A corrida global por inteligência artificial ganhou mais um capítulo de escala quase inédita. A Nvidia reportou um primeiro trimestre fiscal que não apenas superou as expectativas de Wall Street, mas consolidou a empresa como a principal fornecedora da infraestrutura sobre a qual a nova economia da IA está sendo construída.
A fabricante de chips registrou receita recorde de US$ 81,6 bilhões no trimestre encerrado em 26 de abril, alta de 85% em relação ao mesmo período do ano passado. O lucro líquido saltou para US$ 58,3 bilhões, avanço anual de 211%, enquanto o lucro ajustado por ação ficou em US$ 1,87, acima do consenso de mercado compilado pela FactSet, que projetava US$ 1,75.
Os números reforçam uma dinâmica rara mesmo para os padrões das gigantes de tecnologia: a Nvidia cresce em uma velocidade típica de startup, mas já opera com escala e rentabilidade comparáveis às maiores empresas do planeta.
O coração desse crescimento continua sendo a divisão de Data Center, responsável por praticamente toda a expansão da companhia. A unidade gerou US$ 75,2 bilhões em receita no trimestre, avanço de 92% na comparação anual. Em outras palavras: a demanda global por infraestrutura de inteligência artificial segue em ritmo acelerado, apesar das preocupações recentes sobre excesso de investimento (“bolha de IA”) ou desaceleração econômica nos Estados Unidos.
A empresa atribuiu o resultado ao avanço da plataforma Blackwell 300 – nova geração de chips voltada para treinamento e inferência de IA – além da expansão das soluções de conectividade InfiniBand, Spectrum-X Ethernet e NVLink. Mais do que vender semicondutores, a Nvidia vem se posicionando como uma fornecedora completa de ecossistemas de computação acelerada, combinando hardware, redes e software em uma arquitetura integrada difícil de replicar.
Na prática, a companhia se tornou uma espécie de “fornecedora de energia” da revolução da IA generativa. Big Techs, governos, startups e fundos soberanos disputam capacidade computacional em uma corrida que lembra, em intensidade, o boom da infraestrutura da internet nos anos 1990, mas com margens muito mais elevadas.
O balanço também mostrou que a Nvidia começa a transitar para uma nova fase corporativa: a de devolver capital em larga escala aos acionistas. A empresa anunciou um novo programa de recompra de ações de US$ 80 bilhões e elevou seu dividendo trimestral de US$ 0,01 para US$ 0,25 por ação.
Ainda assim, parte do lucro trimestral foi impulsionada por fatores não recorrentes. Segundo a companhia, aproximadamente US$ 15,9 bilhões vieram da valorização de investimentos estratégicos, o que ajudou a ampliar o salto do lucro líquido reportado. Mesmo desconsiderando esse efeito, porém, os resultados operacionais permaneceriam amplamente acima das estimativas do mercado.
A leitura em Wall Street é de que a Nvidia continua operando praticamente sem concorrência efetiva no segmento mais lucrativo da cadeia de IA. Rivais como Advanced Micro Devices e Intel seguem tentando reduzir a distância tecnológica, enquanto gigantes como Microsoft, Amazon e Google aceleram o desenvolvimento de chips proprietários para reduzir dependência da companhia de Jensen Huang.