No último ano, Elon Musk esteve em alta — fazendo campanha para Donald Trump e depois assumindo brevemente o novo Departamento de Eficiência Governamental do presidente — e em baixa — como era de se esperar, rompendo com Trump e ameaçando criar seu próprio partido político. Mas, em meio a tudo isso, Musk permaneceu a pessoa mais rica dos Estados Unidos. Ele mantém novamente o primeiro lugar no ranking anual da Forbes 400 dos mais ricos do país.
É o seu quarto ano consecutivo no topo da lista. Nesse período, ele quebrou alguns recordes: adicionou US$ 184 bilhões (R$ 993,6 bilhões) ao seu patrimônio líquido nos últimos 12 meses, um recorde histórico da Forbes 400 para o maior ganho em um único ano. Com isso, superou a marca que ele mesmo havia estabelecido entre 2020 e 2021, quando ganhou US$ 122 bilhões (R$ 658,8 bilhões). Musk também se tornou a primeira pessoa da história a acumular mais de US$ 400 bilhões (R$ 2,16 trilhões), com uma fortuna estimada em US$ 428 bilhões (R$ 2,31 trilhões) no dia 1º de setembro.
Seus concorrentes ficaram bem para trás. Larry Ellison, cofundador da Oracle (nº 2, com fortuna estimada em US$ 276 bilhões — R$ 1,49 trilhão), e Mark Zuckerberg, cofundador da Meta (nº 3, US$ 253 bilhões — R$ 1,36 trilhão), estão mais de US$ 150 bilhões (R$ 810 bilhões) atrás de Musk — uma soma equivalente à fortuna total de Warren Buffett (nº 9). Todas as maiores participações de Musk aumentaram de valor no último ano, impulsionadas por sua base de investidores — que vai de entusiastas das ações da Tesla a bilionários do capital de risco e fundos soberanos do Oriente Médio — despejando dinheiro em suas empresas.
O Musk-verso
As ações da Tesla, maior e única empresa de Musk listada em bolsa, subiram 56% desde a lista do ano passado. Isso apesar da queda nas vendas de veículos (com recuo de 13% no primeiro semestre de 2025) e do fracasso do tão aguardado serviço de táxis autônomos, que estreou em um programa piloto em Austin. A maior parte do ganho de 12 meses ocorreu em 2024, quando as ações mais do que dobraram entre setembro e o pico em 17 de dezembro, impulsionadas pela euforia dos investidores diante da relação de Musk com o então presidente eleito Trump. Desde então, os papéis recuaram cerca de 25%.
Mas a fatia de Musk na Tesla pode ficar ainda maior. Ele aguarda uma decisão da Suprema Corte de Delaware sobre se poderá manter opções de ações atualmente avaliadas em US$ 94 bilhões (R$ 507,6 bilhões), concedidas pelo conselho da Tesla em 2018. A Forbes desconta essas opções em 50% desde janeiro de 2024, aguardando o desfecho do caso.
Um juiz de Delaware já anulou esse pacote de compensação duas vezes, considerando-o ilegítimo, ao julgar uma ação de acionistas que alegavam viés do conselho em favor de Musk. Os argumentos orais na apelação de Musk estão marcados para outubro. Caso a decisão também seja contrária a ele, Musk receberá em vez disso uma premiação em ações de US$ 29 bilhões (R$ 156,6 bilhões), conforme resolução aprovada pelo comitê especial de compensação da Tesla em agosto.
Além disso, o conselho da Tesla agora quer conceder-lhe ainda mais ações, propondo em setembro um novo pacote de remuneração baseado em desempenho que pode valer quase US$ 1 trilhão (R$ 5,4 trilhões), caso a montadora atinja várias metas ambiciosas na próxima década — incluindo elevar sua capitalização de mercado mais de oito vezes, para US$ 8,5 trilhões (R$ 45,9 trilhões). O conselho argumenta que o pagamento potencial se justifica porque foi “desenhado para manter o tempo, a energia e os consideráveis talentos de Elon Musk focados na Tesla”.
Muitas distrações
Uma das distrações de Musk é a SpaceX. A empresa agora vale US$ 400 bilhões (R$ 2,16 trilhões), contra US$ 210 bilhões (R$ 1,13 trilhão) há um ano, com base em uma recente oferta de recompra de US$ 1 bilhão (R$ 5,4 bilhões) e dados de negociação no mercado secundário. Isso torna a SpaceX, fundada por Musk em 2002, a segunda empresa de capital fechado mais valiosa do mundo (atrás apenas da OpenAI, avaliada em US$ 500 bilhões — R$ 2,7 trilhões). A participação estimada de 42% de Musk vale US$ 168 bilhões (R$ 907,2 bilhões). A Starlink — seu serviço de internet via satélite, com 6.800 satélites em órbita fornecendo conectividade a 6 milhões de clientes — gerou US$ 9,3 bilhões (R$ 50,2 bilhões) em receita no ano passado, segundo estimativas do Morgan Stanley. E os foguetes da SpaceX continuam sendo os preferidos do governo dos EUA para lançamentos de cargas, mesmo após o rompimento de Musk com Trump. Em julho, o Wall Street Journal noticiou que autoridades da Casa Branca chegaram a avaliar o cancelamento de alguns contratos da SpaceX com a NASA e o Departamento de Defesa.
Outra grande distração é a xAI Holdings, uma sofisticada jogada de engenharia financeira no mercado privado.
Após a reeleição de Trump e o retorno dos anunciantes ao Twitter (renomeado para X) depois da fuga ocorrida sob a liderança de Musk, ele aproveitou para fundir a plataforma com sua startup de inteligência artificial, a xAI, em março. Nos termos de Musk, aprovados pelos investidores, o X agora vale US$ 33 bilhões (R$ 178,2 bilhões) líquidos de dívida (US$ 2 bilhões — R$ 10,8 bilhões — a mais do que ele pagou em 2022) e a xAI passou a valer US$ 80 bilhões (R$ 432 bilhões), ante US$ 50 bilhões (R$ 270 bilhões) anteriormente, segundo investidores próximos ao negócio e uma análise da Forbes de registros de fundos mútuos públicos. Somando suas participações nas duas empresas-irmãs, Musk tem cerca de US$ 60 bilhões (R$ 324 bilhões) de patrimônio atrelado à xAI Holdings. Ele pretende ampliar ainda mais esse valor, perseguindo uma avaliação de mais de US$ 200 bilhões (R$ 1,08 trilhão) na próxima rodada de captação.
Elon Musk também tem atacado seu principal concorrente, a criadora do ChatGPT, OpenAI. Em fevereiro, um grupo de investidores liderado por ele fez uma oferta de US$ 97,4 bilhões (R$ 526 bilhões) pela OpenAI (que, previsivelmente, fracassou, já que a empresa não estava à venda) e depois processou a companhia e seu cofundador e CEO, Sam Altman, alegando que os planos de transformar a organização em empresa com fins lucrativos violavam seu contrato de fundação sem fins lucrativos.
Musk retirou o processo antes de um juiz estadual decidir sobre seu arquivamento, mas depois entrou com uma ação semelhante em tribunal federal. A OpenAI contra-atacou, processando Musk e alegando que ele conduz uma “campanha de assédio que já dura anos” contra a empresa, além de afirmar que sua oferta de aquisição foi uma “simulação” projetada para prejudicar a startup. Em agosto, Musk abriu ainda outro processo contra a OpenAI, incluindo a Apple como co-ré, alegando que ambas conspiraram para manipular a App Store em favor do ChatGPT em detrimento do Grok, chatbot da xAI. Tanto a Apple quanto a OpenAI negaram as acusações de Musk.
Enquanto isso, os empreendimentos menores de Musk, Neuralink e The Boring Company, continuam em grande parte especulativos. A Neuralink vem testando seus chips de implante cerebral, mas ainda não comercializou nenhum produto e já esteve sob investigação do Inspetor-Geral do Departamento de Agricultura dos EUA por alegações de maus-tratos a animais em seus testes.
A The Boring Company tem apenas um projeto concluído — o túnel de hyperloop em Las Vegas — apesar de já ter captado mais de US$ 900 milhões (R$ 4,86 bilhões), segundo o PitchBook. Ainda assim, investidores de venture capital avaliam a Neuralink em US$ 9,6 bilhões (R$ 51,8 bilhões) e a The Boring Company em US$ 5,7 bilhões (R$ 30,8 bilhões).
O que Elon Musk faz com toda essa fortuna? Em comparação com alguns dos mais extravagantes da Forbes 400 — como Larry Ellison comprando uma ilha inteira no Havaí ou Mark Zuckerberg dominando metade de Palo Alto — Musk não tem investido muito em imóveis ultimamente. Enquanto morava em Washington, D.C., ele teria espalhado colchões em prédios federais. Em Austin, comprou um terreno de US$ 35 milhões (R$ 189 milhões) para alguns de seus 14 filhos (e contando). Sua maior despesa mensal pode ser combustível de jato. Atualmente, ele costuma ser visto voando entre Los Angeles, São Francisco e Texas, cuidando de seus negócios. Mas quando se tem mais de US$ 400 bilhões (R$ 2,16 trilhões), isso é apenas um detalhe irrelevante.