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De Greenspan a Warsh: o Debate sobre a Comunicação do Fed Volta ao Centro das Atenções

Ao longo dos últimos 40 anos, o Fed percorreu um espectro de modelos de comunicação

9 min

Pela primeira vez em uma geração, o Federal Reserve está voltando a adotar uma postura de opacidade estratégica. Com a chegada de Kevin Warsh, a longa trajetória que levou o banco central do chamado Fedspeak enigmático de Alan Greenspan ao regime de transparência implantado por Ben Bernanke começa a ser revertida — levantando novas dúvidas sobre como um Fed menos previsível influenciará os mercados, as expectativas de inflação e a estabilidade financeira.

Ao longo dos últimos 40 anos, o Fed percorreu um espectro de modelos de comunicação. Em uma extremidade está o modelo rigoroso e transparente: metas numéricas de inflação, divulgação de projeções econômicas, entrevistas coletivas regulares, orientações sobre a provável trajetória dos juros (forward guidance) e compartilhamento das deliberações com o público.

Na outra ponta está o modelo oracular e opaco: declarações enigmáticas, ambiguidades deliberadas e a crença de que a política monetária funciona melhor quando preserva flexibilidade e a capacidade de surpreender os mercados. Durante décadas, a história do Fed caminhou da opacidade para a transparência — até 2026, quando Warsh começou a inverter esse movimento.

As evidências empíricas favorecem amplamente a transparência: ela torna a política monetária mais previsível, ancora as expectativas de inflação e reduz as divergências entre analistas, ainda que esses benefícios apresentem retornos decrescentes ao longo do tempo. Se a “mudança de regime com uma luva de veludo”, como definiu Scott Clemons, da Brown Brothers Harriman, à CNBC, significar apenas uma redução dos excessos de comunicação, preservando a meta explícita de inflação de 2% e a independência institucional do Fed, isso pode ser positivo.

No entanto, se representar um retorno mais amplo à opacidade em um mundo muito mais complexo, poderá comprometer os avanços conquistados em previsibilidade e prestação de contas, sem oferecer benefícios equivalentes.

Alan Greenspan: o retorno do “oráculo” ao centro do debate

No extremo mais opaco desse espectro está Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve entre 1987 e 2006, que morreu aos 100 anos em decorrência de complicações da doença de Parkinson, segundo oThe New York Times. Durante sua gestão, o Fed girava em torno de sua figura e de um estilo de comunicação conhecido comoFedspeak.

“Desde que me tornei um banqueiro central, aprendi a murmurar com grande incoerência”, afirmou certa vez, segundo oTimes. Em seguida, acrescentou: “Se eu parecer excessivamente claro para você, então você deve ter entendido errado o que eu disse.” Mais tarde, Greenspan admitiu que utilizava a ambiguidade de forma deliberada. Em entrevista à CNBC, em 2007, afirmou que oFedspeakera “uma linguagem de obscuridade proposital para evitar que determinadas perguntas surgissem”.

Talvez sua declaração mais memorável e oracular tenha ocorrido quando questionou se a valorização das empresas de tecnologia representava uma bolha — aproximadamente três anos antes de ela estourar. Em 5 de dezembro de 1996, Greenspan fez seu famoso discurso sobre a “exuberância irracional” (irrational exuberance), no qual expressou suas dúvidas por meio de uma série de perguntas, incluindo: “Como sabemos quando a exuberância irracional elevou excessivamente o valor dos ativos?”

Segundo oThe New York Times, os mercados globais caíram após o discurso, mas rapidamente se recuperaram e continuaram em alta até o estouro da bolha, em 2000. Na época de Greenspan, o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) sequer anunciava mudanças na taxa de juros antes de 1994. Os operadores precisavam inferir essas decisões a partir das operações de mercado aberto. De acordo com o Federal Reserve de Kansas City, Greenspan valorizava a “preciosa flexibilidade” da política monetária e resistia à adoção de uma meta explícita de inflação, por considerá-la uma “falsa precisão”.

Após sua morte, o Federal Reserve afirmou que Greenspan “trouxe rigor analítico à formulação da política monetária e ajudou a estabelecer a credibilidade que continua sendo um dos ativos mais importantes do Federal Reserve”. Seu sucessor, Ben Bernanke, o definiu como “um grande banqueiro central” e acrescentou: “Ainda estamos aprendendo com ele”, informou oLos Angeles Times.

Ben Bernanke: o arquiteto da transparência

Ben Bernanke — que presidiu o Federal Reserve entre 2006 e 2014 — era estudioso da Grande Depressão e um defensor, desde a carreira acadêmica, da adoção de metas de inflação e da transparência dos bancos centrais. Foi ele quem colocou em prática o modelo de atuação do Fed que prevaleceu após a gestão de Greenspan.

É verdade que Bernanke também precisou administrar a crise financeira de 2008, cuja origem foi parcialmente atribuída à falta de atenção de Greenspan às consequências negativas da desregulamentação do sistema financeiro.

Greenspan ignorou alertas sobre os riscos associados à flexibilização das regras do mercado de crédito imobiliário. Em 2007, o ex-governador do Fed Edward Gramlich afirmou que havia aconselhado, em conversas privadas, Greenspan a endurecer o combate às práticas abusivas de concessão de empréstimos por volta do ano 2000.

“Ele era contra isso, então eu realmente não insisti”, disse Gramlich aoThe Wall Street Journal. Greenspan acabaria reconhecendo, ainda que de forma indireta, seus erros. Em sua última audiência no Congresso, em outubro de 2008, afirmou: “Nós que confiávamos no interesse próprio das instituições financeiras para proteger o patrimônio dos acionistas — especialmente eu — estamos em estado de incredulidade.”

A declaração foi destacada peloThe Wall Street Journal.

Bernanke descreveu a crise — que classificou como a pior da história — como resultado de uma combinação de fatores: regulamentação insuficiente do mercadosubprime, empréstimos concedidos com informações falsas (liar loans), securitização global, capitalização insuficiente das instituições financeiras, baixa transparência, incentivos distorcidos para banqueiros e agências de classificação de risco e gestão inadequada dos riscos.

Bernanke deixou como legado uma meta explícita de inflação de 2% e um modelo robusto de transparência. Segundo ele, essa política “não representava qualquer mudança na forma como o Federal Reserve conduz a política monetária”. Seu objetivo era “aumentar a transparência e a previsibilidade da política”, conforme aDeclaração sobre Objetivos de Longo Prazo e Estratégia de Política Monetária, publicada pelo Comitê Federal de Mercado Aberto em janeiro de 2012.

O documento acrescenta que “a transparência da política monetária aumenta a compreensão e a confiança do público” e, “em última análise, torna a política mais eficaz ao fortalecer a ligação entre a política monetária, as condições financeiras e a economia real”.

Kevin Warsh: entra em cena o contrarreformista

Janet Yellen (presidente do Fed entre 2014 e 2018) e Jerome Powell (de 2018 a 2026) preservaram a abordagem implementada por Bernanke.

Vale lembrar que Powell precisou lidar com as tentativas do presidente Donald Trump de influenciar o Federal Reserve, pressionando o presidente da instituição a reduzir os juros mesmo com a inflação acima da meta de 2%, segundo a PBS.
Com Kevin Warsh — confirmado pelo Senado em 13 de maio de 2026 por 54 votos a 45, a aprovação mais apertada da história para um presidente do Fed, e empossado em 22 de maio — o banco central volta a caminhar em direção ao modelo opaco e oracular que caracterizou a gestão Greenspan.

Em sua primeira reunião do FOMC, Warsh foi menos transparente do que Powell. Seu comunicado, de apenas 130 palavras, eliminou qualquer indicação sobre a trajetória futura da política monetária (forward guidance) e retirou o viés anterior de flexibilização. Em vez disso, encerrou a nota com uma declaração direta: “O Comitê entregará estabilidade de preços.”

Warsh também se recusou a divulgar sua própria projeção para a taxa de juros, afirmando que essa decisão era “compatível com minhas convicções de longa data sobre oSummary of Economic Projections“, informou a CNBC.

Além disso, anunciou a criação de cinco grupos de trabalho para revisar a estratégia de comunicação do Fed, seu balanço patrimonial, os dados utilizados pela instituição, o regime de metas de inflação e os estudos sobre produtividade e mercado de trabalho, também segundo a CNBC.

A abordagem de Warsh ajudará a economia?

A resposta curta é: provavelmente não. A literatura empírica tende a favorecer a transparência.

A comunicação “pode ser uma parte importante e poderosa do conjunto de ferramentas de um banco central, pois é capaz de movimentar os mercados financeiros, aumentar a previsibilidade das decisões de política monetária e, potencialmente, contribuir para que os bancos centrais alcancem seus objetivos macroeconômicos”, afirma o artigoCentral Bank Communication and Monetary Policy: A Survey of Theory and Evidence, publicado noJournal of Economic Literature.

O recuo de Warsh em relação à transparência parece trazer mais riscos do que benefícios. As vantagens do modelo construído por Bernanke e mantido por Powell — especialmente a maior previsibilidade das decisões e a capacidade de ancorar as expectativas de inflação — moldaram o comportamento dos mercados ao longo dos últimos 15 anos.

A mudança repentina para comunicados mais enxutos e o abandono doforward guidanceaumentaram a volatilidade já no primeiro dia da nova gestão, fenômeno apelidado pelo Axios de“market yips”— expressão usada para descrever momentos em que os mercados demonstram perda de confiança ou dificuldade para reagir de forma consistente.

Mercados mais instáveis, custos de financiamento mais elevados e um Federal Reserve menos previsível pouco contribuem para controlar uma inflação que já permanece elevada. O índice de preços ao consumidor (CPI) dos Estados Unidos avançou4,2%nos 12 meses encerrados em maio de 2026, a maior alta anual desde abril de 2023, informou a CNBC.

Naturalmente, se Kevin Warsh vier a se tornar o próximo Alan Greenspan, talvez haja motivos para maior otimismo em relação ao futuro. Ainda é cedo, porém, para saber se esse será realmente o caso.

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

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