O crescimento de 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no primeiro trimestre confirma que comportamento da economia é mais resistente do que o esperado, mesmo após um longo período de juros elevados. Nos últimos 12 meses, a economia cresceu 2%.
Em valores correntes, foram gerados R$ 3,3 trilhões. Desse total, R$ 2,8 trilhões vieram da criação de riqueza pela indústria, serviços e agropecuária, alta de 1,8% em relação ao primeiro trimestre de 2025. Enquanto isso, R$ 461,2 bilhões corresponderam à arrecadação de impostos sobre produtos, descontados os subsídios, alta de 1,9% na comparação com o mesmo período do ano passado. Os dados foram divulgados nesta sexta-feira (29) pelo IBGE.
Entre os economistas, a leitura do resultado divulgado nesta sexta-feira, 29, pelo IBGE, é que o consumo das famílias continua aquecido, impulsionado pelo mercado de trabalho e por estímulos fiscais do governo.
Para Antonio Ricciardi, economista do Daycoval, a combinação entre valorização do salário mínimo e ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda ajudou a sustentar o desempenho da atividade. “O aumento da massa de renda e o aumento de renda disponível dado pela isenção do IRPF surtiram efeito positivo para o consumo”, afirmou.
A avaliação de Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, vai na mesma linha. Segundo ele, programas de estímulo, expansão do crédito e renda elevada continuam dificultando o processo de desaceleração da economia buscado pelo Banco Central para a convergência da inflação “O dado atual corrobora a visão de que a economia não deve esfriar tão cedo”, disse.
Os analistas também destacaram a força do agronegócio, beneficiado pela safra recorde de soja, e a recuperação da indústria, principalmente nos segmentos ligados à extração de petróleo e gás e à construção civil.
Pablo Spyer, conselheiro da Associação Nacional das Corretoras de Valores (ANCORD), cita o peso da combinação entre agro forte, investimentos em alta e consumo no resultado. . “A indústria também surpreendeu positivamente, avançando 1%, puxada principalmente pela indústria extrativa, com alta de 3,6%, refletindo o aumento da produção de petróleo e gás. Construção civil também mostrou força, subindo 2,9%”, afirma.
“O número mostra uma economia ainda aquecida no curto prazo. Mas o mercado continua preocupado com o segundo semestre, porque juros altos, inflação pressionada, cenário eleitoral e incertezas externas podem desacelerar a atividade mais à frente”, diz.
Parte das casas avalia que o resultado do PIB precisa ser relativizado. Para o ASA, instituição financeira de Alberto Safra, os principais motores do trimestre tiveram caráter temporal como a supersafra agrícola e o desempenho da indústria extrativa.
O ASA também destacou sinais considerados mais frágeis da economia, como a queda da taxa de investimento e da taxa de poupança no trimestre.
“A combinação de investimento em queda e poupança pressionada segue como um ponto de atenção estrutural para a trajetória de crescimento sustentável”, avalia Leonardo Costa, economista do ASA.
O efeito do PIB na decisão sobre juros
Nesta semana, os economistas consultados pelo Banco Central elevaram, pela 11ª semana consecutiva, as estimativas para a inflação de 2026. A expectativa para o IPCA subiu de 4,92% para 5,04% para 2026, ultrapassando novamente o teto da meta perseguida pelo Banco Central, de 4,5%, considerando a margem de tolerância da meta central que é de 3%. O mercado também revisou para cima a expectativa para a taxa Selic ao fim de 2026, de 13% para 13,25%
A SulAmérica Investimentos vê impacto direto do resultado sobre as projeções do Banco Central para o crescimento da economia. Segundo a economista Mariana Rodrigues, o dado deve levar a autoridade monetária a revisar novamente suas estimativas para o hiato do produto e para o crescimento deste ano. O hiato do produto é uma medida usada por economistas e pelo Banco Central para avaliar se a economia está crescendo acima, abaixo ou perto do seu potencial
A leitura mais forte da atividade também aumenta a percepção de que o Banco Central precisará manter cautela na condução dos juros. Para José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, os estímulos adotados pelo governo ajudaram a reacelerar a economia após a desaceleração vista no fim de 2025, o que tende a manter a autoridade monetária em alerta.
“Os dados mostram uma economia acelerando, provavelmente devido aos programas aprovados pelo governo neste início de ano, como reação à desaceleração do último trimestre de 2025, o que poderá gerar preocupação para o Banco Central, que deverá manter cautela na política monetária”, diz.
O PIB de 2026 começa repetindo um padrão que apareceu diversas vezes nos anos recentes. Os economistas entram no ano esperando desaceleração mais intensa, mas consumo, mercado de trabalho e agronegócio acabam entregando uma atividade mais resistente do que o previsto.
A diferença agora é que o cenário externo ficou mais hostil, com petróleo pressionado pela guerra no Oriente Médio e riscos climáticos ligados ao super El Niño, fatores que podem limitar essa resiliência no segundo semestre