Neste ano o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central terá sua credibilidade amplamente testada. Todos os olhos do mercado financeiro acompanharão de perto o aguardado ciclo de corte da taxa básica de juros, a Selic, a partir de março, mas também ficará de olho sobre como o BC reagirá às eleições presidenciais.
Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management (UBS GWM) ainda cita outro motivo pelo qual o BC estará sob intenso escrutínio: 2026 será o primeiro ano no qual todas os diretores importantes da autoridade monetária serão indicados pelo atual governo, o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A primeira decisão sobre a Selic no ano foi tomada sem dois diretores importantes: o de política econômica e o de organização do sistema financeiro. Diogo Guillen e Renato Gomes, respectivamente, terminaram seus mandatos no final do ano passado.
“Essas nomeações são importantes, especialmente a de política econômica. É essa diretoria que, em conjunto com a de política monetária, política internacional e o presidente do BC, costuma nortear o restante do comitê na decisão sobre juros. Se ambos terão um perfil mais técnico, ou será alguém de mercado, já será uma sinalização. Mas é a atuação dos diretores que definirá a credibilidade de fato”.
Srour acredita que o BC ganhou bastante credibilidade desde a reunião do ano passado, no qual houve uma divisão na decisão sobre a taxa. “Houve uma melhora na comunicação e o BC decidiu subir os juros que estavam precificados em três reuniões em uma só, na de março. Isso pode ser medido pelo recuo das expectativas de inflação. Naturalmente elas reagem ao câmbio e a transações correntes, mas não cairiam sem confiança, principalmente as expectativas mais longas”.
A visão do Banco Central é de que a economia está resiliente e a inflação desacelerou bem, o que provocou uma queda significativa na expectativa sobre a alta dos preços. Isso deixa o BC confortável. Mas Srour achou o argumento para indicação de um corte em março pouco usual. “O BC argumentou que se o cenário se manter igual irá diminuir a taxa. Mas por que então já não cortaram?”.
É uma dúvida que a ata da última decisão sobre os juros, que será divulgada hoje, poderá solucionar. “O comunicado surpreendeu o mercado, que revisou um pouco a Selic para baixo no final do ano, de 12,5% para 12%. Precisa explicar melhor, traz dúvidas. Mas não é algo grave no cenário atual”.
Em linha com a previsão de grande parte do mercado, Srour espera que o BC corte a Selic em 2,5 a 3 pontos percentuais neste ano. Ou seja, os juros devem encerrar 2026 entre 12% a 12,5% a.a. “Vai depender do câmbio, que é a variável mais importante para a desinflação. Se a cotação ficar próxima de R$ 5,18, vai para 12%. Se voltar a R$ 5,40, termina em 12,5%”.
A economista não acredita em um ciclo de cortes forte como os anteriores porque ainda existe uma incerteza grande sobre 2027, que faz parte do horizonte relevante que o BC considera em suas visões. “Não sabemos se haverá um ajuste fiscal, o que limita a ação do Banco Central”. A visão vai em linha com a entrevista recente feita pela Forbes Brasil com o economista Fernando Machado Gonçalves, do Itaú Unibanco.
Veja abaixo a entrevista concedida pela economista do UBS GWM à Forbes Brasil. As respostas foram editadas para maior fluidez, coesão e síntese.
Qual a sua visão macroeconômica para o ano? A ata de hoje deve mudar a visão sobre o ciclo de cortes que está por vir?
Solange Srour: A economia está resiliente, e deve continuar assim. Deve crescer um pouquinho menos do que no ano passado, ao redor de 2%, por conta de um efeito estatístico. O desemprego está no menor menor nível da história, mas a atividade econômica e a inflação tiveram uma melhora substancial que não era esperada no início do ano passado. O mercado esperava que o IPCA encerrasse o ano perto de 6% e fechou abaixo de 4%. Esse movimento foi puxado predominantemente pelo câmbio e o preço dos alimentos.
Neste cenário, o Copom se sentiu confortável na última reunião em dizer que caso o cenário se mantenha sem grandes surpresas começará o ciclo de cortes em março. Eu achei um pouco estranha essa comunicação. Essa sinalização não é dada de forma corriqueira, e geralmente enseja que haja mudanças no horizonte, por exemplo, a expectativa sobre a inflação continue a cair. O mercado se surpreendeu com essa comunicação, e acredita que o BC já poderia ter cortado a taxa. Por isso, revisou o ciclo de cortes para 2,5 ponto percentual ou 3 pontos percentuais. Vamos ver o que virá na ata da reunião. Espero que haja explicação.
O ciclo de corte pode ser maior se o dólar testar valores de R$ 5,18 para baixo, e menor se voltar a ser cotado em R$ 5,40. O câmbio é a variável mais importante para a desinflação e está fora do controle do país. Acho que a apreciação do real está totalmente relacionada à tendência de dólar mais fraco, e não por que o a situação fiscal do país está melhorando.
O ciclo de cortes não deve ser tão grande quanto o ciclos anteriores que a Selic iniciou tão alta como agora porque existe incerteza grande sobre 2027, no pós eleição. A política fiscal e horizonte relevante impactam as decisões do Copom e limitam seu horizonte. O mercado não vai se mexer agora e nem vai se mexer até julho, quando as candidaturas serão anunciadas. Mesmo se soubéssemos os candidatos, alguns estão em empate técnico.
Por que você não gostou da comunicação recente sobre juros?
Solange Srour: O Banco Central indicou a possibilidade de cortes, mas condicionou isso a uma série de fatores. Isso foi visto por parte do mercado como uma comunicação equilibrada, embora tenha gerado alguma confusão. Quando o BC sinaliza que uma ação é mais provável do que outra, cria expectativas. Se essas expectativas não se confirmam, o mercado questiona.
Isso não é um problema se o cenário permanecer como está. Mas afirmar que o cenário não vai mudar, dado o contexto internacional e doméstico, é uma aposta sem muita segurança. Estamos no início do ano e já vimos muita volatilidade. O próprio Banco Central já afirmou, no passado, que não gosta de ficar preso a um forward guidance muito rígido, porque isso pode engessar a política monetária.
O desemprego é o menor da história. O que está acontecendo?
Solange Srour: Sim. O desemprego está em mínimas, e eu vejo duas explicações principais que considero bastante relevantes. A primeira é o aumento significativo dos benefícios sociais. Dá para observar nos microdados que as regiões onde mais cresceram os benefícios — tanto em valor quanto em quantidade — foram justamente aquelas em que mais pessoas saíram do mercado de trabalho.
Ou seja, muitas pessoas deixaram de procurar emprego. Elas podem até estar na informalidade no futuro, mas, como não estão buscando trabalho, saem da força de trabalho e o desemprego cai. Essa explicação não resolve tudo, mas explica uma parte importante.
A outra parte é que essa não é necessariamente uma situação positiva; é algo mais artificial. Isso também tem elevado os custos para as empresas, que tentam contratar e não conseguem atrair trabalhadores. Hoje, a “barra” para trabalhar ficou mais alta, já que muitas vezes o trabalhador perde parte do benefício social — ou precisa ganhar bem mais para compensar. Mesmo com mudanças nas regras, que evitaram a perda total imediata do benefício, ainda há um desincentivo.
Se você retira o benefício social sem oferecer qualificação ou treinamento, esse trabalhador não se recoloca facilmente depois. Quanto mais tempo fora do mercado, mais difícil voltar, ainda mais com as mudanças rápidas trazidas pela tecnologia e pela IA. Quando a pessoa decide procurar emprego novamente, muitas vezes já não encontra vaga.
Outro fator é a mudança na forma de trabalho. Com aplicativos e novas tecnologias, quem perde o emprego formal pode optar por trabalhar por conta própria, como motorista de aplicativo, e deixa de procurar emprego tradicional. Assim, a força de trabalho diminui e o mercado fica mais apertado.
Tudo isso exige uma leitura cuidadosa. Salários pressionados e desemprego muito baixo deveriam ser uma preocupação para o Banco Central. No comunicado, eles destacaram uma economia forte e um mercado de trabalho ainda resiliente, talvez até por fatores estruturais ou cíclicos.
Vamos ver se nas próximas comunicações eles detalham melhor a expectativa de desaceleração. Muitos economistas já revisaram as projeções de desemprego para baixo — antes esperavam alta mais significativa, e agora veem uma elevação menor.
O problema continua sendo a inflação, especialmente a de serviços, que segue bastante resiliente. Parte disso está ligada ao aumento dos benefícios sociais, que impulsionam o consumo. Desde a ampliação do Bolsa Família, o número de beneficiários e os valores pagos ficaram em um patamar bem mais elevado do que em 2021 e 2022, o que gera renda e sustenta a demanda.
Há tentativas de ajustes, como medidas antifraude e mudanças marginais nas regras. Hoje, por exemplo, o beneficiário não perde automaticamente o Bolsa Família ao conseguir emprego — existe um período de transição. Isso reduz o medo de aceitar uma vaga e depois ter dificuldade para voltar ao programa.
Ainda assim, não vejo políticas que reduzam rapidamente o ritmo de crescimento desses gastos. Uma reforma mais profunda seria necessária, mas provavelmente seria impopular. Em algum momento, porém, esse debate tende a acontecer, não só pela questão fiscal, mas pela própria limitação de crescer sem expansão da força de trabalho.
O que espera que aconteça com a inflação de serviços, que ainda está resiliente?
Solange Srour: Acreditamos que a inflação de 2026 pode ficar perto do que os economistas ouvidos pelo Boletim Focus esperam, cerca de 4%. Esperamos que produtos industriais e alimentos fiquem mais baratos, e os serviços continuem pressionados ou desacelerem um pouco, pois estão muito relacionados à atividade econômica. Muitos serviços vão continuar ajustando preços porque a demanda existe.
Mas se por acaso o dólar fica forte no mundo os preços dos alimentos podem sofrer um choque. Por isso que precisa olhar com cuidado a inflação de serviços.
É o cenário externo que vai ditar 2026? Como foi vista a nova indicação de presidente para o BC americano? Provocou alguma mudança de visão?
Solange Srour: Não diria que é uma mudança, mas sim uma a volatilidade. O mercado reage muito a acontecimentos que são importantes, dado que a gente tá em um momento de discussão sobre se a autoridade monetária americana vai continuar cortando os juros ou não. E pensam se Kevin Walsh vai conseguir dominar o comitê. Mas ele é um nome de mercado, e talvez não queira convencer o colegiado a cortar os juros.
No cenário básico não vai ter uma mudança no internacional. Então a tendência é que o dólar continue a cair, ainda que não tão fortemente como aconteceu no começo do ano passado.
Como analisa a atuação do Banco Central?
Solange Srour: Ele realmente conseguiu mostrar uma independência, algo que foi muito debatido antes da nomeação do Gabriel Galípolo. Hoje o mercado olha com mais credibilidade. É algo que pode ser medido pela queda das expectativas de inflação.
Houve uma melhora na comunicação e o BC decidiu subir os juros que estavam precificados em três reuniões em uma só, na de março. Isso pode ser medido pelo recuo das expectativas de inflação. Naturalmente elas reagem ao câmbio e a transações correntes, mas não cairiam sem confiança, principalmente as expectativas mais longas. Mas o BC é sempre testado em um ciclo de queda dos juros e ainda mais no período de eleições. Ele ganhou credibilidade, mas é algo que se conquista, não é perene.
Por exemplo, esse comunicado, se não for muito bem explicado, em algum momento pode trazer dúvidas. Mas não é algo grave, que possa ter impacto na credibilidade do BC.
A nomeação dos dois diretores que ainda faltam no Banco Central é vista como algo relevante pelo mercado?
Solange Srour: Sim, é bastante importante — especialmente a vaga da Diretoria de Política Econômica. Essa diretoria é central porque ajuda a formular a visão econômica do Banco Central, contribui para a modelagem dos cenários e tem forte influência na comunicação da instituição.
Enquanto não há substituição, existe uma atenção maior do mercado. Essas nomeações podem reforçar ou não a credibilidade do Banco Central, porque hoje recaem sobre elas expectativas maiores. A autonomia do BC, prevista em lei, continua existindo, mas a percepção de autonomia de fato passa muito pelas escolhas feitas pelo presidente da República.
Nos próximos anos, por conta do modelo de mandatos intercalados, haverá um momento em que os cargos mais relevantes — inclusive a presidência e as diretorias mais importantes — terão sido escolhidos integralmente pelo mesmo governo. Isso não significa perda automática de credibilidade, mas é, sem dúvida, um teste maior. Desde a aprovação da autonomia, este é o primeiro ciclo em que isso acontece de forma tão clara.
A lei garante a autonomia formal, mas a autonomia de fato depende das escolhas do presidente e da atuação dos indicados. Um bom exemplo é o Gabriel Galípolo: foi indicado pelo presidente Lula, trabalhou no Ministério da Fazenda e, ainda assim, conquistou credibilidade junto ao mercado. Hoje ele é visto como um nome técnico e independente. Isso mostra que a atuação pode confirmar — ou não — a percepção inicial do mercado.
Algumas diretorias são vistas como decisórias: Política Monetária, Política Econômica e a Presidência. Essas áreas acabam norteando o restante do colegiado. Historicamente, essas posições são ocupadas por nomes vindos do mercado ou da academia, com forte base técnica. Por isso, as escolhas agora serão particularmente observadas. Este é um ano-chave para a credibilidade do Banco Central. As nomeações importam, mas a atuação vai ser decisiva.
Se os indicados se mostrarem técnicos e independentes, será uma prova concreta de que a lei da autonomia funciona. O teste está em curso.