Ontem, o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic em 15% ao ano, conforme era amplamente esperado. Contudo, surpreendeu o mercado ao deixar explícita a indicação de que poderá cortar a taxa básica de juros em março. Enquanto alguns economistas viram a comunicação como excessiva, Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter, acredita que ela foi bem-vinda após muita discussão sobre as entrelinhas das decisões anteriores.
Apesar do tom pouco usual, o comitê não deixou a cautela de lado ao dizer que o início do ciclo de cortes dependerá da concretização do cenário desejado e que segue dedicado em levar a inflação para o centro da meta, não se comprometendo nem com o ritmo e nem a intensidade dos cortes. Como resultado, muitos economistas optaram pela manutenção de suas expectativas para o ano, assim como Vitória. O Inter espera um corte de 0,50 ponto percentual em março, e que a Selic finalize 2026 em 12,5%.
Vitória aponta que daria para cortar mais a taxa. Porém, isso dependerá muito do “risco eleição”. “Mais gastos podem ser anunciados pelo governo este ano, durante o período eleitoral. E no início de 2027 precisamos ver se um novo governo, ou o governo reeleito, anunciará ajustes nas contas. Só após esse período teremos um cenário propício ou não para esse movimento”.
Confira abaixo a entrevista concedida por Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, à Forbes:
O que achou da indicação explícita de que o corte pode ocorrer?
Eu achava que o Copom fosse deixar os próximos passos em aberto, mas eu achei muito bom ter um comunicado mais claro. Depois de tantas discussões sobre as entrelinhas, o comitê fez bem em deixar as expectativas para março ancoradas, não deixar dúvida sobre se corta ou se não corta.
Mesmo assim, foi mantido o tom de cautela. Por isso, continuamos a esperar um corte de 0,50 ponto percentual a partir de março, e o cenário atual não permite ver, por ora, esse mesmo ritmo nas reuniões seguintes.
Dá para cortar mais. Mas para isso a gente precisa ver mais uma melhora no cenário. Hoje, o panorama é benigno, tanto o externo e seu impacto no câmbio quanto a desaceleração do crédito, mas a gente tem um risco fiscal no radar.
Vocês mudaram a expectativa sobre os juros para o fim do ano?
Por enquanto não. Continuamos a esperar que a Selic termina o ano em 12,5%. Mas tem um risco de eleição no radar e podemos ter um pouco mais de gastos ao longo do ano. A gente viu isso em 2022. Se a inflação continuar com essa expectativa de 4%, que é acima do centro da meta, inclusive entrando em 2027, achamos que é um patamar razoável. Esperamos que a inflação encerre o ano em 3,90%.
A projeção do Copom foi mantida em 3,2%, mas o câmbio usado foi o mesmo de dezembro, a cotação de R$ 5,35. É mais recomendável usar o câmbio médio. O dólar caiu desde então, especialmente nos últimos dias, para R$ 5,20. Portanto, a previsão para a alta dos preços pode ser até mais baixa que essa no horizonte relevante. Obviamente o câmbio é muito volátil, mas vale a pena pesar isso.
Consegue quantificar esse risco fiscal? O que pode ocorrer?
Já houve o impacto da aprovação de um Orçamento grande para o ano e da ampliação da isenção do Imposto de Renda, mas acreditamos que outros tipos de aumentos de gastos podem se somar a eles em um ano eleitoral, como um reajuste no Bolsa Família. Portanto, teremos de seguir com cautela e monitorar o impacto dessa situação fiscal na demanda.
Caso ela fique aquecida, há uma resistência maior para a inflação cair. A outra frente que pode impedir esse processo de queda da inflação é o câmbio. Se houver uma percepção de risco maior por parte do mercado pode ter impacto no câmbio e pressionar os preços. Mas o dólar vem perdendo força, e o Brasil vem surfando essa onda. Portanto, hoje esse é um risco menor, que auxilia na queda dos juros.
A decisão do Copom foi tomada com número reduzido de votantes. Isso teve impacto na decisão?
Diferente dos EUA, onde os membros do comitê não realizam entrevistas individuais, é muito difícil saber como cada um pensa por aqui. Mas acho difícil que os dois votantes fossem dissidentes.
Como analisam o comunicado da decisão?
O cenário ainda é de muita incerteza. É importante dosar as expectativas de corte para quando começar a cortar não ter uma potência para esse início de ciclo maior do que o BC gostaria.
Acho que as expectativas ainda são o ponto fraco do cenário. Tem expectativas desancoradas no longo prazo e essa ancoragem só vai ser obtida com o tempo.
Apenas uma eventual mudança de governo ou um anúncio de regras fiscais mais rígidas no caso de uma reeleição poderia reparar expectativas, mas aí a gente precisa aguardar o fim do cenário eleitoral.
A decisão do Federal Reserve teve alguma surpresa?
A decisão do BC americano ficou dentro da expectativa ao apontar possibilidade de mais um ou dois cortes neste ano. Vemos um cenário externo melhor desde o final do ano passado, e a decisão sobre juros do Fed não trouxe nenhuma grande novidade.
Há a pressão do governo americano para uma queda dos juros por lá, mas o Fed está sendo resistente e fiel aos fundamentos. Houve só duas dissidências de votos na decisão de manter as taxas. Portanto, mesmo quando o presidente do Fed, Jerome Powell, sair em maio, o colegiado todo não terá um pensamento tão diferente de hoje.