescendo nas décadas de 1970 e 1980 e as montadoras americanas em declínio, as empresas começaram a fechar acordos. Toyota e GM; Ford e Mazda; Chrysler e Mitsubishi.
Os Estados Unidos queriam impor restrições às importações para ajudar as montadoras americanas, enquanto as fabricantes japonesas queriam estabelecer uma presença independente no país.
O governo Reagan, com o Congresso ameaçando aplicar tarifas sobre carros importados, tinha uma resposta: fabricar carros japoneses nos Estados Unidos.
Logo, Honda, Nissan e Toyota estavam construindo fábricas, formando parcerias com fornecedores locais e contratando americanos para operar suas fábricas e escritórios.
Isso não apenas permitiria às montadoras japonesas fabricar e vender por um preço melhor — já que não precisariam importar para os Estados Unidos do outro lado do mundo —, como também permitiria exportar para outros países, desenvolver novas linhas de modelos e crescer de uma forma que talvez não fosse possível sem essa expansão.
Poucas décadas depois, as marcas japonesas produzidas nos Estados Unidos, assim como as marcas europeias que seguiram o mesmo caminho, parecem tão americanas quanto a Chevrolet e, em alguns casos, ainda mais, com mais componentes americanos e mais carros montados no país do que algumas marcas dos Estados Unidos.
O que não mata fortalece
O benefício da concorrência é torná-lo mais forte, mais inteligente, mais enxuto — algo que as montadoras aprenderam enquanto se adaptavam à nova concorrência de fabricantes japoneses e europeus.
Não foi fácil, mas, ainda assim, Ford, GM e Stellantis — anteriormente Chrysler — estão entre as principais montadoras do mundo e adotaram muitos dos processos e padrões de concorrentes japoneses.
Novas marcas continuam surgindo nos Estados Unidos — Tesla, Rivian e Lucid lideram o grupo — e provavelmente haverá mais.
Embora o mercado automotivo atual possa parecer difícil, as montadoras americanas vendem mais carros, por preços mais altos, do que a maioria das outras fabricantes ao redor do mundo.
Trinta e sete montadoras venderam cerca de 16 milhões de unidades nos Estados Unidos no ano passado, a um preço médio de US$ 48.000.
A China, que vendeu 30 milhões de unidades, dividiu esse volume entre 150 marcas de automóveis, com preço médio de US$ 23.000. Os Estados Unidos continuam sendo o mercado mais lucrativo do mundo.
E quanto à questão da espionagem?
É claro que ela é um motivo para cautela ao trazer marcas chinesas para o mercado americano.
Embora tenhamos aprendido que o intercâmbio cultural leva a um melhor entendimento, melhor colaboração e menos ameaças à nossa existência — ou a uma melhor compreensão e gestão dessas ameaças —, proteger nossa segurança, privacidade e propriedade intelectual é uma preocupação central.
O que não fortalece pode matar
Os Estados Unidos são um mercado de “nadar ou afundar” para marcas estrangeiras. O tamanho do país, a logística necessária e o capital exigido para estabelecer operações em nossa economia podem tornar a entrada difícil, mesmo para marcas apoiadas por uma economia gigantesca como a da China.
Permitir a venda de carros chineses nos Estados Unidos também terá outras barreiras: nem todas as marcas conseguirão passar pelas rigorosas regras de segurança; nem todas serão aprovadas pelos consumidores; nem todas estarão dispostas a assumir a dívida e enfrentar a curva de aprendizado necessária para se estabelecer nos Estados Unidos.
E nem todas produzirão carros bons e de qualidade. E, assim como o Yugo, muitas fracassarão e encerrarão suas operações. É provável que essa seleção permita que apenas uma fração das marcas chinesas estabeleça vendas nos Estados Unidos.
E há também a osmose reversa do aprendizado: marcas chinesas aprendendo os gostos dos consumidores americanos e atendendo a eles, como já fizeram em escala muito menor por meio da Amazon.
Haverá coisas que aprenderemos com elas. E haverá um efeito de maré crescente sobre a tecnologia, desde sistemas embarcados até avanços em veículos elétricos que impulsionarão o mercado.
O que provavelmente não veremos é o carro de US$ 4.000 — ou mesmo um carro abaixo de US$ 18.000. A economia do mercado automotivo americano é resultado de muitos fatores, incluindo o custo de fazer negócios, o custo dos sistemas de segurança e o custo de construir um produto que as pessoas queiram.
Se formos inteligentes a respeito disso, provavelmente veremos mais inovação, carros melhores, infraestrutura melhor e a capacidade de superar questões fundamentais, como reduzir emissões e aumentar a autonomia. E um mercado automotivo mais forte, mais enxuto e mais resiliente.
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com
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