Até semana passada, o Brasil não carregava grandes angústias em relação à política tarifária do presidente americano, Donald Trump, com tarifas pontuais sobre alguns produtos, como aço e ferro, e uma taxa de 10%, estabelecida no chamado “Dia da Libertação”. Um panorama leve em vista aos piores temores do que poderia acontecer. O cenário mudou na quarta-feira (9), quando o presidente americano comunicou que o Brasil passará a sofrer uma taxa de importação de 50%, o que surpreendeu todo o mercado.
A medida, vista por analistas como política — já que as justificativas basearam-se em críticas ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) e a maior responsabilização das redes sociais também votada pela mesma instituição –, deve começar a valer a partir de 1º de agosto. A ameaça desafia a economia brasileira, que já vem lutando contra a alta inflação em 5,35% nos últimos 12 meses e uma elevada taxa básica de juros, ajustada para 15% no mês passado e que deve permanecer assim por um longo período, segundo o Banco Central (BC).
Apesar disso, um relatório do JP Morgan, divulgado na segunda-feira (14) revela que o país já mostra sinais de desaceleração econômica, diante de quedas nos preços no atacando e no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o que deve flexibilizar a política monetária restritiva do BC. Em relação à política tarifária de Trump, o banco americano considera pouco provável que os Estados Unidos coloquem a nova alíquota em exercício. “Estamos céticos sobre essa implementação, especialmente por conta do histórico recente”, referindo-se às diversas situações em que o presidente americano recuou, diminuiu ou sequer colocou em prática suas ameaças tarifárias.
A análise intitulada de “Latin America Data Watch” não se restringe ao Brasil e mostra que diversos países da América Latina devem ter um período de respiro, após um período intenso da alta de preços e dos juros. O panorama ainda aponta os efeitos da política tarifária dos Estados Unidos sobre a região. Confira abaixo.
O efeito Trump
Na avaliação de JP Morgan, caso a tarifa de 50% passe a vigorar para as importações brasileiras, o Produto Interno Bruto (PIB) do país deverá sofrer uma redução estimada entre 0,6% e 0,9%. Além disso, caso o Brasil opte por seguir o caminho da reciprocidade, taxando produtos vindos dos Estados Unidos e depreciando a taxa de câmbio, deve manter a alta dos preços para além do previsto.
No entanto, a instituição enfatiza que o efeito pode ser mitigado, com a possibilidade de exportar seus produtos para países como Canadá, China e México, além da União Europeia.
Dentro do Brasil, o JP Morgan ressalta a segunda queda consecutiva nos preços do atacado, que recuaram 2,7% em junho. Decréscimos também foram registrados nos valores dos produtos agrícolas e manufaturados. Em relação à Selic, a instituição financeira parece mais otimista, apostando em um corte na taxa de juros de 0,25 ponto percentual (p.p.) em dezembro deste ano, enquanto o PIB deve crescer 2,3% em 2025.
Inflação em menor ritmo
Na publicação, o JP Morgan aponta que a inflação está desacelerando, cenário compatível ao previsto para o segundo semestre e que viabiliza uma maior flexibilização do aspecto monetário de cada país. Como exemplo, a instituição financeira cita o Banco Central do Uruguai, que cortou a taxa de juros em 0,25 p.p. na última semana, diante de um recuo significativo e inesperado da alta de preços. Isso também levou o Comitê de Política Monetária do país a sinalizar novos cortes para o ano, levando o banco americano a crer em um corte de 0,50 p.p. Além disso, Chile e Colômbia também registraram deflação.
Em relação ao cobre chileno, o banco revela que a taxa de 50% — também estabelecida para aço e alumínio — deve impactar muito pouco a economia do país. Isso porque embora a commodity seja bastante significativa no mercado americano — correspondendo a 70% do total –, internamente, ela representa apenas 16% do total de cobre exportado pelo Chile. A mudança culminaria em uma depreciação de 2,5% no peso, mas com baixa repercussão na alta dos preços e até na atividade econômica do país.
Para o Peru, o banco afirma já estar “confiante” com a taxa básica de juros em 4%, embora acredite que o país deva reduzi-la em 0,25 ponto percentual (p.p.) em setembro, com a inflação abaixo da meta de 2%. Na Argentina, o JP Morgan destaca a confiança do governo e do consumidor em alta, em meio ao aumento salarial e ao avanço da atividade econômica, com expansão do crédito real. A expectativa da instituição financeira é de que o PIB argentino aumente 3,8% nos próximos dois trimestres.
Em relação ao Paraguai, o JP Morgan tem expectativas positivas, já que o país vem promovendo reformas estruturais para aumentar os investimentos, criar mais empregos e reduzir a burocracia, iniciativas alinhadas ao Instrumentos de Coordenação de Políticas (PCI) do Fundo Monetário Internacional (FMI). A leitura do banco é que a taxa de juros será mantida por mais um tempo no mesmo patamar.
Mais acima, na América Central, a flexibilização das taxas de juros também estão a caminho, para o banco americano, citando o aumento da liquidez na República Dominicana.
Desde o início da cruzada tarifária de Trump, o México tem sido recorrentemente um alvo do presidente americano. No entanto, a economia do país superou as expectativas, ao mostrar resiliência, impulsionada pelas exportações e consumo interno. Na leitura da instituição financeira, a autarquia monetária do México deve reduzir a taxa básica de juros em 0,25 p.p., passando a ser de 7% ao ano, em meio à queda de investimentos, contração do emprego e enfraquecimento da demanda externa, em parte por conta das taxas americanas.
Exceções
O horizonte mais ensolarado não é para todos. Alguns países se encontram em situações mais desafiadoras. Esse é o caso da Bolívia, que viu a alta de preços disparar no mês de junho, com elevação de 5,2%, passando a 24% ao ano. O movimento foi impulsionado pela escassez de divisas, elevação do déficit cambial e financiamento monetário do déficit fiscal. O JP Morgan prevê que até o final de 2025, o país tenha uma inflação em 35% ao ano. Cenário bastante contrastante ao de antes da pandemia, quando a Bolívia registrava 2% na alta dos preços.
Outro país em situação semelhante é o Equador, que teve sua produção petrolífera reduzida em 60% (cerca de US$ 100 milhões ou R$ 556 milhões), por conta de desastres naturais, como a erosão no rio Coca, causada por fortes chuvas. Atualmente, o país tem um déficit primário que corresponde a 1,4% do PIB e o JP Morgan projeta que ele crescerá até o final do ano, alcançando 3,2% do PIB.