Segurança financeira não é construída de uma única vez. O planejamento surge a partir da soma de decisões tomadas diariamente ao longo de décadas. Para as mulheres, essa realidade é ainda mais particular, pois a trajetória profissional e familiar costuma apresentar características distintas, já que muitas interrompem temporariamente suas carreiras para cuidar dos filhos ou enfrentam jornadas de trabalho reduzidas em determinados períodos da vida —gerando impactos sobre renda, patrimônio e aposentadoria.
De fato, iniciar o planejamento financeiro desde cedo é fundamental para construir patrimônio de forma consistente, garantir independência financeira e ter qualidade de vida durante a aposentadoria.
O relatório Lifetime Financial Planning for Women, do banco suíço Lombard Odier, destaca que escolhas aparentemente pequenas podem produzir consequências financeiras grandes no futuro. Segundo o estudo, cada ano com menor contribuição previdenciária representa não apenas uma redução imediata da renda, mas também menor formação de reservas para o futuro.
Entre os 35 e 60 anos, a maioria mulheres entram na fase financeiramente mais exigente da vida. O período costuma coincidir com crescimento profissional, criação dos filhos, aquisição de imóveis e apoio financeiro a familiares mais velhos. É neste momento que as consequências das decisões anteriores começam a aparecer.
Porém, o documento aponta que essas escolhas não devem ser vistas como erros, mas como decisões que precisam ser acompanhadas de estratégias compensatórias para evitar prejuízos futuros. Entre elas, o investimento contínuo, a revisão regular de extratos, a formalização legal de uniões e a realização de aportes voluntários para suprir defasagens.
“O planejamento antecipado multiplica os benefícios: o efeito combinado da economia tributária, dos retornos dos investimentos de longo prazo e das contribuições contínuas realizadas desde os primeiros anos é particularmente poderoso”, afirmam as autoras do relatório, Elena Hainaut, head e private banker sênior, e Lea Baracchini, wealth planner do banco suíço.
Decisões que moldam o futuro
No início da vida profissional, o foco costuma estar na construção da carreira, no pagamento de estudos, na independência financeira e na realização de objetivos de curto prazo. No entanto, de acordo com o Lombard Odier, é justamente nesse momento que surge o maior aliado do patrimônio: o tempo.
Na prática, quanto mais cedo uma pessoa começa a poupar e investir, maior será o efeito dos juros compostos. O patrimônio passa a crescer não apenas pelas novas contribuições realizadas, mas também pelos rendimentos acumulados ao longo dos anos. Para as mulheres, essa fase é importante porque permite criar uma base financeira antes que ocorram mudanças na dinâmica familiar ou profissional. “Isso significa que mesmo aportes mensais modestos podem gerar resultados expressivos após décadas de acumulação”, aponta a pesquisa.
Casamentos, uniões e divórcios também trazem consequências que vão além do campo emocional e podem afetar o patrimônio da família. Em relacionamentos não oficializados, por exemplo, a ausência de planejamento sucessório pode dificultar o acesso do parceiro aos bens acumulados ao longo da vida, tornando essencial a organização prévia de documentos e beneficiários
No Brasil, a união estável é reconhecida e protegida automaticamente pela lei, sem exigir cerimônia ou registro prévio. Mas, em alguns países, não existe um regime automático de comunhão de bens aplicável a todo tipo de união. Em outras palavras, a contribuição financeira, ou não financeira, como o trabalho doméstico, durante um relacionamento não cria automaticamente uma propriedade conjunta, a menos que isso seja formalmente documentado.
O estudo do banco suíço afirma que essa ausência de proteções matrimoniais automáticas, combinada com poupanças menores ao longo da vida, aumenta a vulnerabilidade financeira das mulheres em casos de separação ou viuvez. “A elaboração de testamentos e a manutenção de beneficiários atualizados junto às instituições financeiras são fundamentais para a proteção da mulher e de sua família”, diz a pesquisa.
Além disso, o Lombard Odier recomenda que mulheres conheçam detalhadamente:
- O regime de bens adotado;
- A estrutura patrimonial da família;
- Os beneficiários de seguros e previdência;
- A existência de testamentos;
- Os direitos sucessórios aplicáveis.
“Ter clareza sobre esses aspectos reduz riscos e aumenta a proteção financeira da família em situações inesperadas”, ressalta a pesquisa. Segundo ela, o planejamento financeiro não deve ser estático, mas revisado sempre que ocorrerem mudanças importantes na vida pessoal ou profissional, como a compra de um imóvel, casamento, nascimento do primeiro filho, troca de emprego, entre outros.
Construção da aposentadoria: os regimes de previdência
Segundo o banco suíço, o caminho ideal depende das expectativas de longevidade de cada mulher, da sua tolerância ao risco, das considerações familiares e do seu perfil fiscal. À medida que a aposentadoria se aproxima, o foco do planejamento financeiro deixa de estar concentrado apenas na acumulação de patrimônio e passa a priorizar sua preservação, a geração de renda sustentável e a organização da sucessão patrimonial.
No Brasil, embora o sistema público de aposentadoria continue desempenhando papel fundamental, ele pode não ser suficiente para garantir sozinho o mesmo padrão de vida mantido durante a fase ativa. Isso acontece, pois o sistema previdenciário brasileiro enfrenta pressões demográficas, como o envelhecimento da população. De acordo com o IBGE, o número de idosos no Brasil cresceu 57,4% em apenas 12 anos.
O sistema nacional é organizado em diferentes regimes, que atendem grupos específicos de trabalhadores e determinam as regras de acesso aos benefícios de aposentadoria. O primeiro é o Regime Geral de Previdência Social (RGPS), que funciona sob um modelo de repartição, onde os trabalhadores atuais financiam os aposentados atuais, e cobre majoritariamente os trabalhadores do setor privado.
O segundo engloba os Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), que se aplicam aos servidores públicos e podem operar sob uma estrutura de repartição ou de capitalização parcial. Pela regra geral vigente em 2026, mulheres precisam ter 62 anos de idade e pelo menos 15 anos de contribuição para se aposentar. Para homens, a idade mínima é de 65 anos, com 20 anos de contribuição para quem começou a contribuir após a reforma da Previdência. Há regras de transição e situações específicas, por isso a simulação individual deve considerar o histórico de cada segurado.
Já a terceira opção é o Regime de Previdência Complementar (RPC). Trata-se de um sistema privado, voluntário e de capitalização total, onde os recursos são investidos para acumular patrimônio individual.
O que é previdência privada?
Existem dois tipos de planos de previdência privada: o PGBL (Plano Gerador de Benefício Livre) e o VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre ). A principal diferença entre os dois são os benefícios tributários e cobrança de Imposto de Renda (IR).
Segundo especialistas, o PGBL é indicado para quem faz a declaração completa do Imposto de Renda e contribui para o INSS ou outro regime oficial de previdência. Nesse modelo, as contribuições podem ser deduzidas da base de cálculo do IR até o limite de 12% da renda bruta anual tributável. O imposto, porém, será cobrado no resgate ou no recebimento da renda, e incide sobre o valor total acumulado.
Já o VGBL costuma ser indicado para quem faz a declaração simplificada, é isento de IR ou já atingiu o limite de dedução do PGBL. Ele não permite abatimento na declaração, mas o imposto incide apenas sobre os rendimentos.
Outro diferencial é o tipo de tributação, que pode ser Regressivo/Definitivo ou Progressivo/Compensável. Enquanto o regressivo segue a tabela de IR, o progressivo envolve o crescimento da alíquota. Assim, a tributação regressiva começa com alíquota em 35% e diminui a cada dois anos, pode chegar em 10%. Já o progressivo é aplicado sobre o montante, ou seja, quanto maior for o capital retirado, mais elevado será o imposto pago. Ainda, o resgate na tabela progressiva conta com retenção de IR na fonte, com alíquota de 15%. Posteriormente, na declaração de IR deverá ser ser recolhido o tributo complementar.
Ambos modelos permitem que os saldos acumulados sejam transferidos diretamente para beneficiários designados em caso de falecimento, facilitando a transmissão do patrimônio.
Próximos passos
O documento também aponta que a aposentadoria é um momento oportuno para revisar beneficiários, atualizar documentos, revisar testamentos e estruturar a transmissão dos bens para a próxima geração.
“O planejamento sucessório não beneficia apenas os herdeiros. Ele também reduz conflitos familiares, melhora a eficiência tributária e garante que a vontade da titular do patrimônio seja respeitada”, afirma o banco suíço.