Defender não é fácil. Você pode fazer uma partida perfeita durante 90 minutos mais os acréscimos. Basta perder a marcação por uma fração de segundo e pronto: o adversário faz o gol da vitória.
Quando um time inteiro defende, da frente para trás, a história pode ser bem diferente.
Um bom exemplo disso:
A Espanha chegou à final contra a atual campeã Argentina apoiada em uma das maiores atuações defensivas da história das Copas do Mundo.
Na verdade, a defesa espanhola, fator decisivo na sequência de 37 jogos de invencibilidade da seleção, pode ser justamente o melhor a solução para conter Lionel Messi e os dramáticos atos heroicos da Argentina nos minutos finais durante o mata-mata.

Uma defesa de pressão, da frente para trás
Com Unai Simón no gol, os espanhóis sofreram apenas um gol em sete partidas e ficaram com o placar zerado em seis delas. O belga Charles De Ketelaere detém a marca de único jogador a balançar as redes contra os campeões europeus, que venceram aquela partida das quartas de final por 2 a 1.
O sucesso do time vai muito além dos números puros.
A Espanha joga, dos atacantes à linha defensiva, com pressão e marcação individual firme. Essa estratégia sufocou adversários que tentavam levar a bola além do meio-campo, que dirá chegar a uma boa posição para finaliza.
Isso nunca ficou tão evidente quanto na vitória por 2 a 0 sobre a França, na semifinal. A Espanha limitou o badalado ataque francês e cortou os passes para o centroavante Kylian Mbappé (oito gols), que conseguiu apenas dois chutes. A defesa coletiva foi tão eficiente que tirou de campo o excelente articulador francês Michael Olise, sem respostas para resolver o problema imposto pelos rivais.

“Começamos há quase quatro anos com uma ideia, fomos fiéis a essa ideia e ela nos trouxe até aqui”, disse o técnico da Espanha, Luis de la Fuente.
“Hoje enfrentamos uma das melhores seleções do mundo, mas do outro lado eles tinham a melhor seleção do mundo. Isso é diferente. Estes jogadores merecem tudo — dia após dia mostraram seu comprometimento, sua solidariedade, sua generosidade, seu talento.”
Didier Deschamps, que comandará a França em seu último jogo como treinador, admitiu que a Espanha “defendeu extremamente bem e nós nunca entramos no jogo. Não conseguimos jogar como costumamos jogar”.
“Tínhamos grandes ambições, mas temos de admitir que a Espanha foi melhor; eles fizeram um trabalho muito bom. Tentamos de tudo, mas a Espanha mostrou que está em outro nível. Tentamos, falhamos, simplesmente não foi suficiente.”
A defesa da Espanha vai muito além do goleiro. O time adota um estilo de pressão. A marcação firme, a velocidade e o excelente posicionamento fecharam as linhas de passe e dificultaram que os adversários passassem do meio de campo.

Dupla de zaga formada por um veterano e um jovem
E, quando conseguem passar, encontram a dupla de zaga formada por Aymeric Laporte e Pau Cubarsí, que fez a Copa do Mundo mais próxima da perfeição que um zagueiro pode fazer, afastando um sem-número de bolas do perigo.
De la Fuente, aliás, decidiu escalar juntos um adolescente e um veterano no meio da defesa.
Laporte, de 32 anos, que já foi o pilar do Manchester City em cinco títulos da Premier League, na Inglaterra, não atua por um dos gigantes da La Liga, como Real Madrid ou Barcelona. Ele defende o Athletic Bilbao, embora seu poder de barganha possa subir depois da Copa do Mundo, especialmente se a Espanha ficar com o título.
É bastante irônico que Laporte tenha ajudado a anular os franceses, já que nasceu na França. No entanto, nunca foi convocado para a seleção do país. Como é de origem basca, estava apto a defender a Espanha. Estreou pela La Roja em 2021 e soma 52 jogos pela seleção.
Cubarsí, de 19 anos, já atuou 84 vezes pelo Barcelona e é uma estrela em ascensão, além de ter 19 partidas pela La Roja. Sua capacidade de estar no lugar certo na hora certa impressiona para um adolescente.
Contra a França, ele deu um desarme decisivo em Mbappé e fez incontáveis cortes.
“É difícil, nas categorias de base, que as pessoas falem de você”, disse o ex-meio-campista do Barcelona Óscar García, em declaração publicada pela Sky Sports. “Normalmente, elas falam de um Lamine Yamal, de um Lionel Messi, esse tipo de jogador. Não de um zagueiro. Mas, para mim, Cubarsí é fantástico.”
“Tenho certeza de que ele será um dos cinco melhores zagueiros da história.”
Um elogio e tanto para um adolescente.
A próxima missão de Cubarsí pode ser tentar parar Messi, que confundiu os adversários com seus gols na fase de grupos. No mata-mata, Messi virou um articulador supremo, deixando os companheiros na cara do gol em vitórias decisivas construídas no apagar das luzes.
Sonhando em enfrentar Messi na final
No início do torneio, Cubarsí disse que sonhava em enfrentar Messi e a Argentina na final.
“Se pudéssemos ter uma final contra Messi, seria espetacular, porque significaria que estaríamos na final e mais perto de vencê-la”, afirmou Cubarsí.
“Se fosse contra Messi, que sempre foi um dos meus ídolos, seria magnífico.”
“Nunca imaginei enfrentar Messi, mas eu teria de estar cem por cento atento, porque nunca se sabe de onde vai vir.”
Se será um sonho ou um pesadelo, Cubarsí e seus companheiros vão descobrir em breve, no domingo.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com