A Super Quarta de hoje (17) é um conto de duas histórias com um protagonista claro — o Federal Reserve — e um vilão já conhecido e antecipado — a agressiva política tarifária aplicada por Donald Trump.
Segundo a ferramenta Fed Watch do CME Group, 100% dos analistas consultados acreditam que o Fed realizará o seu primeiro corte de juros de 2025 — com, 96,1% de apostas em um corte de 0,25 ponto percentual. Os demais 3,9% projetam queda de 0,5 p.p nos Fed Funds.
As sinalizações que levaram 100% do mercado a precificar um corte de juros nesta reunião começaram em junho, quando o gráfico de projeções dos diretores do Fed apontavam para a possibilidade de dois cortes na taxa básica ainda em 2025.
Já na última reunião, a decisão de manter os Fed Funds estacionados não foi unânime, mostrando discordância dentro do colegiado. Já no mês passado, Powell sinalizou um potencial corte nos juros “a depender dos dados” econômicos divulgados até a decisão final — e, até o momento, eles corroboram a tese de estagflação, com uma forte desaceleração econômica, ainda que a alta nos preços persista.
Os últimos dados do mercado de trabalho apontam para o pior momento desde a pandemia do coronavírus. São quatro meses seguidos com a geração de vagas abaixo da casa dos 100 mil. Em agosto, foram apenas 22 mil postos de trabalho registrados. Parte da fraqueza tem sido creditada à política tarifária e de imigração de Donald Trump. Ao todo, cerca de 1 milhão de empregos foram eliminados em 12 meses.
Já a inflação americana tem surpreendido positivamente, com deflação nos preços ao produtor e alta em linha com o esperado para os consumidores — por mais que algumas das tarifas anunciadas pelo governo tenham efetivamente entrado em vigor.
“Esperamos um corte de 0,25 p.p. na taxa básica de juros na reunião do dia 17 de setembro, com outro de igual magnitude em dezembro. O ritmo de cortes de juros de 0,25 p.p. por trimestre deve ser mantido no primeiro semestre de 2026, o que deve levar a taxa Fed Funds para o intervalo entre 3,25% a.a. e 3,50% a.a., a ser mantido até o final daquele ano”, aponta o Safra em relatório a clientes.
Trump vs Fed
Os membros do colegiado do Fed possuem mais do que apenas os números de inflação, desemprego e atividade econômica pairando sobre suas cabeças. Desde a última reunião do BC americano, os ataques de Donald Trump contra o presidente da autarquia, Jerome Powell, diminuíram, mas a “graça” não se estendeu a outros membros do Fomc.
O presidente Donald Trump tentou demitir a diretora Lisa Cook antes das reuniões decisivas, mas um tribunal federal de apelações decidiu que Trump não pode demitir a dirigente do Fed. Segundo os juízes, os argumentos utilizados pelo governo não atendiam aos requisitos legais. A primeira tentativa de demissão foi feita em agosto. Em uma medida sem precedentes, o presidente americano alegou que Cook estaria envolvida em uma fraude hipotecária.
O alívio nas ameaças à Jerome Powell aconteceu após o simpósio de Jackson Hole. No evento, o presidente do Fed sinalizou um possível corte de juros na reunião de setembro — animando o mercado e o chefe da Casa Branca.
“Embora o mercado de trabalho pareça estar em equilíbrio, ele é algo curioso, resultante de uma desaceleração acentuada tanto na oferta quanto na demanda por trabalhadores. Essa situação incomum sugere que os riscos de queda no emprego estão aumentando. E, se esses riscos se materializarem, poderão fazê-lo rapidamente”, disse o presidente do Fed. “No entanto, também é possível que a pressão de alta sobre os preços, devido às tarifas, possa estimular uma dinâmica inflacionária mais duradoura, e esse é um risco a ser avaliado e administrado”.
O discurso consolidou as apostas em um corte nos juros antes mesmo dos últimos dados da economia americana mostrarem sinais de desaceleração.
E o Copom?
Embora seja coadjuvante nesta Super Quarta, a decisão de política monetária do BC brasileiro também deve dar sinais sobre qual será o tom para o restante do ano.
Se na reunião anterior, em julho, o Copom interrompeu a sequência de alta da taxa Selic — levando-a ao maior patamar desde 2006 —, a expectativa é que os diretores do BC mantenham os juros estacionados no patamar atual para que os efeitos completos do aperto monetário possam repercutir na economia.
O comunicado da autarquia deve balizar as projeções dos economistas para os próximos meses. Se antes as projeções, em sua maioria, indicavam cortes de juros apenas em meados de 2026, agora há bancos de investimento e casas de análises que já projetam cortes em 2025.
O motivo? O comportamento melhor do que o esperado da inflação. Em 15 das últimas 16 semanas, analistas consultados pelo Banco Central na pesquisa Focus reduziram as expectativas para a alta dos preços neste ano, levando o número para 4,83%. Em agosto, o IPCA apresentou a primeira deflação do ano, com o acumulado de 12 meses indo a 5,13%.
O resultado do PIB tem mostrado moderação nos setores mais sensíveis à política monetária. O segmento que segue pedindo atenção e deve estar na mira do BC é o de serviços, menos suscetível à alta de juros.
A forte queda do dólar, agora em patamares próximos dos R$ 5,20, também pode ser considerado como um elemento deflacionário futuro, elevando as apostas em uma moderação do discurso do BC.
O Banco Safra e o JP Morgan acreditam em uma queda na taxa básica em dezembro deste ano. A XP Investimentos aponta que, com cortes de juros americanos no horizonte, a mediana para a Selic ao fim de 2026 recuou para 12,25%.