Eliminada precocemente de mais uma Copa do Mundo, a Seleção Brasileira de Futebol tem muito a ensinar sobre gestão ao mundo corporativo. Muito a ensinar sobre o que não fazer. Uma sucessão de gestões amadoras, politicagens e escolhas desastrosas e desastradas ajudam a compor o quadro do futebol que ainda é o mais vitorioso do mundo em disputa de seleções.
Deixo aqui uma lista de dez erros crassos de gestão cometidos pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) nos últimos anos que contribuíram para o quadro atual.
1 – Terceirização da Seleção
Em 2012 a CBF, então presidida por Ricardo Teixeira, assinou um contrato de dez anos com uma empresa britânica chamada Pitch International. Pelo contrato, a CBF recebia uma cota de US$ 3 milhões por partida amistosa, e a Pitch tinha direito a 100% das receitas advindas do dia de jogo, como comercialização de placas de publicidade e venda de direitos de TV. Além disso, o contrato dava à empresa poderes de escolha de adversários e até de jogadores a serem convocados. A Pitch exigia a escalação de jogadores com “alto potencial de marketing” entre os titulares. A empresa também determinava os locais de jogos e impôs um distanciamento da torcida brasileira, passando a jogar diante de adversários fracos e atuar mais em Londres e Dubai do que no Rio e em São Paulo.
2 – Mercantilização do Ambiente Esportivo
Inebriado pelas conquistas das Copas de 1994 e 2002, Ricardo Teixeira portava-se como o Imperador do futebol brasileiro. Embora não se metesse em decisões técnicas, algumas medidas administrativas tiveram impacto negativo. Na preparação para a Copa de 2006, realizada na cidade de Weggis, na Suíça, Teixeira vendeu os direitos de exploração dos treinos da Seleção para o grupo de marketing esportivo suíço Kentaro, por cerca de US$ 2 milhões. O acordo deu ao Kentaro a propriedade de 14 treinamentos e dois jogos amistosos. O que se viu foi uma farra de patrocinadores e convidados, com invasão de campo e um ambiente contaminado pela bagunça. Neste período, a presença de patrocinadores e convidados junto à Seleção sempre incomodou jogadores e comissão técnica.
3 – Falta de Liderança
A CBF teve cinco presidentes presos ou afastados num período de sete mandatos. A lista é vergonhosa. Em 2019, Ricardo Teixeira foi afastado e banido pela FIFA, envolvido em um caso de suborno, após ficar mais de 20 anos no poder. Substituto de Teixeira, José Maria Marin foi preso em 2015, no escândalo conhecido como “Fifagate”. Marco Polo Del Nero assumiu e foi banido por corrupção. Rogério Caboclo foi afastado da presidência da CBF em 2021, após denúncias de assédio moral e sexual. Edinaldo Rodrigues foi destituído do cargo de presidente da CBF em 2025, após uma sequência de disputas jurídicas que envolveram até o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Em comum, todos os presidentes presos ou afastados tinham a falta de liderança, conhecimento técnico e de gestão profissional de futebol.
4 – Ausência de Projeto
Mesmo tendo conquistado duas Copas do Mundo e chegado a uma final e uma semifinal entre 1994 e 2026, a CBF jamais apresentou um projeto esportivo para o futebol brasileiro. Escorada na genialidade de grandes jogadores, a entidade desfilou uma mudança absurda de treinadores, sem conexão alguma entre trabalhos. Jamais houve sequência de método. Até 2011, não existia um arquivo de dados sobre desempenho dos atletas. As escolhas de treinadores foram majoritariamente políticas. Projetos de renovação são raros. Iniciado em 1990 por Paulo Roberto Falcão, um deles abasteceu o time campeão de 1994. O plano de renovação de Mano Menezes foi abortado em 2013 para que Luiz Felipe Scolari voltasse ao comando da Seleção, numa medida populista que resultou no 7 a 1 diante da Alemanha. No ciclo do Mundial de 2026 o Brasil teve quatro treinadores, com perfis e resultados distintos.
5 – Modelo de Governança Ultrapassado
A CBF é uma entidade com modelo ultrapassado de governança, pautado por politicagem, troca de favores, traições e conchavos. A escolha dos presidentes é embasada num sistema desequilibrado de votos. O colégio eleitoral é formado pelos presidentes das 27 federações estaduais e pelos representadores dos 40 clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiros. Os votos têm peso. Os das federações têm peso 3, os dos clubes da Série A 2, e os da Série B, 1. A participação dos clubes é simbólica, já que as federações somam 81 votos contra 60 dos clubes. O modelo abre as portas para que dirigentes sem relevância histórica e conhecimento sejam eleitos, casos de Edinaldo Rodrigues, e do atual mandatário, Samir Xaud, da Federação de Roraima, uma das menos relevantes em termos técnicos.
6 – Falta de Transparência
Embora tente vender a imagem de uma empresa de direito privado sem relações com dinheiro público, a CBF mantém relações íntimas com o Poder nos bastidores. Figuras proeminentes da Política e do Judiciário gravitam em torno da entidade, algumas com enorme poder de decisão. A CBF fatura mais que qualquer clube do futebol brasileiro. O orçamento de 2026 prevê faturamento de R$ 2,6 bilhões, após déficit de R$ 182 milhões em 2025. Práticas como pagamento de mesadas a presidentes de federações, com método de controle eleitoral, contrastam com o desequilíbrio de investimentos. Mesmo que não tenha ingresso de dinheiro público diretamente, a CBF goza de uma série de isenções fiscais por ser uma entidade sem fins lucrativos. Na Copa de 2022, a CBF bancou a viagem de 49 convidados ao Catar, incluindo passagem aérea de primeira classe, hotel cinco estrelas e um cartão corporativo com verba de US$ 500 dólares por dia. Na lista estavam familiares do então presidente Edinaldo Rodrigues, parlamentares do Baixo Clero de Brasília, jornalistas e influenciadores.
7 – Departamentos sem conexão
Não existe uma relação consistente entre departamentos no que se refere ao futebol na Confederação Brasileira de Futebol. A Seleção principal quase sempre viveu à margem das equipes de base, colocada em uma redoma e sem um conjunto claro de ideias. Outrora referência em conquistas nos Mundiais de Categorias de Base, o Brasil venceu pela última vez em 2019, no Sub-17. No sub-20, não vence desde 2011 e em 2025 registrou a pior participação historicamente, sendo eliminada na fase de grupos. Inexiste projeto unificado de formação de jogadores. Cada clube faz como quer, o que não facilita a prospecção de talentos de acordo com a necessidade dos próprios clubes e da Seleção. A ideia geral é formar jogadores que atendam à necessidade de empresários e de clubes europeus. Daí a dificuldade de formar laterais, meio-campistas organizadores e centroavantes do futebol brasileiro.
8 – Insignificância Acadêmica
Embora tenha criado a CBF Academy e investido na criação de cursos de treinadores com licenças para níveis específicos, o futebol brasileiro é considerado irrelevante em termos acadêmico no mundo. O desenvolvimento recente do futebol em termos de estudo e inovações passa longe do País. A Copa de 2026 não teve nenhum treinador brasileiro trabalhando, e são raros os casos de sucesso de profissionais brasileiros atuando em ligas importantes. A formação da CBF não é reconhecida na Europa, e para atuar no Velho Mundo os treinadores brasileiros precisam estudar nos cursos validados pela Uefa (União Europeia de Futebol). Falta intercâmbio e ideias valorosas como o Congresso Internacional de Futebol promovido por Carlos Alberto Parreira, técnico campeão mundial em 1994, não prosperam. Nesse aspecto, a escola argentina é muito mais representativa. Na Copa América de 2024, por exemplo, das 16 seleções participantes, sete tinham técnicos argentinos. No Mundial de 2026, foram seis treinadores argentinos na primeira fase, maior número entre as nacionalidades. No Brasil a troca de conhecimento nunca foi praxe e são raras as publicações acadêmicas relevantes.
9 – Desigualdade orçamentária
A distribuição de dinheiro arrecadado na CBF é um dos exemplos mais gritantes da falta de um projeto de futebol consistente. A entidade paga R$ 77 milhões em prêmios na Copa do Brasil masculina e apenas R$ 1 milhão para o torneio feminino. A premiação da Copa do Brasil masculina é praticamente a mesma do investimento em logística na Série B: R$ 70 milhões. Atualmente, a CBF paga uma mesada de R$ 215 mil reais mensais para os presidentes de Federações. Chamada de verba de representação, inclui até um 16º salário. Além disso, a CBF paga R$ 1,2 milhão anual para as federações como verba de fomento.
10 – Distanciamento do público-alvo
A CBF trata mal seu principal cliente: o torcedor. A Seleção Brasileira chegou a ficar sem jogar em território nacional entre outubro de 2005 e junho de 2012. Ingressos caros, escolha de estádios em troca de favores políticos, horários ruins para atender a grade de TV e adversários sem atrativo ajudaram a compor esse quadro. A Seleção geralmente treina na Granja Comary, o luxuoso complexo da CBF em Teresópolis, Região Serrana do Rio de Janeiro. Ali fica praticamente isolada do contato com o torcedor comum, atendendo geralmente convidados e celebridades. O futebol brasileiro conversa mal com o torcedor. Apesar do amor do público pela história e pela tradição, o marketing é cada vez mais voltado à questão do faturamento e menos ao branding e ao relacionamento. Vide a desastrosa ideia de criar uma camisa vermelha, recentemente abordada e rapidamente abortada pela rejeição imediata do público.