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BC Está Cauteloso em Antecipar Movimentos, Apontam Especialistas

Decisão da noite passada leva mercado a reavaliar apostas de cortes para o próximo ano

4 min

O Comitê de Política Monetária (Copom) encerrou o ano mantendo a Selic em 15% ao ano, uma decisão amplamente esperada, mas que deixou investidores que buscavam pistas de um afrouxamento monetário a ver navios. 

O comunicado divulgado logo após a reunião praticamente repetiu a mensagem dos meses anteriores e reforçou a percepção de que o Banco Central ainda não considera seguro iniciar um ciclo de cortes. O silêncio sobre janeiro, que vinha sendo precificado por parte do mercado como o ponto de partida da flexibilização, deixou um recado amargo: o BC não está pronto para afrouxar — ainda que tenha melhorado as suas projeções de inflação e a aproximado do centro da meta em 2027. 

A comunicação manteve-se firme nas preocupações com o balanço de riscos, nas expectativas ainda acima da meta e na necessidade de preservar a credibilidade da política monetária. Em outras palavras, para o Copom, a melhora recente da inflação é bem-vinda, mas insuficiente.

“A estratégia de manter os juros em nível suficientemente contracionista segue adequada”, afirmou o comitê no comunicado.

O tom, ainda que praticamente idêntico ao observado nas reuniões de setembro e novembro, caiu como um balde de água fria numa parte do mercado que esperava uma inflexão — ou ao menos uma indicação clara de que a discussão sobre cortes começaria já em janeiro.

Mercado reavalia apostas

Do lado das projeções, o Banco Central revisou sua expectativa para a inflação de 2025 para 4,4% e reduziu a estimativa para o horizonte relevante de política monetária — o segundo trimestre de 2027 — para 3,2%, praticamente em linha com o centro da meta. Ainda assim, a instituição reiterou que não hesitará em voltar a subir juros, caso seja necessário, reforçando a mensagem de vigilância.

Para David Beker, chefe de economia para Brasil e de estratégia para América Latina do Bank of America, o Copom enviou um sinal que não deixa margem para interpretações otimistas de curto prazo. Segundo ele, o fato de o comunicado permanecer quase inalterado, mesmo diante de dados considerados benignos para a inflação, reduz a probabilidade de um corte já em janeiro já na primeira reunião de 2026.

“Apesar da melhora no cenário inflacionário, o Banco Central optou por não fornecer qualquer guidance para a próxima reunião. Isso reforça uma postura mais hawkish”, disse Beker, ao comentar o resultado da reunião em relatório do BofA

O banco projeta o início do ciclo de cortes em janeiro, mas admite que a falta de sinalização explícita pode levar o mercado a empurrar esse início para março, dependendo do tom da ata que será divulgada na próxima semana. 

A leitura do Itaú Unibanco vai no mesmo sentido, classificando o comunicado como mais duro do que o esperado, especialmente por reafirmar que a estratégia atual seguirá adiante e que a autoridade monetária não parece disposta a discutir flexibilização antes de observar novas evidências de desaceleração consistente da economia e melhora das expectativas de inflação

Riscos fiscais crescem no radar 

A economista-chefe do Inter, Rafaela Vitoria, destaca que o ambiente de inflação benigno não foi suficiente para que o Copom abrisse espaço para discutir cortes imediatos. Segundo ela, essa decisão tende a dividir o mercado para a próxima reunião.

Rafaela também chama atenção para os riscos políticos e fiscais que voltaram a ganhar peso no cenário prospectivo. A discussão sobre aumento de gastos, eventuais isenções tributárias em 2026 e a expansão do crédito direcionado formam um conjunto de fatores que podem reacender pressões inflacionárias — justamente no momento em que o BC tenta consolidar sua credibilidade.

“Se houver aumento relevante da percepção de risco, o câmbio pode depreciar e manter a inflação acima da meta, prolongando o aperto monetário”, diz. O banco, no entanto, preserva a sua aposta em um corte na primeira reunião de 2026. 

No fim das contas, a impressão predominante entre analistas é que o Copom optou por comprar tempo. A ata da reunião, que será divulgada nos próximos dias, deve ajudar a calibrar melhor as expectativas.

Por ora, o recado é claro: o Banco Central ainda vê riscos importantes no horizonte, se recusa a antecipar movimentos e não dará sinalizações antes da hora. 

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