Os rendimentos dos títulos públicos dos Estados Unidos estão em alta como resposta a uma nova onda de tensões comerciais provocada pela Casa Branca. Ray Dalio, o bilionário fundador da Bridgewater Associates, afirma que o próximo grande risco global é uma “guerra de capital”, cenário em que o próprio fluxo financeiro é utilizado como ferramenta de pressão política.
O mercado de títulos reagiu bruscamente na última terça-feira. O rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA de 10 anos subiu para 4,29%, um avanço de 0,06 ponto percentual no dia. O movimento empurrou a referência para o seu nível mais alto desde setembro, época em que as taxas de curto prazo estavam 75 pontos-base acima do patamar atual.
Essa dinâmica é atípica. Na prática, indica que investidores globais estão vendendo dívida de longo prazo do governo americano e exigindo retornos mais elevados, mesmo com o Federal Reserve (Fed) agindo na direção oposta.
Tarifas e a reação do mercado
O movimento ganhou força no momento em que o presidente Donald Trump reviveu ameaças de tarifas. Trump afirmou no último sábado que as importações de oito países da OTAN enfrentariam taxas começando em 10% em 1º de fevereiro, podendo chegar a 25% até junho, caso não apoiassem a intenção de compra da Groenlândia pelos EUA.
Posteriormente, o presidente também ameaçou aplicar tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses após Emmanuel Macron recusar participação no recém-criado “Conselho da Paz” de Trump. Investidores, preocupados com a instabilidade gerada por essas medidas, responderam exigindo prêmios maiores para manter a dívida americana em suas carteiras.
Nesse cenário, Dalio emitiu um alerta durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. Com um patrimônio líquido estimado em US$ 15,4 bilhões (R$ 81,62 bilhões), Dalio comanda a Bridgewater Associates, um dos maiores fundos de hedge do mundo, com mais de US$ 90 bilhões (R$ 477 bilhões) em ativos sob gestão.
“Do outro lado dos déficits e das guerras comerciais, existem o capital e as guerras de capital”, afirmou Dalio em entrevista à CNBC. “Ao observar os conflitos, não se pode ignorar a possibilidade de as nações perderem a inclinação de comprar a dívida dos EUA.”
O conceito de “Guerra de Capital”
O bilionário analisa este conceito há anos, tendo detalhado o tema em seu livro de 2021, Princípios para a Ordem Mundial em Transformação. Em termos diretos, uma guerra de capital ocorre quando o dinheiro se torna um instrumento de combate.
Enquanto as guerras comerciais focam em mercadorias (taxação de produtos e bloqueio de exportações), as guerras de capital vão além: elas miram o fluxo financeiro que sustenta o comércio. Quando um país possui déficit comercial, ele precisa de financiamento externo. Esse dinheiro geralmente vem de investidores e governos estrangeiros que compram títulos, ações ou a moeda local.
Atualmente, governos estrangeiros, incluindo China e Japão, detêm cerca de 25% da dívida total de US$ 38 trilhões (R$ 201,4 trilhões) dos Estados Unidos. Em uma guerra de capital, esses laços financeiros são usados para forçar decisões. Países podem congelar ativos, bloquear o acesso a mercados de capitais ou restringir sistemas de pagamento.
Lições da história e o papel do dólar
A pesquisa de Dalio aponta que esse padrão se repete há séculos. Ele cita exemplos que remontam ao século 17, com a República Holandesa utilizando bloqueios para falir competidores espanhóis e portugueses. O investidor também recorda o período anterior à Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha restringiu o acesso da Rússia aos mercados europeus, enfraquecendo a economia russa.
Em tempos modernos, as sanções contra Rússia, Irã e Coreia do Norte (que incluem o congelamento de ativos e a exclusão de sistemas globais de pagamento) são exemplos claros de como limitar a capacidade de financiamento de um país.
Os Estados Unidos possuem uma vantagem única nesse embate, já que o dólar é a principal moeda de reserva do mundo. Quase 60% das reservas dos bancos centrais globais são mantidas na moeda americana, o que confere a Washington uma influência enorme sobre o sistema financeiro. No entanto, isso também gera vulnerabilidade: se o conflito escalar, investidores podem decidir abandonar os títulos americanos.
A fuga para ativos reais
“Em momentos de conflitos geopolíticos internacionais, nem mesmo os aliados desejam deter a dívida uns dos outros”, explicou Dalio. “Eles preferem recorrer a uma moeda forte. Isso é lógico e se repetiu ao longo da história.”
Ao mencionar “moeda forte”, Dalio refere-se a ativos fora do sistema financeiro tradicional. O ouro é o exemplo principal, e foi para onde os investidores correram na última terça-feira. O metal valorizou 3,25% no dia, atingindo o patamar de US$ 4.053 (R$ 21.480,90) por onça.
Saltos dessa magnitude são raros: o ouro fechou em alta de 3% ou mais em um único dia apenas 47 vezes desde 2004. Enquanto isso, o bitcoin, que também se posiciona como um ativo fora do controle governamental, registrou queda de 4% nas últimas 24 horas, cotado a US$ 89.341 (R$ 473.507,30), acumulando uma retração de 12% nos últimos 12 meses.