Vendedor de carros usados criou a startup mais valiosa da América Latina

A Kavak está se expandindo para o Chile, Colômbia, Peru e Turquia, adotando transparência e eficiência no fragmentado mercado de carros usados

José Caparroso
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Fernando Luna Arce
Fernando Luna Arce

A Kavak foi criada em outubro de 2016 no México

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Carlos García Ottati estava morando em Bogotá quando conseguiu um novo emprego na Cidade do México. Ele tentou vender seu carro, mas não teve sucesso, então o deixou para um amigo, que levou seis meses para completar a venda. Depois de se mudar para o México, García Ottati comprou um carro usado, mas depois descobriu que tinha vários problemas mecânicos.

“Percebi os riscos que existem quando não há transparência ou garantia para essas transações”, disse García Ottati, venezuelano de 39 anos, fundador e CEO da Kavak, à Forbes Colômbia. “Naquele momento, percebi a oportunidade nesse mercado.”

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A Kavak foi criada em outubro de 2016, quando García Ottati, junto com seus cofundadores Loreanne García e Roger Laughlin e uma equipe de 15 pessoas, decidiram abrir uma empresa no México que eliminaria o problema da fraude e garantiria reparos mecânicos para que os clientes pudessem se sentir confortáveis comprando carros usados.

Agora, a Kavak é a startup mais valiosa da América Latina, valendo US$ 8,7 bilhões (R$ 47,83 bilhões) – com base em financiamento de investidores privados como SoftBank e General Atlantic.

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A empresa possui mais de 5 mil funcionários e 40 centros de recondicionamento de carros usados. A Kavak tem como missão corrigir as ineficiências de um mercado gigantesco e fragmentado com um modelo de negócios que busca garantir transações seguras e transparentes.

A expansão internacional é um passo natural para empresas emergentes que crescem nessa velocidade, mesmo em tempos de incerteza econômica.

Enquanto muitas empresas na região estão esperando para dar novos passos, a Kavak decidiu aumentar sua presença no México, Argentina e Brasil, além de lançar operações na Colômbia, Peru, Chile e Turquia.

A empresa não divulgou sua receita, mas diz ter um estoque de 25 mil carros para os compradores escolherem.

Comprar um carro usado na América Latina pode significar lidar com a dor de cabeça de uma complexa teia de etapas arriscadas e inseguras. Desde o início, García Ottati percebeu que, para a venda de carros usados, diferentes economias emergentes compartilhavam dois problemas semelhantes.

Por um lado, as transações são altamente vulneráveis ao risco de fraude; por outro, o acesso à compra de um carro é limitado pelas poucas opções de financiamento disponíveis.

“Na América Latina, nenhum player formal tem mais de 1% do mercado e 90% das transações ocorrem entre pessoas físicas, fazendo com que algum tipo de irregularidade afete mais de 40% das [vendas] e aumentando o risco do usuário de ser um vítima de fraude financeira, mecânica ou outra”, afirma García Ottati.

“Nessas condições, é difícil para as instituições correrem o risco de financiar automóveis, gerando assim barreiras proibitivas que impedem os cidadãos de melhorar sua qualidade de vida por não poderem comprar um carro.”

Divulgação/Kavak

Sede da Kavak

Em mercados mais desenvolvidos, como os EUA, menos de 10% das transações de carros usados ocorrem informalmente, enquanto mais de 90% das vendas são financiadas, o que permite que sete em cada dez cidadãos dos EUA possuam um carro.

Em contraste, na América Latina apenas 1,5 em cada 10 habitantes possui um carro, segundo cálculos da equipe de pesquisa de Kavak.

“Em países com economias emergentes há pouca visibilidade legal nas transações de automóveis, além da baixa taxa de acesso ao financiamento. Assim, somente quem já possui um carro pode adquirir outro. Por isso, a prioridade dentro da indústria na América Latina é quebrar aquelas barreiras que afetam 90% das pessoas que não conseguem melhorar sua qualidade de vida porque não têm acesso a um carro”, explica o CEO da Kavak.

Antes de fundar a Kavak, García Ottati obteve um MBA da Said School of Business da Universidade de Oxford, seguido por um período de dois anos na McKinsey & Co. trabalhando com clientes latino-americanos.

Em seguida, mudou-se para a empresa de comércio eletrônico da América Latina Linio, onde atuou como diretor de mercado e fez parte da equipe de gerenciamento. Toda essa experiência entrou em jogo na Kavak, onde criou um modelo que controla todas as etapas do processo, desde a inspeção (observando 240 pontos mecânicos em cada carro), passando pela compra, recondicionamento e venda do veículo, além da garantia e serviços pós-venda.

García Ottati provavelmente estava de olho na empresa de venda de carros usados online dos EUA chamada Carvana, que foi fundada em 2012 e abriu seu capital em 2017.

Carvana invadiu o mercado dos EUA durante os dois primeiros anos da pandemia; as receitas mais que dobraram para US$ 12,8 bilhões em 2021 em relação ao ano anterior. Mas a empresa ainda não obteve lucro. Em maio, demitiu 12% de seus funcionários.

O CEO da Kavak percebeu que, para transformar o setor, precisava suportar a enorme complexidade do modelo operacional com dados, tecnologia e inteligência artificial (IA).

Para isso, foi necessária a criação do algoritmo Kavak, uma ferramenta de tecnologia avançada que utiliza informações públicas da indústria automotiva, além do uso dos próprios dados do Kavak gerados a cada transação.

O mecanismo também é capaz de prever preços de mercado para carros usados, para estabelecer valores justos e atualizados para os usuários tanto em seus processos de compra quanto de venda.

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“Desde o início, Kavak nasceu com o objetivo de resolver os problemas subjacentes desta indústria altamente fragmentada, e sabíamos que se conseguíssemos formalizar com sucesso o mercado mexicano – um território que contabiliza mais de seis milhões de transações anuais, e onde apenas 5% das vendas de carros usados recebem financiamento – isso nos permitiria mudar a vida dos mexicanos e, mais ainda, levar nossas soluções para toda a América Latina e o resto do mundo”, acrescenta García Ottati.

Em seus primeiros quatro anos, a Kavak concentrou esforços na construção de sua operação no México para aprimorar um modelo de negócios que pudesse ser exportado para territórios com complexidades semelhantes.

García Ottati levou a empresa a desenvolver sua própria solução financeira que ofereceria opções de financiamento aos usuários, com base no cálculo de sua capacidade de pagamento por meio de algoritmos de dados e IA. Com ele, a empresa conseguiu construir a infraestrutura necessária para formalizar o mercado de carros usados em países de economias emergentes.

O modelo tem sido um ímã para alguns dos maiores fundos de investimento do mundo, incluindo SoftBank do Japão, Greenoaks, Kaszek Ventures e General Atlantic. Em suas três primeiras injeções de capital, a empresa arrecadou US$ 500 milhões, quebrando recordes na captação de capital de risco e se tornando o primeiro unicórnio mexicano, depois de superar uma avaliação privada de US$ 1,15 bilhão em outubro de 2020.

Apenas um ano depois, por meio de rodadas de investimento das Séries D e E, a empresa levantou mais de US$ 1,1 bilhão, atingindo uma avaliação de US$ 8,7 bilhões. Foi assim que conseguiu se tornar a startup privada mais valiosa da América Latina.

De sua base no México, a Kavak expandiu-se para a Argentina em 2020, onde se fundiu com uma startup chamada Checkars. Em 2021 os executivos da Kavak também começaram a falar português com a chegada da empresa ao Brasil, mercado em que decidiram investir US$ 500 milhões e onde construíram o maior centro de recondicionamento de veículos da região, localizado em São Paulo.

“Nossa visão é global e nosso desafio é construir uma plataforma atrativa e confiável o suficiente para que qualquer cidadão possa resolver seus problemas de mobilidade, mas que também permita usar o carro como ferramenta para melhorar sua situação financeira”, afirma Garcia Ottati.

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