Investir em moedas estrangeiras fortes é uma das maneiras mais eficientes de reduzir a exposição aos ruídos da economia brasileira. De acordo com relatório do Congresso dos EUA, o dólar concentra 60% das reservas oficiais globais e está presente em 90% das transações cambiais — a maioria do comércio global e das commodities é precificado em dólar.
A moeda americana segue como a principal referência para investidores em busca de proteção em momentos de crise econômica ou de tensão nos mercados financeiros, mas ela se tornou uma incerteza nos últimos meses. Frente ao real, a divisa acumula queda de 13% no ano. Mas essa não é a única moeda capaz de proteger e diversificar portfólios — o euro (EUR), libra esterlina (GBP) e o franco suíço (CHF) também são utilizadas como alternativas nas carteiras globais.
Para além do dólar
Para ser considerada forte e um potencial bom ativo de proteção, uma moeda precisa preservar valor ao longo do tempo e manter alta demanda no mercado global. Isso depende não apenas da riqueza do país emissor, mas também de fatores como baixa inflação, estabilidade econômica e política, confiança dos investidores, balança comercial equilibrada, entre outros fatores.
Um termômetro importante do comportamento dessas divisas frente ao dólar é o DXY — Índice do Dólar Norte-Americano, que mede a variação da moeda americana comparada aos seus pares de países desenvolvidos. No indicador, o euro sai na frente com 57,6% de alta. A moeda britânica aparece com 11,9%, já o franco suíço tem uma variação mais baixa de 3,6%.
Segundo Caio Camargo, estrategista de investimentos do Santander,o euro corresponde por cerca de 30% das negociações atuais, a libra por 13% e o franco por 5%.
Já em termos de reservas internacionais, o euro ocupa a segunda posição — atrás apenas do dólar —, com 19%, enquanto a libra tem cerca de 5%. O franco suíço ainda tem participação reduzida, mas vem ganhando protagonismo nos últimos anos.
Enquanto o dólar sofre, como se comportam as outras opções disponíveis na mesa dos investidores?
Euro X Libra
O euro mantém estabilidade e já se consolidou como a segunda moeda mais utilizada no sistema financeiro internacional. Mesmo assim, segue longe de alcançar a relevância global do dólar.
A divisa europeia enfrenta desafios estruturais, como as divergências fiscais entre os países da zona do euro e o crescimento econômico mais lento do bloco. “Esses fatores limitam seu protagonismo”, afirma Gustavo Harada, Head de Alocação da Blackbird.
Embora cumpra um papel de proteção em cenários de incerteza, o euro exerce essa função em escala bem menor do que a moeda americana. Segundo Harada, atualmente, não há espaço para uma disputa direta entre as duas divisas.
“As sucessivas crises na região e a ausência de um Tesouro único, que garanta uma política fiscal integrada, reduziram a confiança do mercado na moeda europeia como potencial substituta do dólar”, explica o especialista da Blackbird.
Para reduzir essa diferença, as autoridades europeias reconhecem a necessidade de ampliar a oferta de ativos seguros denominados em euro. Também defendem o avanço na integração dos mercados de capitais, por meio de medidas estruturais de longo prazo.
Já a libra, mesmo em fases de maior estabilidade e valorização, perdeu o seu espaço como moeda de refúgio. Essa percepção se intensificou após a crise de Liability-Driven Investment (LDI) em 2022, quando fundos de pensão britânicos, expostos a estratégias atreladas a títulos públicos, sofreram com a disparada dos rendimentos desses ativos.
A turbulência só foi contida com a intervenção do Banco Central da Inglaterra (BoE). “Desde então, os investidores passaram a priorizar a resiliência de mercado e a gestão de alavancagem, em vez de ver ativos britânicos como porto seguro”, afirma Caio Camargo do Santander.
Em 2025, o BoE destacou vulnerabilidades em Instituições Financeiras Não Bancárias (NBFIs) e episódios de volatilidade. “Essas situações contrastam com a ideia de ativo de proteção que a libra poderia ter”, comenta o estrategista do banco espanhol.
Outro elemento que enfraqueceu a libra foi a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), após o Brexit. O movimento reduziu o fluxo de capitais para o bloco europeu, ao mesmo tempo em que aumentou a volatilidade diante de um cenário político-econômico mais incerto, diminuindo a relevância internacional da moeda britânica. Harada comenta que a moeda britânica não ocupa o mesmo espaço que já teve anteriormente.
Em julho, a libra esterlina registrou queda de 3,8% — a maior desde setembro de 2022. O movimento foi pressionado por dúvidas fiscais no Reino Unido e indicadores econômicos mais fracos.
E o franco suíço?
O franco suíço segue associado à ideia de refúgio em tempos de turbulência. A moeda se beneficia da estabilidade econômica e política do país. Até agosto, a divisa já se valorizou cerca de 11,7% em relação ao dólar desde o início de 2025.
Mesmo em choques geopolíticos recentes, a moeda se valorizou rapidamente, impulsionada por entradas de capital. “As análises de risco continuam a classificá-la como destino clássico de investidores que buscam solidez”, aponta Camargo, do Santander.
Para Harada,a solidez do franco vem da sua alta credibilidade, disciplina fiscal e monetária de seu país, economia sólida e postura neutra na política suíça.
“Em momentos de crises, a divisa pode ser uma alternativa ao dólar. Já temos visto um fluxo indo para lá, além de que a moeda suíça tende a se valorizar nos próximos anos devido a baixa inflação e a política monetária muito estável”, analisa Gustavo Harada.
Os especialistas recomendam diversificar entre moedas fortes, principalmente para quem tem carteiras globais. A abordagem deve ir além da conversão cambial, precisando estar alinhada aos objetivos da carteira e ao perfil do investidor.