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Moeda Chinesa ou Ouro: há Espaço para um “Novo Dólar”?

Que o governo chinês quer internacionalizar sua moeda não é novidade. Mas quais são as chances de dar certo?

7 min

O dólar vem perdendo valor global de forma mais proeminente desde a eleição do presidente americano Donald Trump, já que parte de sua desvalorização está ligada à aceleração da política de reindustrialização pelo presidente americano, que precisa de uma moeda mais fraca para funcionar.

Colaboram também para a perda de valor da moeda americana os ruídos institucionais, como o questionamento da Casa Branca sobre a independência de órgãos como o Banco Central, preferência por leis nas quais consegue driblar votações no Congresso e criação de um estado policialesco com o ICE (sigla em inglês para Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos EUA). Sem mencionar afrontas do atual governo às alianças históricas dos EUA com outros países.

Como resultado, há uma diversificação de investimentos para fora do dólar, especialmente para países emergentes. É possível ver isso de forma clara desde a eleição de Trump. Levantamento da consultoria Quantum a pedido da Forbes de 1º de novembro de 2024 (Trump foi eleito no dia 6 de novembro daquele ano) a 18 de fevereiro de 2026 mostra que, em relação ao dólar:

  • O peso mexicano valorizou 16,38%
  • O real subiu 10,37%,
  • O rand da África do Sul avançou 9,83% e
  • O yuan chinês valorizou 3%,

Mas por que a moeda chinesa, hoje a segunda maior economia do mundo, que teoricamente poderia se beneficiar mais da queda do dólar, avançou tão pouco? Por que o governo chinês também se preocupa, como o governo americano, de que as exportações da China percam competitividade caso a moeda valorize demais, que poderia ainda prejudicar as condições financeiras e confiança interna. Como resultado, ele usa mecanismos para frear a valorização da moeda.

Mas isso não significa que a China não deseje mais espaço para a sua moeda no mundo.

Recentemente, o presidente chinês Xi Jinping apelou publicamente para que o yuan se torne uma moeda de reserva global, o que sinaliza que a internacionalização da moeda não é mais apenas uma ambição técnica, mas uma prioridade estratégica endossada no mais alto nível, diz Victoria Mio, chefe de ações da grande China e gestora de portfólio da Janus Henderson Investors.

“A China está seguindo um caminho constante: força cambial controlada, mercados de capitais domésticos mais profundos e uso mais amplo do yuan no comércio e nas reservas com o objetivo de construir credibilidade ao longo do tempo.”

Nesse cenário, a moeda da China ameaça a hegemonia do dólar? Os especialistas recomendam muita calma nessa hora.

Novo dólar?

O yuan está evoluindo de uma moeda comercial administrada para um ativo financeiro com relevância estratégica. O status de moeda de reserva é conquistado por meio da estabilidade e da confiança, e a China está sinalizando que está preparada para jogar o jogo a longo prazo, explica Mio, da Janus Henderson.

E como o país deve fazer isso? O Banco Popular da China usa um mecanismo de fixação diária da taxa de câmbio, sinalizando consistentemente uma preferência por movimentos de oscilação da moeda e desencorajando apostas para apenas um lado durante períodos de desdolarização global como o atual.

Além disso, os controles de capital e instrumentos regulatórios usados para proteger o sistema financeiro permanecem firmemente em vigor, garantindo que os fluxos de dinheiro não sobrecarreguem a moeda, mesmo com o aumento da conversão de dólares por exportadores e o renovado interesse de investidores estrangeiros em ativos em yuan.

Mas o domínio dodólarpermanece esmagador: ele ainda representa 56% das reservas cambiais globais, cerca de 89% das transações cambiais e mais de 50% dos pagamentos internacionais em todo o mundo. Cerca de 99% das stablecoins ainda estão atreladas à moeda americana, reforçando o papel dodólarem liquidações, garantias e finanças digitais — áreas em que o yuan ainda está ganhando escala e confiança.

Em comparação, a presença global do yuan continua modesta, limitada por controles de capital parciais, liquidez restrita no exterior e atritos legais e institucionais, apesar do progresso constante na liquidação de transações comerciais e na inclusão em reservas.

Entre os atritos legais, estão dificuldades jurídicas relacionadas a contratos, cita Matheus Spiess, analista da casa de análises Empiricus. “A China tem uma cultura empresarial diferente das repúblicas ocidentais. Esse distanciamento cria dificuldades para ver um novo ordenamento baseado no yuan no curto prazo”.

Longo caminho

Por isso, uma transição completa dodólarpara o yuan é improvável, na visão de Mio. “O resultado mais realista a longo prazo é um sistema monetário multipolar, onde o yuan se torna significativamente mais importante, mas ao lado — e não em substituição a — odólaramericano”.

Spiess, da Empiricus, reforça a visão. “O investimento continua sendo feito no dólar, apenas não na mesma proporção do que antes. Se houver uma mudança na ordem cambial no mundo, não será agora: vai demorar muito e talvez nem vejamos isso. Talvez a gente esteja se aproximando mais de blocos de influência do que propriamente um novo ordenamento geral”.

Há ainda o fato de que a perda de valor do dólar também é relativa considerando o histórico recente. De 2008 para cá houve uma grande atração de capital para os Estados Unidos, o que fortaleceu o dólar. Mais recentemente, pós pandemia, mais recursos foram atraídos por empresas de tecnologia americana em dólar, o que sobrevalorizou o dólar.

Ouro: substituto com maior força?

Nos últimos dois anos o ouro vem se valorizando constantemente e batendo recordes históricos de preço. Parte desse movimento pode ser atribuído à desvalorização das moedas fiduciárias no geral, não só do dólar, como euro, iene japonês, etc., motivada pela falta de credibilidade fiscal dos governos. Neste cenário, os investidores preferem a segurança de ativos reais, como o ouro, do que os títulos desses governos.

Em alguns aspectos, o ouro teria mais força para substituir o dólar do que a moeda chinesa, pois já funciona como um ativo de reserva neutro, sem país emissor, sem risco político e sem controles de capital, enquanto o yuan permanece uma moeda soberana moldada por objetivos de política interna.

Contudo, o metal não pode substituir o papel dodólarou do yuan na emissão de faturas comerciais, na criação de crédito ou na intermediação financeira, explica Mio, da Janus Henderson. Portanto, é melhor vê-lo como um complemento e uma proteção, em vez de um verdadeiro substituto da moeda.

Movimento do dólar vai continuar?

O cenário de baixa para o dólar americano perdeu força, já que o crescimento dos EUA tem se mostrado resiliente e os cortes de juros do BC americano, o Fed, devem ocorrer mais tarde do que economistas previam, o que reduz a pressão negativa sobre o dólar em relação ao que havia sido antecipado, dizem os analistas do banco americano Morgan Stanley, em relatório.

Além disso, o ritmo de crescimento no exterior segue robusto, sustentando os rendimentos fora dos EUA e limitando a divergência positiva de juros em favor do dólar. “O argumento para fraqueza do dólar está menos pronunciado, mas seguimos modestamente esperando uma queda do dólar”, concluem.

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