China se prepara para assumir a liderança mundial

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Skyline do moderno distrito de Pudong, o centro financeiro de Xangai, epicentro comercial da China

Nĭ hăo. Se você não fala nem “olá” em mandarim, procure aprender rapidamente, pois, além de ser a língua mais falada do planeta, esse é o idioma de quem vai liderar os negócios mundiais em pouquíssimo tempo. O projeto do presidente chinês Xi Jinping é dobrar o PIB (Produto Interno Bruto) e a renda per capita da China até 2035. Com isso, entre 2027 e 2028 o país ultrapassará os EUA como a maior economia do mundo, antecipando a previsão anterior, que era para 2033.

Enquanto seus concorrentes amargaram queda no PIB em 2020 por causa da pandemia do coronavírus, a China apresentou crescimento, passou de US$ 14,7 trilhões para US$ 15,2 trilhões. Já o PIB americano caiu de US$ 21,4 trilhões para US$ 20,8 trilhões, e o brasileiro passou de US$ 1,8 trilhão para US$ 1,4 trilhão, derrubando o Brasil da 9ª para a 12ª posição no ranking das maiores economias do mundo. Para este ano, a meta da China é crescimento de 6%, número considerado conservador para o padrão chinês e que reflete a necessidade do país em controlar seu déficit fiscal e a insegurança acerca da recuperação da economia mundial pós-Covid.

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Em outubro passado, ao aprovar o 14º Plano Quinquenal, o governo chinês definiu as três prioridades para o período entre 2021 e 2025: inovação tecnológica, autossuficiência econômica e meio ambiente mais limpo. A estratégia é investir em pesquisa e desenvolvimento de alta tecnologia, incluindo o polêmico 5G; garantir a segurança alimentar de sua população gigante, controlando a cadeia de produção de grãos; e investir cada vez mais em energia renovável.

“A China bateu agora 70% do PIB dos Estados Unidos. O único país que havia chegado a esse ponto foi o Japão na década de 1980 e começo de 1990, e que depois disso foi parar em 25% do PIB americano, com uma recessão violenta”, comenta o professor-adjunto do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Hermógenes Saviani Filho. “Provavelmente não acontecerá a mesma coisa com a China porque seu imenso mercado consumidor interessa às empresas norte-americanas, e o país não depende, do ponto de vista da segurança, dos Estados Unidos.”

Para o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, Charles Andrew Tang, a expectativa é de que o governo Joe Biden não seja tão protecionista como seus antecessores. “Biden aparenta ser uma pessoa decente e, embora a competição entre os dois países deva continuar forte, ele não deve fazer uma guerra comercial ao estilo Trump porque ficou mais do que claro que essa estratégia só trouxe danos para empresas americanas e chinesas, e quem pagou a conta foi o povo americano”, comenta.

“Não esperamos que Biden vá isolar a China, como tentou Barack Obama, que pediu para seus aliados não participarem como membros fundadores do Asian Infrastructure Investment Bank, em 2015, e naquela época só Estados Unidos e Japão ficaram de fora, porque todos os aliados estavam mais interessados em ganhar dinheiro com a China do que isolar o país”, relembra Tang.

O professor Giorgio Romano Schutte, da cadeira de Relações Internacionais e Economia da Universidade Federal do ABC, explica que não há, na Europa, o entendimento de que a ascensão da China representa algum tipo de ameaça ao mundo. O incômodo chinês estaria nos países vizinhos como Índia, Vietnã, Taiwan e Japão, que temem o poder econômico da China, mas fazem negócios com ela e simultaneamente reforçam a relação militar com os Estados Unidos. “É uma espécie de hedge”, afirma.

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O Brasil e os negócios da China

A China se tornou o maior comprador de produtos brasileiros e exerce forte influência econômica em muitos países latino-americanos, mas, apesar de ser o maior parceiro comercial do Brasil e responsável por US$ 33,6 bilhões do superávit de US$ 50,9 bilhões registrado na balança comercial em 2020, a relação diplomática entre os dois governos passa por altos e baixos. Foram várias saias justas por causa, principalmente, da aliança Bolsonaro-Trump e de uma visão desatualizada sobre a China.

“Desde a entrada na OMC, no início dos anos 2000, a China deixou de ser aquele país que vendia produtos de baixa qualidade e adotava práticas antiéticas de competição, e passou a ser o país que se destaca pelo seu crescimento; por ser o maior demandante de commodities do mundo inteiro, como minério de ferro, soja, petróleo e proteína; e que busca liderança estratégica em setores específicos”, afirma o economista Lívio Ribeiro, do Ibre/FGV, especialista na potência asiática. “O problema é que muitos políticos brasileiros e até executivos de C-level ainda olham para a China com a mentalidade antiga.”

Autor do livro “Oásis para o Capital – Solo Fértil para a ‘Corrida de Ouro’: A Dinâmica dos Investimentos Produtivos Chineses no Brasil”, o professor Giorgio Romano Schutte considera que “a presença de investimentos chineses no Brasil é sempre alvo de polêmica e análises tingidas por questões ideológicas, onde se pretendem apenas técnicas ou econômicas”.

Por causa disso, Charles Tang ressalta que “a China não tem interesse em comprar o Brasil e não quer guerra com ninguém”, referindo-se a um comentário feito por Bolsonaro durante a campanha em 2018. Os sinólogos são unânimes em afirmar que o avanço tecnológico chinês é do interesse de todos. “Enquanto a gente discute o 5G, a China já está no 6G; enquanto estamos começando a falar no Brasil de veículos elétricos, a China já está trabalhando em veículos que usam hidrogênio como combustível”, diz Tang.

Reportagem publicada na edição 85, lançada em março de 2021

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