Maio acabou com uma queda real de 7,7% do Ibovespa, considerando o IPCA-15, prévia do IPCA, que foi divulgado na quarta-feira (27). Foi a maior baixa real da bolsa brasileira em quase cinco anos, desde a perda de 7,9% em outubro de 2021. O resultado parece confirmar um dos velhos ditados de Wall Street: “venda em maio e vá para casa”. Em inglês rima: “sell in May and go away”.
Mesmo associado ao mercado americano, esse ditado se popularizou na Inglaterra, e era um pouco mais sofisticado: “sell in May and go away; go back only in Saint Leger’s day”. No século XVIII, o general inglês Anthony Saint Leger lançou a ideia de realizar uma corrida de cavalos em setembro, para encerrar o verão.
A corrida ainda é disputada, sempre no fim do terceiro trimestre, e tem um significado especial para os mercados, pela crença que a rentabilidade das ações é um pouco menor durante os meses de verão. Como o mercado americano tem mais de dois séculos de estatísticas, é possível demonstrar matematicamente tanto a verdade quanto a inverdade dessa afirmação.
De fato, na virada do segundo para o terceiro trimestres, quando é verão no Hemisfério Norte, a atividade desacelera um pouco. Da mesma forma que desacelera no Brasil entre o Natal e o Carnaval. Por isso, há uma possibilidade estatística de resultados mais fracos em Wall Street.
E por aqui? Com ajuda da consultoria Elos Ayta, realizamos um levantamento do comportamento mensal do Ibovespa desde janeiro de 1980. Como esse período teve seis moedas – cruzeiro, cruzado, cruzado novo, novamente cruzeiro, cruzeiro real e real – e uma inflação acumulada na casa dos trilhões, o cálculo foi feito considerando-se a variação real do Ibovespa deflacionada pelo Índice Geral de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) entre janeiro de 1980 e maio de 2026.
Uma brevíssima explicação metodológica: preferimos não usar o dólar devido às imperfeições da variação cambial nesse período. O dólar só flutuou com uma relativa liberdade a partir de janeiro de 1999. No passado, a taxa de câmbio sempre esteve sujeita à mão pesada do Banco Central. Dito isso, vamos aos números.
O que os números dizem? A análise considerou 557 meses. Desse total, houve 306 meses com variação positiva, ou 54,9% da amostra. E em 45% dos casos, ou 251 meses, o Ibovespa apresentou uma perda real.
Nesses 46 anos, o mês com mais registros de alta foi setembro: em 31 anos, o último mês do terceiro trimestre deixou os investidores no azul. Porém, a consistência não quer dizer pujança. O ganho médio de setembro, contando meses positivos e negativos, foi de apenas 0,59% acima da inflação.
O mês com os maiores ganhos foi abril, com uma variação de 4,76%. Mas aqui há uma maldade estatística: em 15 de março de 1990 o recém-empossado presidente Fernando Collor de Mello desfechou o mais violento dos golpes contra os investidores e congelou todas as aplicações financeiras por 18 meses. Isso levou a uma queda de 76% do Ibovespa naquele mês, a maior queda mensal dos 46 anos da análise.
O Plano Collor também levou a um encolhimento dramático do tamanho do mercado. Em abril de 1990, houve uma reação à queda do mês anterior, amplificada pelo encolhimento da liquidez, e o Ibovespa subiu 85,5%, a maior alta mensal da análise. Nenhum desses percentuais é representativo: são distorções provocadas pela intervenção estatal na economia. Mesmo assim, por consistência estatística, esses percentuais exagerados não foram retirados da amostra.
Sem contar a distorção provocada pelo Plano Collor, o melhor mês é janeiro. Em vários dos anos pesquisados, especialmente em começos de mandatos presidenciais, o primeiro mês do ano refletiu o otimismo do mercado. A rentabilidade média foi de 4,4%. No entanto, assim como as chuvaradas de verão podem surpreender com inundações, o começo do ano também é imprevisível: 24 dos 47 janeiros indicaram queda de preços, e as altas ocorreram 23 meses. Mais da metade, portanto, foi prejuízo.
Qual foi o “pior” mês? Outro velho ditado, esse brasileiro, diz “agosto, mês de desgosto”. Superstições à parte, isso é verdade no mercado. Na média, o auge do inverno indica perdas no pregão, com uma desvalorização média de 0,44%.
Até agora, os números parecem mostrar um decepcionante equilíbrio. Por isso, a pesquisa da Elos Ayta levantou também as variações semestrais. Mas não as do calendário gregoriano. Aqui não há corrida de Saint Leger em setembro, por isso o ano foi dividido em dois períodos: de maio a outubro e de novembro a abril.
Essa separação, sim, mostrou que há uma vantagem. Em 27 semestres, 58,7% da amostra, a variação entre novembro e abril superou a variação entre maio e outubro. Quando a bolsa foi bem, o ganho no quarto e no primeiro trimestres foi melhor. Quando a bolsa foi mal, a queda foi menor. Parte da explicação é que esse período “captura” abril e janeiro, os dois melhores meses do ano.
Qual o período do ano mais rentável na bolsa brasileira?
Qual a conclusão dessa análise de longo prazo sobre o mercado? Estatisticamente, o período entre novembro e abril tende a ser mais rentável para o Ibovespa como um todo. Há algumas boas explicações para isso.
Uma delas é que, em geral, o mês de dezembro é positivo. Dezembro fechou no azul em 28 dos 46 meses analisados, ou 61%, pelo tradicional “rally” de fim de ano.
Outra causa é que a baixa da atividade durante o verão no Hemisfério Norte acaba esfriando os negócios por aqui também. Uma boa parte do volume da Bolsa vem de fora. Quando os profissionais de mercado e os investidores internacionais tiram férias, há menos ordens de compra e venda e menos combustível para estimular o mercado.
O mês de julho é de atividade mais reduzida por aqui também, aproveitando as temperaturas mais amenas do verão europeu. Todos esses fatores tendem a desacelerar os negócios e, sem capital de fora, o mercado brasileiro tem uma imensa dificuldade em sustentar seus preços.