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Como Gestores Têm Navegado entre as Idas e Vindas de Trump

Volatilidade virou regra e o mercado aprendeu a operar dentro dela, com nervos de aço e certa dose de ironia, dizem analistas

7 min

Desde que assumiu o seu segundo mandato, o presidente Donald Trump voltou desafiar a previsibilidade global. Entre ameaças de novas tarifas, recuos repentinos e declarações que parecem roteirizadas para um turbilhão de sensações em Wall Street, o republicano transformou sua diplomacia em uma montanha-russa política. E o mercado, depois de tantos loops, já aprendeu a não gritar a cada curva.

O estilo Trump não é novidade. Mesmo assim, ele continua “testando” investidores mundo afora, e isso não é nada diferente no Brasil. “Já está claro há algum tempo que ele [Trump] tem um estilo de negociação agressivo e imprevisível. Isso gera volatilidade e um ambiente mais ruidoso”, diz Luis Cezario, economista-chefe da Asset 1. 

Segundo ele, o resultado é uma postura mais contida, levando a posições menores, decisões mais rápidas e proteção reforçada para não ser pego no contrapé de um post do republicano em sua rede social, a Truth Social, que, neste segundo mandato, substituiu o X (ex-Twitter) como ferramenta de divulgação de Trump.

Antes, bastava uma postagem para as bolsas desabarem e moedas perderem o rumo. Hoje, o mercado já aprendeu a respirar fundo antes de reagir. “Os investidores perceberam que muitos dos anúncios polêmicos não se concretizam. Com o tempo, o mercado entendeu que grande parte do discurso não vinha acompanhada de ações concretas”, explica Caio Athié Teruel, economista e gestor patrimonial na Cimo Family Office. Resumindo: quem sobreviveu ao primeiro mandato, já sabe que nem todo trovão vira tempestade.

Mesmo assim, o “efeito Trump” segue no radar. “O mercado está mais preparado, mas não imune”, adverte Luis Ferreira, CIO do EFG International para as Américas.

O novo “normal”

A rotina dos gestores agora inclui um calendário paralelo de riscos políticos. Isso inclui recomendações para reduzir alavancagem, aumentar liquidez e blindar setores sensíveis.

Para Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, o mercado já decifrou a lógica: Trump ameaça, o mercado se estressa, ele recua e tudo volta ao normal. Até o próximo susto. “O mercado já entendeu como funciona e, principalmente, que não há como entender. Por isso, se protege antecipadamente”, resume Spiess.

Dólar encolhido e ouro brilhando

Entre idas e vindas, essa diplomacia e negociações também têm redesenhado o fluxo global de capitais. Com o dólar perdendo parte do brilho, cresce o interesse por ativos de proteção, como ouro e títulos de qualidade. Países emergentes, entre eles o Brasil, vêm captando parte desses recursos, embora continuem vulneráveis a qualquer mudança de vento internacional.

Em um cenário onde o imprevisível é a nova rotina, os gestores já não esperam estabilidade. Aprenderam a operar dentro do caos, com planilhas em uma mão e calmantes metafóricos na outra. Ou seja, o mercado deixou de reagir às surpresas de Trump para incorporá-las ao modelo. Afinal, se ele muda de ideia, o investidor muda de posição.

Para que lado ir?

As principais decisões que moldam o risco global estão ligadas às disputas comerciais, notadamente com a China, e às ameaças de imposição de tarifas. Cada fala ou anúncio na mídia gera uma reação imediata no preço dos ativos.

A ameaça de tarifas adicionais, como os 100% sobre a China, é amplamente vista pelo mercado como uma tática de negociação para forçar o lado oposto a sentar à mesa. 

Embora essas ameaças gerem estresse e possam provocar correções imediatas, tais como a desvalorização do real e outras moedas emergentes após anúncios recentes de tarifas, a expectativa do mercado é, muitas vezes, de que um acordo ou, pelo menos, uma trégua transitória, será alcançado.

A lógica é a seguinte, segundo os analistas consultados para esta reportagem: um retrocesso ou a materialização de tarifas mais duras aumentaria o risco de uma queda mais forte na atividade econômica, levando a um cenário de risk-off, caracterizado quando os investidores buscam ativos de menor risco.

Apesar desse cenário, há um entendimento crescente entre os investidores sobre o padrão posterior. “Com o passar do tempo, porém, o mercado passou a entender que grande parte do discurso não vinha acompanhada de ações concretas”, afirma Caio Athié Teruel, economista e Gestor Patrimonial na Cimo Family Office.

Estratégias para adaptação aos “novos tempos”

Diante de um ambiente menos previsível, a adaptação dos gestores de carteiras foi fundamental. Eles migraram de uma postura reativa para um papel mais proativo, integrando a incerteza política na modelagem de riscos e estratégias de alocação.  Luis Ferreira, CIO do EFG International para Américas, diz que o contexto atual levou os gestores a adotarem algumas frentes. Entre elas três são fundamentais:

  • Gestão de risco aprimorada: o objetivo é o de mitigar os riscos em momentos decisórios. Isso inclui a redução de alavancagem, o aumento da liquidez e a colocação de hedge em setores vulneráveis às políticas comerciais, antecipando o “risco de evento” (event risk);
  • Cautela na montagem de posições: as posições são montadas em tamanhos menores e com maior cautela, visando agilidade para reagir rapidamente aos eventos;
  • Avaliação geográfica e setorial: é feita uma identificação de vulnerabilidades setoriais, sobretudo em relação a exportadores e importadores, e também geográficas, adaptando a alocação para minimizar a exposição ou capturar oportunidades.

A adoção dessas estratégias, segundo Ferreira, não elimina totalmente o risco, porém, ajuda a gerenciar esse “novo normal” de forma mais eficiente. E sim, nada será capaz de frear picos de volatilidade se eventos inesperados ou declarações radicais venham a ocorrer novamente. “O mercado está mais preparado, mas não imune”, diz Ferreira. “As falas, comentários e anúncios de política do Trump têm impacto real”, lembra o executivo.

Reativo

Outro fator essencial é a comunicação. Os clientes devem estar cientes dos potenciais efeitos de cada decisão e como a carteira está posicionada para enfrentar essas oscilações. Mais do que nunca, o papel de antecipar cenários é crucial, e não apenas reativo ante ao que se apresenta.

A principal conclusão dos gestores é que eles operam em um novo paradigma. O mercado não pode mais esperar que as incertezas diminuam.  “É um novo mundo esse que se apresenta para o mercado financeiro, menos previsível, mais errático, de maiores surtos de volatilidade momentâneos, episódicos”, explica Matheus Spiess, analista da Empiricus Research,

Esse novo ambiente de incerteza e choques simultâneos (incluindo tarifas e desregulamentação) tem levado a uma rotação de ativos em nível internacional. O dólar perdeu espaço, resultando em uma fuga para ativos mais seguros, como o ouro, e uma alocação de recursos que antes iam 100% para os EUA e que, agora, se dirigem a outros lugares, beneficiando ativos europeus e, notavelmente, emergentes.

No curto prazo, o Brasil é beneficiado por essa diversificação externa, embora o país tenha sido afetado pelas tarifas. Por outro lado, há uma preocupação crescente com as vulnerabilidades domésticas acumuladas.

O aumento dos riscos gerados por propostas para elevar gastos, por exemplo, cria uma demanda por correção acentuada nos ativos locais. “Se tiver alguma mudança nos ventos do mercado internacional, a gente pode pagar um preço pela nossa vulnerabilidade”, alerta Luis Cezario, economista-chefe da Asset 1.

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