Como investir na Europa a partir do Brasil?

Exposição ao euro pode ser vantajosa para se proteger de riscos domésticos e manter poder de compra.

Isabella Velleda
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RM Carvalho/Getty Images
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Abertura de conta em uma corretora europeia é uma das opções disponíveis, mas envolve mais custos e burocracia

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Investir na Europa é uma das maneiras mais eficientes de diversificar a carteira de investimentos e de diminuir a exposição aos ruídos da economia brasileira.

O euro, afinal, é considerado uma das moedas mais estáveis do mundo, ao lado do dólar norte-americano, agindo como porto seguro em momentos de crise econômica ou de tensão nos mercados financeiros.

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Ainda assim, segundo Shanoa Pereira, head de wealth da Órama Investimentos, a oscilação do câmbio é vista por grande parte dos brasileiros como um dos principais impedimentos a fazer investimentos em moedas estrangeiras.

“No entanto, o conceito deveria ser o oposto: ter a maioria dos recursos em reais é o que faz com que o patrimônio dos brasileiros oscile muito em termos de poder de compra”, afirma a analista.

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Afinal, no mundo globalizado de hoje, vários produtos são cotados em dólares ou euros – quando há desvalorização do real, esses produtos parecem mais caros.

“Já a parcela dos investimentos que estão em moeda forte normalmente mantém o poder de compra”, complementa.

Para Piter Carvalho, economista da Valor Investimentos, possuir investimentos em euro é especialmente vantajoso para quem viaja constantemente. “Com alguns desses investimentos, você não precisa ficar fazendo câmbio toda hora e evita perdas que podem surgir dessas transações.”

Segundo os analistas, existem quatro maneiras principais de investir na Europa a partir do Brasil:

ETFs

Uma das maneiras mais fáceis para investir na Europa é comprar ETFs, também chamados de fundos de índices, negociados na B3. Esses são fundos de investimentos que visam replicar a carteira teórica de um índice do mercado financeiro, refletindo o seu desempenho. Por essa razão, eles são conhecidos como fundos de gestão passiva.

O primeiro ETF lançado no Brasil com o objetivo de replicar um índice europeu foi o EURP11, da XP Inc, de janeiro de 2021. Ele utiliza como referência o índice MSCI Europe IMI, que abarca 1.490 ações de empresas de 15 países europeus. A Nestlé, o conglomerado de luxo LVMH, a Shell e fabricante de vacinas AstraZeneca são algumas das companhias contempladas pelo ETF.

Segundo a XP, o fundo oscila de acordo com o retorno das ações na Europa, bem como o retorno das moedas dos respectivos países contra o real. Para replicar o índice escolhido, o fundo investe, majoritariamente, em cotas do ETF iShares Core MSCI Europe, negociado na Bolsa de Valores de Nova York.

Atualmente, o EURP11 é o único ETF negociado no Brasil que possui exposição praticamente exclusiva ao mercado europeu. É preciso lembrar, porém, que o fundo possui uma taxa de administração de 0,39% ao ano.

BDRs (Brazilian Depositary Receipts)

Outra maneira simplificada de obter exposição ao mercado europeu é através da compra de BDRs (Brazilian Depositary Receipts), também conhecidos como certificados de depósito de valores mobiliários, que representam ativos internacionais na B3.

Nesse caso, o investimento nos ativos europeus se dá de forma indireta, já que os certificados são lastreados nessas ações.

Na B3, é possível encontrar BDRs de empresas como AstraZeneca (A1ZN34), Unilever (ULEV34), AB InBev (ABUD34), Deutsche Bank (DBAG34), Credit Suisse (C1SU34), Nokia (NOKI34) e Shell (RDSA34), entre outras.

Existem, inclusive, os BDRs de ETFs, como é o caso do BIEV39. Esse BDR representa o ETF iShares Europe, que, por sua vez, acompanha o índice S&P Europe 350.

O BIEV39 começou a ser negociado irrestritamente na B3 em junho de 2021.

Fundos de investimento internacionais

Também é possível alocar recursos na Europa através de fundos de investimento internacionais. Nessa modalidade, os investidores adquirem cotas do fundo e os recursos são aplicados em conjunto no mercado acionário europeu por um gestor profissional. Por essa razão, eles são conhecidos como fundos de gestão ativa.

A estratégia, porém, costuma estar disponível apenas para investidores qualificados – ou seja, que possuem investimentos em valor superior a R$ 1 milhão.

Carolina Oliveira, head de análise da plataforma de fundos da XP, cita o Jupiter European Growth Advisory FIA IE como exemplo. Gerido pela britânica Jupiter e disponibilizado no Brasil através da XP, o fundo investe majoritariamente em ações de empresas europeias com perspectivas de alto crescimento e abrange entre 35 e 45 papéis.

Já o Bradesco, por exemplo, oferece o Europa FI Ações IE, que tem como benchmark o índice MSCI Europa e tem exposição cambial a moedas europeias. Assim como o Jupiter, a carteira desse fundo é composta principalmente por ações de empresas europeias.

É preciso lembrar que o investirá deverá arcar com taxas de administração, e, em alguns casos, taxas de performance também podem ser cobradas.

Conta em uma corretora europeia

A opção que oferece a maior autonomia na hora de investir no mercado europeu é a abertura de conta em uma corretora europeia.

Embora as corretoras apresentem pré-requisitos distintos – algumas não aceitam brasileiros -, o investidor geralmente pode abrir uma conta mediante a apresentação de alguns documentos.

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A escolha, porém, deve ser bem pensada: “É importante considerar a neutralidade, a qualidade de serviço, a burocracia e os impostos de cada país”, afirma Pereira. Ela cita como bom exemplo a Suíça, que tradicionalmente proporciona maior segurança aos investidores.

“Com relação ao banco ou corretora, também é necessário olhar a sua solidez, a tradição e suas vantagens competitivas como preço, agilidade e acesso a uma grande variedade de produtos”, explica.

A grande vantagem de investir através de uma conta internacional é justamente o acesso a mais opções de investimentos do que aquelas presentes na B3. As desvantagens, porém, incluem gastos adicionais com IOF (imposto sobre operações financeiras), câmbio e tributação.

“Isso muda como você vai declarar o seu imposto de renda, e por isso é importante contar com a ajuda de um contador”, diz Carvalho. “O imposto é maior, e não há isenção para vendas mensais de ações inferiores a R$ 20 mil, como há aqui, por exemplo”.

Vale a pena investir na Europa?

Segundo os analistas, desde a introdução do euro, o desempenho dos mercados domésticos europeus é quase sempre explicado pela performance dos setores que o compõem.

O EuroStoxx600, nesse sentido, é um índice bem representativo: há exposição de 16% ao setor financeiro, 15% ao setor industrial, 14% ao setor de saúde, e 5% ao setor de energia. Para Pereira, da Órama Investimentos, os mais atrativos do momento são justamente o financeiro, de saúde e de energia.

Sobre o primeiro, ela comenta: “Espera-se que as ações se valorizem nos próximos meses à medida que as taxas de juros aumentam e o crescimento econômico permaneça alto. Além disso, o setor oferece dividendos particularmente atraentes.”

Já o setor de saúde deve continuar em crescimento graças ao envelhecimento da população, enquanto o setor energético deve se beneficiar da reabertura das economias e da transição para uma energia mais verde.

Entre os mercados que apresentam maior exposição a esses setores, ela cita a Suíça e o Reino Unido.

“Apesar de um alto nível de inflação e, portanto, de um banco central que está mostrando sinais de estar aberto a uma política monetária mais restritiva, a política do Banco Central Europeu continuará a ser uma das mais acomodativas”, avalia Pereira.

“Além disso, as ações já foram impactadas no início do ano devido à expectativa de aumento de taxas de juros para combater a inflação. Isso deixou os preços bastante atraentes em relação ao crescimento econômico que deve ficar a níveis importantes em 2022”, diz.

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