Declínio da Robinhood marca o fim da 'era dourada' dos pequenos investidores

Aplicativo democratizou o acesso ao mercado de ações, mas esses novatos nunca enfrentaram um ciclo de baixas das bolsas dos EUA como o atual.

Jason Bisnoff
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Jamel Toppin/Forbes
Jamel Toppin/Forbes

Os fundadores da Robinhood, Baiju Bhatt e Vlad Tenev

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Nenhuma plataforma de negociação exemplificou tanto uma era como a Robinhood, o aplicativo que permitiu que jovens norte-americanos investissem em ações de forma barata a partir de seus telefones

A empresa combinou a ideia de jogos online com investimentos em um pacote colorido que se tornou popular o suficiente para que, em 2020, fosse palco de uma insurgência que desafiou uma Wall Street empoeirada e distante.

O caos criado pelo episódio foi chamado de “meme investing” (investimentos em memes), mas na prática não passou de uma defesa de companhias esquecidas, como a GameStop e a AMC Entertainment

Leia mais: GameStop: o dia em que usuários do Redditt desafiaram Wall Street

O apoio que essas empresas moribundas receberam chocou investidores tradicionais. Eles viram o movimento como um caos gerado pela ralé indisciplinada que passou a fazer parte do mercado de ações graças à sua democratização. 

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A Robinhood era nova, moderna e desafiava o status quo. A Robinhood estava na moda. 

Hoje, nem tanto. 

A revolução dos investidores de varejo que se rebelaram contra as Fidelitys e as BlackRocks do mundo dos investimentos ocorreu durante um dos ciclos de altas mais longos das bolsas dos Estados Unidos. Agora, os usuários e acionistas da Robinhood começam a perceber que esses tempos áureos acabaram.

O S&P 500 caiu mais de 10% em relação ao seu recorde histórico, um soco que a Robinhood levou diretamente no estômago. As ações da companhia caíram 43% este ano e 70% desde o IPO, em 2021. O número de usuários ativos mensais está 10% menor,  e a empresa diz que está cortando 9% de seus funcionários. 

Para completar, os dois fundadores da plataforma, Vlad Tenev e Baiju Bhatt, não fazem mais parte da lista da Forbes de bilionários. 

Veja também: A história dos fundadores bilionários da Robinhood e os tubarões que se alimentam do aplicativo que eles criaram

“Estamos enfrentando um cenário macroeconômico desafiador, algo que a maioria dos nossos clientes nunca viu em suas vidas”, disse Tenev a investidores em uma teleconferência de resultados na quinta-feira (28).

Ele tem razão: a Robinhood não existia na última vez em que as bolsas dos EUA passaram por um período prolongado de perdas. 

Desde o lançamento do aplicativo, em 2012, o S&P 500 subiu cerca de 240% (mesmo contabilizando as quedas deste ano), e cresceu mais de cinco vezes desde sua mínima histórica de março de 2009. 

Em outras palavras, foi quase impossível ter prejuízos investindo em ações durante a última década ou mais.

Isso se deve em parte à política monetária expansionista do Federal Reserve, o banco central dos EUA, implementada para combater a recessão que seguiu a crise financeira de 2008-2009. 

A era do dinheiro barato fez com que os lucros corporativos e as ações disparassem, e os pequenos investidores surfaram essa onda. Agora, muitos deles estão percebendo que investir em ações não é tão emocionante quando não se ganha sempre.

“A realidade é que investir por conta própria parece algo divertido e fácil quando as bolsas estão registrando altas atrás de altas”, diz Michael Kitces, chefe de estratégia de planejamento da Buckingham Wealth Partners. “Só com um mercado em baixa e algumas perdas no histórico é que se pode distinguir os investidores com sorte e os investidores habilidosos.”

Isso inclui Allen Fok, de 31 anos, gerente de uma empresa de software que era adolescente quando as bolsas estavam nas mínimas históricas. Ele investe por meio da plataforma da Robinhood desde junho de 2020 e diz que viu as carteiras de outros investidores de varejo “implodirem” de janeiro para cá.

O nativo de Queens, em Nova York, comprou sua primeira ação, da Marathon Digital Holdings, por recomendação de um usuário anônimo feita na rede social Discord. A empresa de mineração de criptomoedas subiu 300% logo depois, mas a carteira de Fok caiu 50% desde que ele começou a investir.

O norte-americano se casou durante a pandemia e conseguiu um novo emprego, e conta que tem usado menos a plataforma hoje em dia porque tem menos tempo,  mais aversão a risco e mais conhecimento sobre as oscilações do mercado. 

A Robinhood perdeu mais de 1 milhão de usuários desde o ano passado, e a receita da negociação de ações caiu 73%.

Brian Stone, de 43 anos, é gerente de projetos na Bath and Body Works. Ele acompanhou seus colegas de trabalho e abriu uma conta na Robinhood durante um lockdown em 2020. Ele conta que usou a plataforma para investir em ações, mas manteve um plano de previdência privada em outra instituição financeira.

Stone afirma que sua carteira sofreu “sérias perdas” nos últimos meses. No auge, ele chegou a ver uma valorização de 42%. Então veio a liquidação deste ano. Agora, seu portfólio registra 5% de alta e ele diz que compra e vende ações com menos frequência do que antes.

Ganhar dinheiro durante um ciclo de altas das bolsas não necessariamente significa que o investidor é um investidor bem-sucedido, diz Hersh Shefrin, economista especializado em finanças comportamentais e professor na Universidade de Santa Clara. Mas quase todo mundo se sente bem-sucedido quando ganha dinheiro.

Em nenhum lugar esse sentimento é mais verdadeiro do que no fórum WallStreetBets, na rede social Reddit. Foi lá que os pequenos investidores se organizaram para investir em massa na AMC, na GameStop e em outras ações meme. 

Onde antes reinava um otimismo inabalável e chamados coletivos para “HODL” (gíria para manter a posição comprada), agora restam apenas imagens de capturas de telas de carteiras no vermelho já afetadas pelos primeiros indícios de um longo período de baixas. 

Pode-se dizer que os pequenos investidores que frequentam o fórum não têm aceitado bem as perdas. 

Um deles publicou uma captura de tela mostrando os 89% de desvalorização de seu portfólio, o equivalente a US$ 51 mil (R$ 250 mil) que se evaporaram em dois anos. Desse montante, US$ 30 mil (R$ 147 mil) foram obtidos por meio de um empréstimo a uma taxa de juros extraordinariamente alta de 14% – o usuário perdeu o valor em apenas um mês. 

Antes da era do invista-você-mesmo, da qual a Robinhood foi uma parte tão importante, os investidores podiam ao menos culpar um consultor financeiro, e não eles mesmos, pelas perdas que aconteciam. 

Sem essa possibilidade, no entanto, eles têm licença poética para entrar em pânico. 

Diante dos baixos patamares dos principais índices de ações após 13 anos de ganhos históricos, Susan Kaplan, presidente da Kaplan Financial Services, conta que a ansiedade dos investidores anda fora de controle. 

“As quedas que vimos equivalem a trocados se comparadas com o que acontece em ciclos de baixa”, diz ela. “Mais do que uma testar a força das empresas, [esse movimento] escancara a fragilidade dos humores dos investidores.”

Mas para uma nova geração que só viu as ações dispararem, mesmo o primeiro vislumbre do que poderia ser um longo pesadelo não parece suficiente para convencê-los a trocar a vaidade de investir por conta própria pelos conselhos de um profissional. 

Não vale a pena gastar dinheiro contratando uma assessoria de investimentos, “especialmente quando o mercado está em baixa”, diz Fok. “Você estaria pagando a eles para perder dinheiro para você, algo que você pode perfeitamente fazer sozinho.”

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