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Clubes Brasileiros da Série A Registram Faturamento Recorde de R$ 14,9 Bilhões, Mas Dívidas Acompanham Crescimento

Embora o Valuation total das marcas tenha saltado para R$ 47,4 bilhões, a manutenção do sucesso pressiona o endividamento líquido do setor

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O futebol brasileiro consolidou sua posição como uma das indústrias de entretenimento mais populares e fortes do país em 2025. Segundo o levantamento anual da consultoria Ernst & Young (EY), os 20 clubes da Série A registraram uma receita recorde de R$ 14,9 bilhões, um salto de 33% em relação ao ano anterior.

Se olharmos para o recorte dos últimos cinco anos, o crescimento acumulado é de 73%.

Por trás dos gramados bilionários, a contabilidade virou um desafio: o endividamento líquido acompanhou a subida e atingiu R$ 14,3 bilhões, uma alta de 15% comparado à 2024. O fenômeno é explicado pelo que especialistas chamam de “inflação da competitividade”.

A arrecadação recorde não se traduziu necessariamente em fôlego imediato no caixa. Isso porque os custos operacionais, que englobam salários e a manutenção de infraestruturas, subiram 30% no último ano. Na prática, os clubes estão arrecadando mais, porém, gastando mais também.

“O indicador de endividamento líquido segue o movimento de inflação dos valores de mercado e de grandes aportes na indústria”, explica José Ronaldo Rocha, Sócio de Tecnologia, Mídia & Entretenimento e Telecomunicações (TMT) da EY para América Latina.

No entanto, é importante observar que o crescimento de receitas não foi acompanhado proporcionalmente por disciplina na estrutura de custos. Para Rocha, “o aumento nos investimentos em elencos, tanto em aquisições de atletas quanto em folhas salariais, ocorreu em ritmo acelerado, resultando em uma razão endividamento/receita que, em termos comparativos com o setor corporativo tradicional, apresenta níveis de alavancagem elevados”.

Apesar das dívidas, o setor nunca valeu tanto. De acordo com o relatório Finanças e Valuation dos Clubes 202, da Sports Value, o valor total dos ativos dos clubes brasileiros (que inclui marcas, elencos e estádios) atingiu R$ 47,4 bilhões.

Concentração de Renda e o Efeito SAF

A disparidade financeira, entretanto, cria um grupo de elite: Flamengo, Palmeiras, Botafogo, São Paulo e Fluminense detêm, sozinhos, 49% de toda a receita da Série A. Em 2025, a maior parte desse valor vieram de Direitos de transmissões, premiações e de venda de atletas.

Confira o ranking dos gigantes e a receita de cada time em milhões:

Dentre os destaques que estão fora dos cinco maiores, o Mirassol foi considerado o unicórnio do último ano. O orçamento do time ocupou a décima nona posição em 2025, mas a equipe terminou o Brasileirão em 4º lugar.

Rocha explicou que o Mirassol apresenta um modelo de crescimento que se caracteriza por disciplina orçamentária e alinhamento entre investimentos e capacidade de geração de receita, “o clube tem demonstrado consistência em estruturar planos de médio e longo prazo, com priorização de investimentos em infraestrutura e equipamentos que geram retornos sustentáveis”.

A lição mais ampla para o setor é que eficiência operacional não se resume à redução de custos, mas sim a otimização da alocação de recursos. Isso significa alinhar a estrutura de custos com a capacidade real e consistente de geração de receita.

O risco tributário

O passivo tributário é um tema sensível para o setor. Quatro clubes – Corinthians, Botafogo, Fluminense e Atlético-MG – concentram 62% de toda a dívida com o fisco e o perfil das dívidas revela um padrão de gestões anteriores.

O Corinthians, por exemplo, enfrenta um dos cenários mais complexos, a dívida tem três frentes: a NeoQuímica Arena, que foi financiada pela Caixa Econômica Federal e compromete toda a arrecadação de bilheteria, camarotes e eventos; a dívida com o Fisco Federal (PGFN) que recolhe tardiamente o IRRF (Imposto de Renda Retido na Fonte) e processos trabalhistas de jogadores e ex jogadores do clube.

Para o Atlético-MG, a situação é a mais delicada sob a ótica de alavancagem. O endividamento líquido do time equivale a 3,44 vezes sua receita total, e mesmo com o aporte de investidores (SAF), a dívida histórica é alta e o clube opera no limite da capacidade de geração de caixa.

O Botafogo, que embora tenha sido uma das primeiras grandes SAFs, tem o passivo herdado da associação que exige repasses pesados de receita, o que limita o investimento em atletas se a performance comercial não for extraordinária.

E o Fluminense, que continua operando majoritariamente no modelo de associação, fica agora mais vulnerável à nova taxação de 10% da Lei 224/2025.

Para todos os clubes, mas em especial os que aparecem na lanterna do ranking de receita, a organização das diretorias depende da gestão dos recursos a longo prazo e da volatilidade de desempenho em campeonatos.

Para Rocha, a abordagem recomendada é a segregação entre receitas recorrentes e receitas não recorrentes, “o orçamento deve ser estruturado primariamente sobre a base de receitas recorrentes, com receitas não recorrentes sendo tratadas como upside ou amortizadores de volatilidade, e não como componentes essenciais para cobrir custos operacionais estruturais”, explicou.

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