Hoje (07) é o segundo e último dia da audiência pública que acontece nos Estados Unidos e discute as tarifas adicionais de 25% e 12,5%, que são respectivamente sobre o resultado de investigações com base na Seção 301 sobre o favorecimento do Pix, acordos comerciais, o etanol, desmatamento, corrupção e pirataria e sobre trabalho forçado.
O prazo final para um acordo é o dia 15 de julho, quando o presidente Donald Trump pode autorizar ou não as novas tarifas.
Se sancionada, as novas alíquotas podem custar o equivalente a US$ 14,9 bilhões em exportações, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio (CNI). O levantamento indica que se as duas novas propostas forem aprovadas, acontecerá um acréscimo de 27,5 pontos percentuais sobre os bens, sendo 62% intermediários. Neste caso, a taxação pode alcançar 37,5%.
Para evitar essa realidade, empresários e autoridades brasileiras discursam a favor do Brasil em 14 paíneis divididos entre ontem e hoje. O maior destaque é o senador e pré -candidato à presidência da república Flávio Bolsonaro, que pretende pedir a suspensão do tarifaço e defender resoluções construtivas das questões identificadas na investigação.
Recentemente, analistas apontam que os últimos anos do relacionamento entre Brasil e Estados Unidos, historicamente deficitário para o Brasil, têm sido de crise e desentendimento: veio o primeiro tarifaço, deportações de autoridades e civis, distanciamento de pautas ambientais e agora investigações contra o país.
Para o professor da FIA Business, Claudio Felisoni, o motivo do mal estar nesse relacionamento são de ordem política e acabam respingando na economia. “O gatilho dessa crise mistura divergências em torno do Pix, decisões do judiciário e políticas ambientais, além da pressão global sobre 60 países para combater o trabalho forçado. O Brasil hoje lida com um cenário onde ruídos diplomáticos se converteram em perda imediata de competitividade comercial”, explicou Felisoni.
Os impactos dessa nova investida
Mais de 4 mil produtos serão afetados pela tarifa que pode chegar até 37,5% e o prejuízo em exportações pode chegar a US$ 14,9 bilhões, de acordo com a CNI.
Dados elaborados pela CNI com base em estatísticas do USITC, detalham os produtos intermediários que seriam afetados pelas tarifas. Em 11 deles, o Brasil é o principal fornecedor para os EUA e alguns podem chegar a quase 100% como é o caso do Compensado de Pinus:
- Compensado de pinus: 99,6%
- Ferro-gusa não ligado: 73,3%
- Álcool etílico não desnaturado: 72,3%
- Tabaco curado por fumaça ou processado: 72,0%
- Molduras de madeira padrão de pinho: 59,4%
- Estacas, paliças, postes e trilhos de madeira: 57,8%
- Açúcar de cana em forma sólida, bruto: 52,9%
- Granito monumental ou de construção: 48,9%
- Hidróxido de alumínio: 47,5%
- Sebo não comestível: 37,5%
- Peptonas e seus derivados: 33,1%
O efeito dominó, que começa nas indústrias exportadoras, atinge diretamente o bolso do consumidor final.
A imposição coloca em risco imediato o equivalente a 25% das novas exportações e afeta diretamente setores estratégicos nacionais como máquinas pesadas, transformadores elétricos, madeira, granito trabalhado e etanol. Uma reação em cascata que sufoca pequenas e médias empresas fornecedoras.
Como consequência direta, o mercado financeiro reage com a fuga de capital estrangeiro, elevando o risco-país e provocando um forte choque cambial com a disparada do dólar.
Apesar da cautela, Gabriel Cecco, especialista da Valor Investimentos, explicou o motivo. “A relação entre Brasil e Estados Unidos entrou numa fase de baixa previsibilidade e isso acaba pesando bastante sobre ativos brasileiros porque aumenta muito a percepção de risco. O investidor internacional não olha para a tarifa em si, ele olha para a possibilidade de escalada, retaliação, perda de acesso ao mercado, ruído diplomático e piora no ambiente de negócios”, disse.
Além disso, o especialista aponta que a pauta comercial foi contaminada pela política. “Quando isso acontece, a negociação fica menos técnica e mais incerta. Então, para as empresas significa dificuldade de planejamento e para investidores, prêmio de risco maior. O melhor cenário para o Brasil é a saída negociada, não tenho dúvida, uma tarifa menor, adiar um adiamento ou exceção relevantes de empresas que seriam impactadas mais em cheio”.
Felisoni compartilha da mesma análise e comenta que existem questões políticas que são subjacentes a tudo isso. “O governo brasileiro está fazendo aquilo que tem que fazer: usar o canal diplomático e a negociação para tentar superar essas divergências. Entretanto, as dificuldades são bem maiores porque transcendem aspectos econômicos; nós temos aspectos políticos que decorrem desse mundo polarizado que estamos vivendo hoje”, explicou.
O resultado final desse ciclo de custos inflados é uma retração estrutural na atividade econômica do país, com uma estimativa de redução entre 0,5 e 0,6 ponto percentual no PIB brasileiro para o ano de 2026, o que se traduz em uma perda total de R$ 76 bilhões.