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Investimentos Globais Podem Ter Impacto com Política Monetária dos EUA, Diz CIO do EFG

Brasileiros ainda olham muito pouco para cenário norte-americano, avalia o executivo Luis Ferreira

7 min

Desde que o Federal Reserve (Fed) começou a cortar juros em setembro de 2024, o mercado passou a operar em um ambiente de maior liquidez e menor custo de capital. No entanto, a política tarifária implementada por Donald Trump acabou freando parte desse movimento.

Atualmente, os juros nos Estados Unidos estão na faixa de 4,25% a 4,50%, mantidos nesse patamar pela quinta vez consecutiva. A decisão contínua do Fed em não cortar juros reflete a cautela diante das consequências das tarifas. Em julho de 2025, o Índice de Preços ao Produtor (PPI) registrou o maior aumento mensal em três anos, com alta de 0,9%, impulsionado pelos custos adicionais das tarifas.

Apesar desse cenário, a expectativa do mercado é a de que o ciclo de queda de juros seja retomado, influenciando decisões de alocação de capital globalmente. Para Luis Ferreira, CIO do EFG Asset para as Américas, os rumos da política monetária dos Estados Unidos têm impactos diretos nos investimentos globais. “A queda no preço do petróleo é hoje um dos principais fatores de alívio, resultado da menor demanda global”, afirma Ferreira.

Em 2022, o presidente do Fed, Jerome Powell, disse que para cada aumento de US$ 10 (R$ 54,27) no barril, a inflação sobe 0,5 ponto percentual, e o crescimento recua 0,4 ponto nos dois anos seguintes. Hoje, com o barril em cerca de US$ 20 (R$ 108,54) mais barato em relação a meses anteriores, fruto da desaceleração econômica, o efeito é inverso: impacto positivo no crescimento entre 0,2 e 0,8 ponto percentual e queda da inflação entre 0,4 e 1 ponto.

“Se essa dinâmica se confirmar, como já ocorreu em ciclos passados, pode compensar o efeito inflacionário das tarifas, deixando a inflação no zero a zero e permitindo ao Fed iniciar cortes de juros”, explica o CIO do EFG.

Confira os melhores momentos da conversa entre Luis Ferreira e a Forbes Brasil abaixo. As respostas foram editadas para maior concisão e clareza.

Forbes: Qual é a perspectiva para as próximas decisões do Fed, especialmente em relação à taxa de juros?

Luis Ferreira: A política monetária americana vai começar a se flexibilizar. Devemos encerrar um ciclo de aperto monetário e iniciar os cortes de juros em setembro.

A alta dos juros ainda é consequência de uma inflação elevada que veio a partir do Covid-19. Quando o índice de preços chegou próximo a 10% ao ano, o Fed recorreu a juros altos para frear a demanda. Deu certo, pois a redução do crescimento já está em curso, e a inflação que estava quase em 10%, bateu 9%, e agora já está em 3%.

O panorama dá espaço para o Fed afrouxar a política monetária, porém a introdução de tarifas com potencial inflacionário levou o banco central a adotar cautela, embora os preços, no geral, sigam controlados.

Vocês estão confiantes de que haverá um corte em setembro?

Sim. O mercado está esperando um primeiro corte de 0,25% em setembro. O gatilho para confirmar isso será a reunião de Jackson Hole, que acontecerá em Kansas City, do dia 21 ao 23 de agosto de 2025.

Jackson Hole é uma cidade onde todos os presidentes de bancos centrais se reúnem para conversar sobre política monetária. Acreditamos que será nesse evento que o presidente do começará a mudar um pouco o tom. Para dezembro, o mercado também já está precificando mais um corte de 0,25%.

Sobre o conflito entre Trump e Powell, o quanto isso impacta o cenário da política monetária nos EUA?

Para o EFG, essa tensão entre Trump e Powell não afeta o panorama dos juros. O Banco Central americano não percebe essas ingerências e entende que isso são declarações políticas.

Como ficam os investimentos com a atual política monetária do Fed?

A taxa de juros é o principal referencial para investimentos. Quando os juros sobem, por exemplo, de 2% para 10%, o custo de capital aumenta, tornando aquisições e financiamentos mais caros para as empresas. Com isso, o crescimento dos lucros fica pressionado e os juros sobre as dívidas impactam ainda mais os resultados. No valuation [processo de determinar o valor econômico de companhia, ativo ou investimento], um lucro menor leva a uma expectativa de valorização mais baixa das ações, afetando principalmente empresas mais endividadas.

Na renda fixa, o efeito é inverso: quando os juros sobem, os papéis existentes perdem valor, pois oferecem rendimento inferior ao das novas emissões no mercado.

Para investidores brasileiros, o impacto vem do efeito do custo do dinheiro em dólar sobre outras moedas. Quando os juros sobem no país, os reflexos se espalham globalmente. Taxas muito altas tendem a aumentar a demanda por dólar, pressionando o real para baixo. Como grande parte dos preços na economia é dolarizada, a inflação sofre impacto direto.

Quanto o brasileiro olha para a política monetária dos EUA?

Os brasileiros ainda investem pouco no exterior. O país representa 1% do mercado financeiro global. Muitos investidores ainda concentram 100% dos recursos no Brasil. Com juros brasileiros historicamente altos, isso acaba incentivando aplicações em reais em vez de dólares.

Ao analisar o desempenho do CDI dolarizado ao longo de dez anos até o final de 2024, percebemos que ele rendeu cerca de 4% no periodo. Embora o total acumulado nominal tenha sido de cerca de 142%, quando descontamos a inflação de aproximadamente 76% no mesmo período, o ganho real; ou seja, o poder de compra efetivamente acrescido ao investidor, foi de aproximadamente 38%.

Isso mostra que, apesar de parecer significativo em termos nominais, o retorno real é relativamente baixo, evidenciando a dificuldade de preservar e aumentar o patrimônio apenas com investimentos domésticos. O cenário reforça a importância da diversificação internacional, algo que muitos investidores brasileiros ainda subestimam.

Qual será o comportamento da parcela dos investidores brasileiros que investem no exterior?

Os juros estão caindo globalmente, incluindo nos Estados Unidos, Inglaterra e Europa, sendo o Japão um dos poucos bancos centrais que deve elevá-los nos próximos 12 meses.

Nesse panorama de juros menores, os investidores deveriam buscar garantir taxas mais altas agora, principalmente ao estender o prazo de seus investimentos. Então, esse é o primeiro passo: reavaliar o seu prazo de investimento na carteira. Quem investe apenas em títulos de curto prazo, como o Tesouro Americano, corre o risco de refinanciamento, ou seja, ter que recomprar a taxas menores. Por isso, alternativas de prazo mais longo podem oferecer resultados mais consistentes.

Quais outros setores podem se beneficiar?

Com juros em queda, investimentos sensíveis a essa variável, como ações de empresas boas pagadoras de dividendos, podem levar vantagem. Redução de juros libera caixa para dividendos e tende a valorizar empresas bem estruturadas.

É essencial ser seletivo e diversificar globalmente. Avaliar oportunidades nos Estados Unidos, na Suíça e na Ásia torna-se essencial para equilibrar riscos e aproveitar as mudanças na política monetária previstas para o segundo semestre. Os setores mais sensíveis aos ciclos econômicos podem apresentar desempenho inferior, o que torna ainda mais importante montar uma carteira que dilua riscos.

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