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Aposentadoria: o Que Aposentados Felizes Sabem sobre Gastar Dinheiro

Superar a barreira mental da transição entre poupar e gastar geralmente exige um plano de aposentadoria por escrito e uma estratégia eficaz

6 min

De acordo com o relatório Economic Well-Being of U.S. Households 2024, do Federal Reserve, apenas cerca de 35% dos adultos americanos que ainda não se aposentaram afirmam que seu plano de poupança para a aposentadoria está no caminho certo. Um estudo da Vanguard sobre prontidão para a aposentadoria estima que pouco mais de 40% deles estão preparados para manter o padrão de vida atual após deixarem o mercado de trabalho.

Como esses números sugerem, poupar o suficiente para a aposentadoria pode ser desafiador. Mas e se o maior obstáculo não estiver nos números, e sim na narrativa — na transição mental entre acumular patrimônio e começar a utilizá-lo? Moira O’Neill, do Financial Times, alerta para essa dinâmica e afirma que “isso pode ter um efeito pernicioso e prejudicial sobre a experiência da aposentadoria.”

O’Neill não está sozinha. David Blanchett e Michael Finke, pesquisadores do Retirement Income Institute (RII), ligado à Alliance for Lifetime Income, identificaram que alguns aposentados relutam em usar suas reservas financeiras mesmo quando têm plena condição de fazê-lo.

O estudo, intitulado Retirees Spend Lifetime Income, Not Savings, publicado em abril de 2025, mostrou que aposentados tendem a gastar muito mais recursos provenientes da Previdência Social, pensões e anuidades do que de suas contas de poupança para a aposentadoria.

Se as pessoas trabalham a vida inteira economizando para a aposentadoria apenas para se recusarem a gastar esse dinheiro quando chega o momento, qual é o sentido? Uma mudança de mentalidade em relação aos gastos pode levar a uma relação mais saudável com o dinheiro e, consequentemente, a uma aposentadoria mais satisfatória?

O paradoxo do milionário

Muitos aposentados relatam falta de confiança em relação à própria riqueza, mesmo quando os números parecem elevados. Uma pessoa hipotética que ganha US$ 75 mil por ano (R$ 406.500) e, de repente, vê US$ 1 milhão (R$ 5,42 milhões) em seu plano de aposentadoria pode ter dificuldade em se enxergar como milionária.

Mesmo que a renda influencie como as famílias percebem sua situação financeira, o patrimônio conta uma história diferente. Dados do Survey of Consumer Finances (SCF), do Federal Reserve, mostram que um domicílio precisa ter, em geral, cerca de US$ 1,6 milhão (R$ 8,67 milhões) ou mais em patrimônio líquido para integrar os 10% mais ricos dos EUA, por exemplo.

Para efeito de comparação, o relatório Income in the United States, do Census Bureau, aponta que a renda média domiciliar nos EUA foi de US$ 83.730 (R$ 453.816,60) em 2024. Por outro lado, acumular esse nível de riqueza em contas de aposentadoria é bem menos comum.

Por que sacar parece “errado”

A culpa associada ao saque das economias costuma ser condicionada por décadas de aprendizado focado em poupar, contribuir, acumular e adiar o consumo — tudo em função de formar um patrimônio destinado a sustentar a vida após o fim da carreira.

Em seguida, quase da noite para o dia, espera-se que essa lógica seja invertida. Não é surpresa que muitos aposentados enfrentem uma forte dissonância cognitiva. A riqueza da aposentadoria não é como ganhar na loteria.

Riqueza repentina pode levar a gastos impulsivos, mas riqueza construída ao longo do tempo tende a gerar consumo igualmente metódico. A poupança para a aposentadoria geralmente é fruto de décadas de disciplina, planejamento, adiamento de recompensas, descontos em folha, ciclos de mercado e formação de hábitos.

Esse patrimônio conquistado lentamente cria uma espécie de “memória muscular” para o uso consciente, constante e sustentável do dinheiro. O oposto do caos de um prêmio de loteria pode ser algo positivo — desde que o aposentado não se torne excessivamente rígido.

Um plano por escrito

Uma forma eficaz de superar esse bloqueio psicológico é elaborar um plano de fluxo de caixa para a aposentadoria, formalizado por escrito e calculado da maneira mais detalhada possível. As categorias de análise podem incluir, entre outras:

  1. Gastos
  2. Inflação
  3. Impostos
  4. Momento de início do benefício da Previdência Social
  5. Retornos dos investimentos
  6. Ciclos de mercado
  7. Alocação de ativos
  8. Limites de segurança (cálculos de gasto máximo)
  9. Projeções para mais de 30 anos

O objetivo é criar um plano que explore estratégias de saque sustentáveis — geralmente em torno de 4% ao ano — sem esgotar os recursos. Ver resultados positivos no papel costuma ajudar os aposentados a sair de uma visão estreita movida pelo medo e a compreender que gastar dinheiro não significa agir de forma irresponsável.

A chamada regra dos 4% (ou “4% mais”) parece oferecer uma espécie de permissão psicológica para que aposentados utilizem o patrimônio que levaram décadas para construir. Ela permite substituir a ideia de “consumir o patrimônio” por “usar a matemática para seguir o plano.” Com o tempo, isso tende a tornar os saques muito mais confortáveis.

Um portfólio equilibrado

Por mais simples que pareça, um portfólio equilibrado também pode funcionar como um amortecedor psicológico contra uma visão ultrapassada sobre gastos na aposentadoria. Ele ajuda o aposentado a entender que não está apenas retirando dinheiro do plano, mas sim executando uma estratégia de alocação previamente definida.

Quando os próximos três anos ou mais de renda estão alocados em caixa, fundos de mercado monetário e títulos de curto prazo, torna-se mais fácil lidar com a volatilidade e reduzir o receio de que oscilações bruscas do mercado comprometam os recursos.

Acumular patrimônio suficiente para se aposentar não é uma tarefa simples. A disciplina e os sacrifícios envolvidos nesse processo merecem reconhecimento. No entanto, a mentalidade que leva ao sucesso na fase de acumulação pode, paradoxalmente, dificultar a capacidade de aproveitar seus resultados.

Superar a barreira mental da transição entre poupar e gastar geralmente exige um plano de aposentadoria por escrito e uma estratégia.

Reservas financeiras robustas não surgem por acaso; normalmente são fruto de décadas de trabalho árduo. Quando o aposentado faz as pazes com essa matemática, pode finalmente se permitir desfrutar da aposentadoria que passou a vida inteira construindo.

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