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“A Inteligência Artificial Está Desafiando o Setor de M&A”, Afirma Brian Levy, Head Global de Deals de Indústrias da PwC US

O avanço dos megadeals, aliado à corrida bilionária por infraestrutura de IA, vem concentrando capital no mercado de fusões e aquisições

8 min

O mercado global de fusões e aquisições (M&A) está entrando em uma nova fase. O avanço dos megadeals (transações acima de US$ 5 bilhões – R$ 25,07 bilhões), aliado à corrida bilionária por infraestrutura de inteligência artificial (IA), vem concentrando capital no setor.

Esse movimento cria um mercado de M&A em “formato de K”. Enquanto grandes empresas, especialmente de tecnologia e IA, aceleram aquisições bilionárias, parte relevante do mercado segue pressionada por juros altos, incertezas e dificuldade de fechar negócios. Na prática, um grupo sobe rapidamente enquanto outro continua andando de lado ou perdendo força.

Isso é o que aponta o estudo “Global M&A Industry Trends”, da PwC, que traça um panorama do mercado global de fusões e aquisições para 2026. Segundo o relatório, o valor global das transações cresceu 36% entre 2024 e 2025, enquanto o volume de operações avançou apenas 1%.

O estudo identifica três vetores principais por trás dessa transformação. O primeiro é a IA, que está acelerando mudanças em diferentes nichos e está antecipando decisões sobre dados e tecnologia.

O segundo vetor é a polarização do mercado global de M&A, com negócios concentrados em poucos países e setores — especialmente nos Estados Unidos e na indústria tech. O terceiro é o cenário macroeconômico, marcado por desaceleração do crescimento global, juros em queda e abundância de capital.

A dinâmica fica evidente no retorno das grandes operações. Em 2025, foram anunciadas 111 transações acima de US$ 5 bilhões (R$ 25,07 bilhões), alta de 76% em relação às 63 registradas no ano anterior. Embora ainda abaixo do pico de 2021, quando houve 147 megadeals, o movimento foi suficiente para elevar o valor total do mercado, mesmo sem uma retomada ampla no número de operações.

O setor de tecnologia liderou a atividade de megadeals em 2025, com 26 operações anunciadas — o maior número entre todos os segmentos. O setor bancário apareceu na sequência, com 13 megadeals, enquanto a manufatura ocupou a terceira posição, com 11.

Entre os negócios citados no levantamento estão a proposta da Netflix de adquirir a Warner Bros. Discovery por US$ 82,7 bilhões (R$ 414,73 bilhões) e a oferta da Kimberly-Clark pela Kenvue, avaliada em US$ 48,7 bilhões (R$ 244,23 bilhões).

O private equity também ampliou a participação nas operações, incluindo a venda da Electronic Arts em uma transação de US$ 55 bilhões (R$ 275,82 bilhões) e a proposta da AI Infrastructure Partnership para comprar a Aligned Data Centers por US$ 40 bilhões (R$ 200,60 bilhões).

“A inteligência artificial está desafiando os fundamentos do setor de fusões e aquisições. À medida que os prazos das negociações aceleram e a diligência se torna mais profunda, a transparência aumenta e o processo de M&A do futuro pode parecer quase irreconhecível para os profissionais de hoje. Os executivos precisam prestar atenção: o momento de iniciar essa transformação é agora”, afirma o head global de deals de indústrias da PwC US, Brian Levy.

Nova era do M&A global

De acordo com a PwC, as operações menores seguem pressionadas. Ao retirar os megadeals da conta, grande parte do crescimento desaparece, já que em torno de 600 transações acima de US$ 1 bilhão (R$ 5,01 bilhões) sustentaram a alta do mercado, enquanto o valor das aproximadamente 47 mil demais operações ficou praticamente estável.

O relatório aponta que a inteligência artificial está no centro dessa mudança. Estimativas mencionadas no estudo indicam que entre US$ 5 trilhões (R$ 25,07 trilhões) e US$ 8 trilhões (R$ 40,12 trilhões) poderão ser investidos nos próximos cinco anos em IA e infraestrutura associada, como data centers, chips, redes e energia. Em termos de comparação, todo o mercado global de M&A movimentou aproximadamente US$ 3,5 trilhões (R$ 17,55 trilhões) no ano passado.

No curto prazo, esse volume de investimentos tende a competir com o mercado de aquisições, desviando capital para projetos de infraestrutura tecnológica — big techs, governos, fundos soberanos e gestoras de private equity passaram a disputar globalmente ativos ligados à inteligência artificial.

Essa corrida envolve empresas como Amazon, Google, Meta, Microsoft, OpenAI e Oracle, além de projetos públicos e iniciativas no Oriente Médio, como o Project Transcendence, da Arábia Saudita.

Revolução da IA

A inteligência artificial também vem alterando a lógica das transações. A análise das 100 maiores operações corporativas de 2025 mostra que um terço delas citava IA como parte da justificativa estratégica do negócio. Entre os setores mais impactados estão tecnologia, manufatura e energia.

As empresas estão usando fusões e aquisições para comprar capacidades consideradas essenciais para escalar IA, principalmente em áreas como cibersegurança, analytics, software e infraestrutura digital.

Entre os exemplos citados no estudo estão a aquisição da Wiz pelo Google por US$ 30 bilhões (R$ 150,45 bilhões) e a proposta da Palo Alto Networkspara comprar a CyberArk por US$ 25 bilhões (R$ 125,37 bilhões). A pesquisa ainda menciona a proposta da IBM de adquirir a Confluent por US$ 11 bilhões (R$ 55,16 bilhões) e a compra da Clario pela Thermo Fisher Scientific por US$ 8,9 bilhões (R$ 44,63 bilhões).

Algumas ferramentas de inteligência artificial também já vêm sendo usadas para acelerar triagem de ativos, aprofundar due diligence e simular cenários de investimento.

Segundo o relatório, sócios de grandes gestoras de private equity afirmam que, atualmente, entre 30% e 40% do tempo dos comitês de investimento é dedicado a avaliar se empresas do portfólio serão capazes de utilizar IA para ganhar produtividade — ou se correm risco de perder competitividade por não conseguirem fazê-lo.

Em outras palavras, o grau de prontidão de uma companhia para inteligência artificial passa a influenciar seu valuation e sua estratégia de investimento.

Bolha ou transformação estrutural?

Apesar do otimismo, o entusiasmo em torno da IA levanta dúvidas sobre a existência de uma bolha — frequentemente comparada à explosão das empresas “ponto com” no fim dos anos 1990.

Porém, desta vez, para a PwC, existem diferenças importantes. Isso porque o atual ciclo de investimentos em IA é liderado por algumas das empresas mais lucrativas e capitalizadas do mundo, que possuem fluxos de caixa robustos e incentivos comerciais para investir em infraestrutura de inteligência artificial.

Ou seja, mesmo que a volatilidade e a alocação ineficiente de capital sejam inevitáveis, a escala desses investimentos sugere que a IA representa uma transformação estrutural e não apenas um ciclo passageiro.

“Como ocorre em todas as grandes transformações tecnológicas, a adoção da IA dificilmente será linear. Ajustes de valuation devem ocorrer ao longo do caminho, criando oportunidades conforme o impacto de longo prazo da tecnologia continua remodelando mercados e expectativas de investidores”, aponta o estudo.

Para a PwC, 92% dos investidores acreditam que as empresas nas quais investem — ou que acompanham — deveriam aumentar a alocação de capital em transformação tecnológica.

EUA lideram mercado

A concentração dos negócios também aparece geograficamente. Em 2025, os Estados Unidos responderam por menos de um quarto do volume global de operações, mas concentraram mais da metade do valor total do mercado global de M&A. Nas Américas, o valor das transações cresceu 55%, enquanto o volume caiu 6%.

Na Ásia-Pacífico, o valor das operações subiu 10%, com crescimento relevante em China, Índia, Japão e Coreia do Sul. A China registrou alta de 22% no volume de transações, embora ainda abaixo do pico observado em 2021.

Já na região EMEA, que reúne Europa, Oriente Médio e África, os valores avançaram 19%, puxados principalmente por megadeals no setor financeiro.

A pesquisa também mostra uma diferença de apetite entre executivos globais. De acordo com o levantamento “Global CEO Survey”, também da PwC, 41% dos CEOs planejam realizar uma grande aquisição nos próximos três anos. O percentual sobe para 80% entre executivos do Oriente Médio e fica em torno de 50% nos Estados Unidos e na Índia. Alemanha e China aparecem entre os mercados mais cautelosos, com 20%.

Apesar do avanço da IA, a PwC afirma que menos de uma em cada quatro empresas construiu bases sólidas para adoção da tecnologia. Ainda assim, 92% dos investidores acreditam que as companhias nas quais investem deveriam ampliar a alocação de capital em transformação tecnológica.

Lucy Stapleton, líder global de deals da PwC UK, afirma que “à medida que avançamos para 2026, o retorno dos megadeals está redefinindo a confiança no mercado global de M&A e sinalizando a volta do chamado ‘animal spirits’. O movimento deve se ampliar à medida que os gaps de valuation diminuem, o capital volta a circular e os juros caminham na direção correta. Quem agir de forma decisiva — em vez de esperar pelas condições perfeitas — estará melhor posicionado para vencer.”

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