Uma parte das pessoas — incluindo os clientes mais assíduos — ainda acha que a The Coffee é uma cafeteria estrangeira. Geralmente as conjecturas miram no Japão. Aliás, o domínio do site oficial é “.jp”. A roupagem asiática é puramente inspiração, no entanto, a rede já mostra números que comprovam que a companhia faz valer o jargão think global do mercado.
A The Coffee soma 350 unidades, sendo 175 em solo brasileiro e 175 no exterior. Agora, passa a ter lojas em Marrocos, na África, fazendo com que a marca nascida com uma unidade de nove metros quadrados em Curitiba (PR) passe a operar nos cinco continentes.
Com US$ 45 milhões (R$ 226 milhões) de faturamento, a projeção é de que cada vez mais a operação fora do Brasil cresça e seja mais representativa.
Os executivos enxergam crescimento no Brasil, mas olham para a Europa como um mercado mais promissor. A The Coffee levantou suas primeiras unidades por lá entre 2020 e 2021, na França, em Portugal e também na Espanha.
Carlos Fertonani, CEO da The Coffee, está baseado em Portugal atualmente, e conta que vê um crescimento de 70% da rede em solo europeu, ao passo que no Brasil a expansão projetada fica em 20%.
Nesse cenário, a rede deve crescer para 480 lojas e faturar US$ 78 milhões neste ano, o que representa R$ 392 milhões no câmbio atual.
“A Europa foi uma operação própria, mandamos um time para cá para desenvolver a operação, e logo depois começamos a fechar os contratos de master franqueados. Hoje contamos com mais de 60 lojas na Europa. Somos extremamente focados na expansão internacional nos dias de hoje”, diz o executivo, em entrevista à Forbes.

Quanto custa abrir uma franquia da The Coffee?
Fertonani ressalta que a receita é relativamente pulverizada, com um terço das vendas totais vindo do Brasil, outro terço da Europa e outro terço de outros master franqueados.
A taxa de franquia fica na casa dos R$ 50 mil no Brasil. Na Europa são € 15 mil.
Para abrir uma unidade, o preço flutua consideravelmente dependendo do tamanho da loja e da região.
No Brasil, o investimento inicial fica em R$ 300 mil, na média. Já na Europa são necessários € 75 mil para abrir uma unidade e se tornar fraqnueado.
Servir café no mundo todo, só que de jeitos diferentes
Embora a rede tenha uma parte fixa do cardápio, ao expandir para várias regiões com culturas e hábitos culinários diferentes a companhia adapta parte da oferta localmente.
A rede tem três níveis: uma parte já definida com base na estratégia e no desenho de produtos da equipe interna, um outro nível adotado pelo master franqueado de uma grande região, e um último nível em que o franqueado ou subfranqueado pode adaptar localmente.
“No cardápio do tablet você tem produtos globais, que estão no mundo todo, mas também produtos nacionais e locais. Damos essa flexibilidade, tem alguns slots para isso, tanto para bebida quanto para comida”, diz Fertonani.

Atualmente cerca de 15% da receita vem de alimentos, com as bebidas sendo predominantemente a maior parte da receita. A companhia, entretanto, não visa alterar esse share.
Algumas lojas possuem menu de brunch, mas trata-se de uma minoria absoluta. Ampliar isso poderia gerar complexidade e ir na direção contrária do minimalismo adotado pela empresa.
Mais lojas próprias — mas nem tantas
O modelo do negócio é fundamentalmente de franquias, com os franqueados e master franqueados representando mais de 95% da rede.
A companhia pretende realizar a abertura de mais unidades próprias. Esse movimento não deverá ser restrito a uma ou duas unidades flagships, todavia também não deve mexer na proporção e alterar o percentual de forma significativa, de mais de um dígito percentual.

Com as novas lojas, em um horizonte de 5 a 10 anos a rede deve ficar na proporção 90%-10%. O ponto é que esses 10% de lojas próprias deverão representar cerca de um terço do faturamento de toda a rede, nos cálculos da gestão.
Do Japão para Curitiba (e depois para o mundo todo)
A rede foi fundada em meados de 2018, em Curitiba, nascendo inspirada no que os irmãos Carlos, Alexandre e Luis Fertonani viram em uma viagem ao Japão.
A proposta era criar uma cafeteria minimalista, tecnológica e compacta, seguindo o estilo das lojas urbanas japonesas. O primeiro ponto da marca ocupava menos de dez metros quadrados e foi instalado no vão entre dois restaurantes no centro da capital paranaense.
Com investimento inicial de R$ 60 mil, a unidade rapidamente chamou atenção e validou o modelo de negócio. Menos de um ano depois, a empresa inaugurou a segunda loja já no formato de franquia, dando início à expansão acelerada da rede.
Atualmente, Carlos Fertonani lidera a companhia como CEO e divide a sociedade com os irmãos Alexandre e Luis. Enquanto Luis é resonsável pelo marketing das lojas, Alexandre passou a atuar com foco em expansão e tecnologia.
O crescimento da empresa também foi impulsionado por aportes relevantes no mercado. Em 2020, a The Coffee captou US$ 5 milhões com a gestora Monashees. Três anos depois, recebeu mais US$ 10 milhões em uma rodada liderada pela CapSur, que avaliou a companhia em US$ 45 milhões.

Sem caixa físico e modelo to go
Um dos principais diferenciais da The Coffee está no modelo operacional enxuto e altamente tecnológico. A empresa aposta em lojas compactas e no conceito “to go”, no qual o cliente compra o café para consumir fora da unidade.
Além disso, a marca eliminou o caixa físico tradicional e implementou tablets de autoatendimento integrados a um sistema próprio de gestão de pedidos e estoque. A digitalização do processo reduz custos operacionais e aumenta a eficiência das franquias.
Outro ponto que fortalece a identidade da rede é o foco em café especial. A empresa mantém até mesmo um profissional dedicado exclusivamente à busca dos melhores grãos do país, conhecido internamente como “coffee hunter”.
A marca utiliza cafés de fazendas mineiras e classifica seus produtos conforme os critérios da Specialty Coffee Association (SCA). Atualmente, a rede trabalha com três categorias principais de café: White, Kraft e Black, diferenciadas pela pontuação técnica atribuída aos grãos.
Mais unidades do que o Starbucks
A expansão da The Coffee também chamou atenção pela velocidade. Em 2021, apenas três anos após sua fundação e em plena pandemia, a marca ultrapassou a Starbucks em número de lojas no Brasil — rede de franquias americana operada pela Zamp no Brasil, mas que passou por solavancos em meados de 2023 em meio às dificuldades financeiras da SouthRock, antiga dona que também operava o Subway.
O crescimento da The Coffee foi sustentado principalmente pelo sistema de franquias padronizadas, com equipamentos e operação replicáveis em diferentes mercados.
Hoje, a companhia opera cinco formatos de unidades, incluindo lojas de rua compactas, quiosques em shopping centers e até modelos modulares em contêineres.