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Investimento Offshore: Para Onde Vão as Fortunas Brasileiras?

Ainda que o olhar do investidor esteja voltado aos países mais desenvolvidos, o interesse por economias emergentes vem crescendo

9 min

De mansões em Miami a contas na Suíça, passando por ações e títulos de dívida de empresas americanas e europeias, os brasileiros estão cada vez mais atentos às oportunidades de investimento para além das fronteiras brasileiras. Moedas como o euro e o dólar servem como porto seguro em momentos de crise econômica ou de tensão nos mercados financeiros. E investir no exterior é uma das estratégias de diversificação mais eficientes, além de diminuir a exposição aos ruídos, sustos e solavancos da economia brasileira.

Segundo dados do Banco Central (BC), os aportes em ativos internacionais mais do que dobraram em 2024. O saldo entre aquisições e vendas ficou positivo em US$ 9,25 bilhões (R$ 51,44 bilhões) entre janeiro e setembro, mais do que o dobro do total expatriado nos 12 meses de 2023.

Segundo dados da Receita Federal, até 2021 os brasileiros mantinham cerca de 809 mil empresas no exterior e esse número não parou de crescer. Os recursos depositados nessas corporações também estão crescendo. Segundo o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), via Lei de Acesso à Informação, essas offshores somam um patrimônio de € 136 bilhões (R$ 887 bilhões). A Forbes ouviu especialistas para entender para onde estão indo os investimentos offshore dos brasileiros e qual é o perfil desses investidores que lideram o movimento.

O que são e para onde vão?

O termo offshore é utilizado para se referir a empresas constituídas em jurisdições fora do Brasil. Elas são usadas para planejamento patrimonial e sucessório, além da otimização fiscal. De acordo com Priscila Stela Mariano da Silva, do escritório Pinheiro Neto Advogados, essas estruturas permitem maior flexibilidade na gestão de ativos e facilitam a diversificação geográfica do patrimônio.

A especialista destaca que, geralmente, tais entidades são constituídas em países que não tributam a renda, popularmente conhecidos como paraísos fiscais – jurisdições que oferecem benefícios tributários a empresas e indivíduos, atraindo capital do mundo todo.

Esses territórios estão em vários países, de ilhas do Caribe até nações da Europa e Oriente Médio. São conhecidos pela tributação baixa ou inexistente e pela proteção rigorosa aos seus investidores. “Não há nada na legislação que impeça um contribuinte de ter offshores, desde que seu investimento esteja devidamente declarado”, afirma Mariano da Silva.

A Europa vem ganhando espaço na carteira dos investidores. Os motivos são a perspectiva de maior crescimento econômico pela expansão de gastos do governo na Alemanha e a valorização do euro em relação ao dólar. No entanto, Luciano Telo, executivo-chefe de investimentos (CIO) para o Brasil no UBS Global Wealth Management, diz que esse movimento é mais tático.

“A maior parte dos recursos é destinada aos EUA. Eles sempre foram o destino preferencial dos investidores, por terem um desempenho do mercado acionário superior em comparação com outras regiões e moeda historicamente forte”, afirma Telo.

O volume das ações e de dívidas corporativas dos EUA é maior do que a soma dos nove mercados seguintes, incluindo países da Europa, China e Japão. Para Daniel Haddad, Chief Investment Officer (CIO) da Avenue, os investidores já compreenderam que o mercado financeiro dos EUA é o principal ponto de encontro do capital global.

“Por exemplo, se a Petrobras quiser captar recursos de um investidor argentino, ela não emitirá títulos na Argentina, fará isso nos EUA. Isso porque, ao listar uma dívida lá, ela consegue atrair investidores de diversas nacionalidades”, diz o CIO da Avenue. Entre outros países cobiçados, a Suíça também tem lugar de destaque, tanto pela estabilidade quanto pela sofisticação do mercado.

Novos mercados?

Ainda que o olhar do investidor brasileiro esteja voltado aos países mais desenvolvidos, o interesse por economias emergentes vem crescendo. A expectativa de que o dólar continue se depreciando ao longo do terceiro trimestre tem estimulado a alocação de recursos para novos mercados, como o Brasil e a Argentina. Além disso, a busca se dá por mais oportunidades, já que as projeções para o crescimento americano têm sido revisadas para baixo.

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a perspectiva de expansão econômica dos EUA foi reduzida. Caiu para 1,6% neste ano e 1,5% em 2026. Em março, a projeção era de 2,2% de crescimento em 2025.

A Organização justifica que um dos motivos para tantas oscilações nos dados é a turbulência tarifária do presidente Donald Trump. Esse movimento é oposto ao que está sendo visto em países da América Latina e Europa emergente, que têm apresentado crescimento resiliente.

Seja em busca de proteção patrimonial, diversificação de risco ou oportunidades em economias mais estáveis, os aportes offshore devem ser vistos com um olhar a longo prazo. De acordo com Telo do UBS, as aplicações são sempre sujeitas a ciclos econômicos e a condições específicas de cada país.

“Uma carteira mais diversificada aumenta a eficiência entre retorno do portfólio e o risco assumido. Ou seja, o patrimônio oscila menos, dando mais conforto para o investidor”, explica o especialista.

Quem é o investidor internacional brasileiro?

Para o investidor brasileiro, o movimento costuma ser diferente: ele tende a evitar os mercados em desenvolvimento ao aportar em offshore. O executivo-chefe do UBS explica que o brasileiro, em geral, busca mercados mais fortes, por entender que já tem exposição suficiente à emergentes por sua posição no Brasil.

Luciano Telo avalia que existem dois tipos de comportamento:

  • O investidor entende que a parcela offshore é como um seguro e toma menos risco que um investidor médio global. Também tem aplicações em renda fixa em uma proporção muito maior do que um investidor global médio teria;
  • Ou por estar mais acostumado a alocar em renda fixa do que o investidor global em seu mercado de origem, procura o oposto ao buscar maior risco no exterior do que ele tipicamente faz no Brasil. “Então ele procura aportar em ações, hedge funds e investimentos alternativos fora do Brasil, aproveitando a menor volatilidade do mercado externo para aumentar sua tolerância a risco. Essa postura de perfil já é mais comum”, diz Telo.

O investidor offshore brasileiro tende a ser de alta renda com foco em preservação patrimonial e sucessão familiar. Essa parcela da população tem preocupações como mobilidade internacional e exposição a múltiplas moedas e culturas. “Por isso, essa categoria de aplicação não é só uma maneira de diversificar os riscos do patrimônio, mas também de ampliar as possibilidades para essa geração e a próxima”, diz Telo.

No exterior, a preferência é por ações e fundos de private equity — investimento em empresas mais maduras que possuem fluxos de caixa estáveis. Ambos são ativos com maior potencial de retorno e se baseiam em economias que são eficientes no longo prazo.

Telo acrescenta que aplicações de renda fixa como títulos de dívida corporativa de baixo risco de crédito também têm apresentado demanda. “Os investidores têm preferido concentrar a renda fixa no Brasil e os aportes em ações e private equity no exterior”, afirma o executivo-chefe do UBS.

Do sofisticado ao iniciante: o que muda?

De acordo com a legislação brasileira, o investidor qualificado é aquele que possui mais de R$ 1 milhão investido ou certificação que comprove conhecimento do mercado financeiro. Com mais capital e familiaridade com o mercado, esse perfil costuma ter maior tolerância a risco, foco no longo prazo e acesso a produtos mais sofisticados.

Já o investidor comum tende a priorizar liquidez e segurança, e muitas vezes têm menos exposição a investimentos globais — seja por limitação de capital ou por menos conhecimento com alocações no exterior. Então, a diferença entre os perfis não está apenas no volume investido, mas no grau de sofisticação e personalização das estratégias.

Para deixar de ser um investidor local e se tornar um global, existe uma mudança de mentalidade necessária. É preciso adotar uma visão mais estratégica e de longo prazo, com foco em temas globais e menos dependência de ciclos econômicos domésticos. “Como são mais assuntos, é necessária mais análise. Naturalmente, demanda mais tempo e mais dedicação do investidor”, destaca Telo.

Segundo Haddad, da Avenue, ao investir no real brasileiro estamos expostos a uma moeda instável de país emergente. Moedas de nações desenvolvidas, como o dólar e o euro, são menos voláteis. “Temos a impressão falsa de que o dólar oscila, mas quem sofre depreciação ou apreciação é o real”, afirma Haddad.

Telo, do UBS, alerta que é um erro tratar o investimento internacional como uma simples operação de câmbio. “Tentar prever o dólar ou o euro para decidir se vale a pena investir no exterior, ou avaliar o desempenho com base na cotação da moeda no momento da aplicação são equívocos comuns”, afirma.

Segundo ele, outros erros frequentes incluem concentrar a carteira em poucos ativos ou regiões, desconhecer regras fiscais do país de destino e comparar retornos em moedas diferentes em curtos prazos. “A diversificação deve fazer parte de um plano patrimonial estruturado e exige uma mudança na forma como o investidor interpreta os resultados do portfólio”, avalia Telo.

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