A compra de uma fatia minoritária da equipe Aston Martin de Fórmula 1 pelo bilionário americano Woody Johson é mais um capítulo da mudança de perfil da principal categoria do automobilismo mundial.
Estabelecida e consagrada como esporte majoritariamente europeu, a F-1 está cada vez mais americanizada. O processo teve início com a compra da categoria pela Liberty Media, gigante de mídia e entretenimento com sede no Colorado, nos Estados Unidos. A partir de 2017, a Liberty Media implantou uma série de mudanças na F-1, buscando rejuvenescer público e tornar a categoria mais atraente em termos mundiais, principalmente para o mercado dos EUA.
Aqui é preciso contextualizar. Os Estados Unidos têm duas categorias de automobilismo consolidadas e tradicionais para o público local: Nascar e Fórmula Indy.
Embora a Indy seja considerada um evento internacional, seu faturamento e valor de mercado, assim como os da Nascar, não fazem cócegas na F-1. Enquanto a Indy fatura anualmente US$ 200 milhões, a Nascar chega a US$ 1,7 bilhão e a F-1 acelera para US$ 3,7 bilhões.
Pode soar absurdo enxergar americanização numa categoria que tem apenas duas equipes com base nos Estados Unidos, a Haas e a Cadillac. No entanto, mais de dez empresários americanos investem na categoria. A tradicionalíssima Williams foi comprada pela americana Dorilton Capital. Além do movimento da Aston Martin, equipes como McLaren, Mercedes e Alpine têm acionistas americanos.
Um observador atento pode lembrar da participação histórica da Ford, um portento do mercado automotivo dos EUA, na F-1. Mas esta atuação sempre esteve relacionada a seu braço europeu, a um dos braços europeus da Ford, a Cosworth.
O objetivo da Liberty Media é fazer a Fórmula 1 acontecer no maior mercado de esportes do planeta, que é sua casa. Sem, no entanto, abandonar o status de competição mundial.
Para empresários americanos, investir em esportes com perfil europeu é desafiador. Woody Johson, que investiu na Aston Martin, é dono do New York Jets, time de futebol americano, e tem participação no Crystal Palace, time de futebol inglês.
Duas lógicas de mercado esportivo de esportes de perfil europeu incomodam os investidores americanos. No caso da F-1, em especial, o desequilíbrio financeiro entre equipes grandes e pequenas, que gerou falta de competitividade histórica. Os americanos gostam de muita gente competindo, histórias de reconstrução e novidades. Por isso muitos relutam em colocar dinheiro no futebol, o nosso, de perfil europeu.
Os sistemas competitivos dos EUA e da Europa são distintos. Nos esportes americanos impera o modelo fechado. Ligas com franquias de times que têm donos e jogam entre si, sem ferramentas de acesso e rebaixamento. Há uma certeza em termos de calendário. No modelo aberto, o do futebol internacional, há mobilidade, acesso e rebaixamento, e nem sempre os times mais poderosos têm garantia de enfrentamento, o que gera mais receita.
A Liberty Media comprou um produto de raízes europeias, tradicionalíssimo, e está dando a ele um sotaque americano, em busca de novos investidores, novo público, e garantia de entretenimento. Os resultados têm mostrado que a aposta foi certeira em termos de faturamento e audiência. Desde 2017, quando a Liberty Media assumiu, a audiência de TV nos EUA cresceu 142%. O modelo agora migrou para a plataforma Apple TV. Mais de 80% dos novos patrocinadores da Fórmula 1 são empresas dos Estados Unidos. O valor de mercado da categoria saltou de US$ 8 bilhões em 2017 para mais de US$ 25 bilhões.