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Sem Plano de IA, sem Crédito: Credores Pressionam Pequenas Empresas a Adotar Inteligência Artificial nos EUA

A inteligência artificial tem sido vista como uma tecnologia capaz de transformar o mercado de trabalho e o ecossistema do Vale do Silício

8 min

Ray Drew analisava no mês passado um pedido de empréstimo feito por uma empresa online de planejamento de viagens quando começou a se preocupar com o fato de que o serviço oferecido parecia semelhante a algo que um chatbot de inteligência artificial (IA) poderia realizar em minutos ou até segundos. Ele decidiu negar o crédito.

Fundador daSBA Collective, uma rede de credores e consultores focada em financiamentos garantidos pelaSmall Business Administration (SBA), Drew discute os impactos da IA sobre pequenas empresas desde 2023.

Agora, porém, essas conversas tornaram-se mais frequentes e muito mais diretas. Ele passou a abordar o tema com clientes e potenciais tomadores de crédito daTruliant Federal Credit, instituição financeira comUS$ 5 bilhões em ativos (R$ 26,2 bilhões)sediada em Winston-Salem, na Carolina do Norte, onde atua como diretor-executivo da área de crédito SBA.

“Precisamos ao menos fazer a pergunta: como a IA está impactando o seu negócio? Não existe praticamente nenhum setor em que essa questão não precise ser feita”, afirma Drew.

Investidores, economistas e cidadãos comuns estão obcecados com os prós e contras, além de vencedores e perdedores, da expansão da inteligência artificial. Grande parte da atenção financeira tem se concentrado no impacto sobre os trabalhadores — à medida que grandes empresas atribuem demissões à IA — e sobre o Vale do Silício.

OETF iShares Expanded Tech-Software Sector, comUS$ 9 bilhões (R$ 47,16 bilhões)em ativos, caiu 20% neste ano, enquanto os mercados tentam entender as mudanças já em curso e as que ainda estão por vir.

O que recebeu muito menos atenção é como essa mesma incerteza está se manifestando na chamadaMain Street, entre contadores, consultores, escritórios de advocacia e outros tipos de empresas — e também entre os pequenos bancos que diariamente tomam decisões sobre financiá-los.

Mudando o roteiro

As apostas são altas. Empresas com menos de500 funcionáriosrespondem por 44% do PIB dos Estados Unidose empregam46% da força de trabalho do setor privado, ou mais de62 milhões de americanos. Uma parcela significativa dessas pequenas companhias atua em áreas nas quais aIA generativaparece especialmente útil.

Um estudo daMicrosoft publicado em 2025, que analisou milhares de interações com inteligência artificial, concluiu que a tecnologia é aplicável a tarefas que envolvemescrita, pesquisa e análise. De acordo com aSmall Business Credit Surveydo Federal Reserve, cerca deum terço das pequenas empresas com funcionáriosestá concentrado emserviços profissionais e imobiliários— considerados uma única categoria — ou emtrabalhos de suporte empresarial.

É verdade que grande parte do impacto da IA pode levar anos para se materializar. Mas isso oferece pouco conforto para credores de pequenas empresas, que normalmente concedem empréstimos com prazo dedez anos.

Embora aSmall Business Administrationgaranta aproximadamente75% de um empréstimo do programa 7(a), os bancos ainda absorvem perdas caso o tomador não pague e precisam demonstrar à agência que seguiram padrões adequados de análise de crédito para poder acionar a garantia.

Na última década, 8% dos empréstimos da SBA entraram em inadimplência(de forma acumulada), segundo aLumos Data, empresa que analisa o desempenho desse tipo de financiamento.

Conceder crédito a pequenas empresas é tantouma arte quanto uma ciência. A parte científica está nas planilhas: banqueiros analisam fluxo de caixa, avaliam garantias e verificam o histórico de crédito do solicitante.

A parte artística é mais difícil, julgar se o próprio negócio faz sentido e se possui potencial de sobrevivência no longo prazo, considerando a elevada taxa de falência de novas empresas. Segundo oBureau of Labor Statistics, pouco menos de35% das empresas criadas em 2013 ainda estavam ativas dez anos depois.

Normalmente, os banqueiros podem recorrer à própria experiência — por exemplo, avaliando se negócios semelhantes sobreviveram à última recessão.

Mas, de tempos em tempos, surge algo que não se parece com nada que já tenham visto, tornando previsões mais difíceis do que o normal. Uma pandemia global. Tarifas comerciais que aparecem, desaparecem e reaparecem.

IA entra no radar do crédito

Ainteligência artificialé hoje esse grandedesconhecido conhecido. Até o momento, credores não estão abandonando setores nem prevendo uma onda de falências empresariais. No entanto, a forma como pensam sobre risco está começando a mudar.

Se o produto de uma empresa envolveconhecimento, aconselhamento ou análise— ao contrário de atividades mais operacionais, como instalação e manutenção de sistemas de aquecimento ou ar-condicionado — os credores precisam considerar o que acontece quando softwares passam a realizar parte desse trabalho.

Alguns dos tomadores de crédito que os bancos acreditavam compreender melhor agora se tornaram mais difíceis de avaliar.

O resultado é que banqueiros estãocada vez mais exigindo saber se — e como — o solicitante de empréstimo pretende lidar com o impacto da inteligência artificial.

“Não tente varrer o assunto para debaixo do tapete”, aconselhaJeremy Gilpin, presidente daCommunity Bankshares, instituição comUS$ 280 milhões (R$ 1,47 bilhão) em ativos sediada em LaGrange, na Geórgia.

Empresas que tratam a IA como um tema proibido levantam preocupações, afirma ele. Os credores presumem que funcionários já estejam experimentando essas ferramentas. Se uma companhia afirma não usar inteligência artificial de forma alguma, isso pode indicar algo ainda pior.

Ou os funcionários estão testando essas tecnologias sem que a gestão perceba — sinal de falta de supervisão — ou a empresa está ficando para trás em relação a uma tecnologia que está remodelando seu setor.

Em vez disso, Gilpin afirma que os tomadores de crédito devem demonstrarcomo a tecnologia se encaixa em seu modelo de negócios. Se as projeções incluem ganhos de eficiência com IA, os credores querem entender onde esses ganhos aparecem no fluxo de trabalho.

Novo jeito

Políticas relacionadas àsegurança de dados, controle de qualidade e uso de IA pelos funcionáriostambém surgem com mais frequência nas análises. Em alguns casos, os credores pedem para revisar essas políticas juntamente com o plano de negócios.

Quando bem administrada, a exposição à inteligência artificialnão prejudica um pedido de crédito. Em alguns casos, pode até fortalecê-lo. Segundo Gilpin, credores querem ver empresários que reconheçam a disrupção e expliquem como suas empresas pretendem se adaptar.

O setor jurídico ilustra bem a tensão entre a IA como ferramenta de produtividade e a IA como tecnologia que pode substituir parte do trabalho tradicionalmente cobrado por advogados.

Alguns profissionais já utilizam ferramentas de inteligência artificial para resumir jurisprudência ou preparar versões iniciais de peças jurídicas. Isso pode tornar os escritórios mais produtivos, mas também pode reduzir o número de horas tradicionalmente faturadas aos clientes. Credores que analisam essas empresas estão tentando entendercomo a economia do setor evoluirá à medida que essas ferramentas se disseminam.

Ignorar a IA dificilmente enganará alguém. Afinal, os pequenos bancos também estão experimentando essas ferramentas e sabem com que rapidez elas estão evoluindo.

Chris Hurn, fundador e CEO daLendesca, uma fintech que desenvolve softwares baseados em IA para ajudar bancos a originar e processar empréstimos da SBA, afirma que muitos analistas de crédito já estão testandomodelos de linguagem avançadospara redigir narrativas de empréstimos e memorandos de crédito.

Segundo Hurn, um relatório de crédito que antes levavauma semanapara ser produzido às vezes pode agora ser elaborado em“duas horas ou menos”.

À medida que a inteligência artificial assume mais tarefas mecânicas da análise de crédito, os credores podem ter mais tempo para a outra metade do trabalho: a arte de avaliar se um negócio continuará funcionando no futuro. “Quanto mais burocrática é a tarefa, maior é a probabilidade de ser automatizada”, diz Hurn.

Até agora, os credores afirmam que aindanão observaram empréstimos fracassarem porque a inteligência artificial destruiu o negócio de um cliente. Mas ainda é cedo. A maior parte do impacto, por enquanto, aparecena seleção e análise das operações, e não em inadimplência.

Para os empresários, a principal lição é quedemonstrações financeiras organizadas, fluxo de caixa e garantias continuam sendo fundamentais. Mas os credores querem cada vez mais entendercomo uma empresa pretende operar em um mundo em que softwares estão se tornando cada vez melhores em realizar tarefas antes feitas por pessoas. No fim das contas,essa continua sendo a verdadeira arte de conceder crédito.

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

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