Imagine um projeto de construção três vezes maior que Manhattan, alimentado por gás natural e sem qualquer compromisso com fontes renováveis de energia. Imagine também que ele possa elevar as temperaturas noturnas locais em até 28 graus Fahrenheit. Pense que as áreas de pastagem ao redor possam se tornar, nas palavras de um professor de ecologia da região, “comparáveis ao Deserto do Saara”.
Agora imagine que, quando centenas de moradores apareceram para protestar, um comissário do condado disse para eles “amadurecerem” — e aprovou o projeto mesmo assim. Bem-vindo ao Projeto Stratos, em Box Elder, Utah, o boom dos data centers voltados para inteligência artificial.
Em todo os Estados Unidos, comunidades estão reagindo contra a construção de data centers de IA devido ao ruído, ao consumo de água, à demanda por energia e ao ritmo acelerado de desenvolvimento, que frequentemente deixa os moradores com pouca influência sobre as decisões. Em Box Elder, todos esses fatores estão presentes, mas em uma escala que desafia a imaginação.
Desde que a OpenAI lançou o ChatGPT em 2022, iniciou-se uma corrida intensa para explorar o potencial da inteligência artificial e, consequentemente, uma necessidade crescente de construir data centers capazes de atender à explosão da demanda por armazenamento de dados.
Embora alguns críticos alertem que o potencial comercial da IA possa estar sendo superestimado, seu poder transformador e seus benefícios já são evidentes. No entanto, os custos ambientais e sociais também são claros — assim como a crescente revolta das pessoas que são chamadas a arcar com essas consequências.
No ano passado, comunidades em 37 estados americanos bloquearam ou atrasaram investimentos de US$ 156 bilhões (R$ 809,64 bilhões) em data centers distribuídos por 48 projetos. Uma análise do JPMorgan constatou que mais de 60% da capacidade de data centers planejada para entrar em operação em 2027 ainda nem começou a ser construída.
Ao mesmo tempo, a demanda por eletricidade dos data centers de IA cresceu 50% globalmente no ano passado e deve aumentar mais 75% neste ano, segundo a Agência Internacional de Energia. O Wall Street Journal informou que algumas das novas instalações consumirão “a mesma quantidade de energia que uma cidade de porte médio”.
Corrida bilionária da IA
O Projeto Stratos, localizado em Box Elder, uma comunidade rural no noroeste de Utah, abrigará um campus de geração de energia e um data center de inteligência artificial com capacidade de 9 gigawatts, ocupando aproximadamente 40 mil acres — quase três vezes a área de Manhattan.
Quando estiver totalmente operacional, sua demanda energética ultrapassará o dobro do consumo atual de eletricidade de Utah, e sua implementação completa poderá custar até US$ 100 bilhões (R$ 519 bilhões). Será o maior data center de IA do mundo.
Segundo os desenvolvedores do projeto e autoridades estaduais, o Stratos criará 10 mil empregos na construção civil e 2 mil vagas permanentes em Box Elder, gerará US$ 30 milhões (R$ 155,7 milhões) em receitas tributárias iniciais e poderá alcançar US$ 108 milhões (R$ 560,52 milhões) após a conclusão total. Seus apoiadores argumentam que a construção é uma questão de segurança nacional, necessária para que os Estados Unidos permaneçam competitivos frente à China na corrida pela supremacia em inteligência artificial.
Embora também afirmem que o projeto produzirá sua própria energia sem sobrecarregar a rede elétrica de Utah, essas alegações são, na melhor das hipóteses, excessivamente otimistas.
O Projeto Stratos não possui conexão independente com uma rede elétrica e não assumiu qualquer compromisso com energia renovável. Ele depende integralmente do gás natural transportado pelo Gasoduto Ruby, uma infraestrutura que atravessa o norte de Utah, gerando preocupações sobre a qualidade do ar.
A organização Utah Clean Energy estima que o empreendimento possa aumentar as emissões de carbono entre 55% e 75%, tornando o Stratos potencialmente a maior fonte isolada de emissões do estado. Apenas as emissões de óxido de nitrogênio poderiam atingir aproximadamente o dobro de todo o volume industrial emitido atualmente pelo Condado de Salt Lake, o equivalente às emissões anuais de toda a indústria de petróleo e gás de Utah.
Custo ambiental
Essas projeções levaram cientistas a fazer alertas contundentes. Robert Davies, professor de Física da Universidade Estadual de Utah, estima que a carga térmica do projeto seria “equivalente à energia de aproximadamente 23 bombas atômicas despejada diariamente neste ambiente local”, elevando as temperaturas diurnas em cerca de 5 graus Fahrenheit e as temperaturas noturnas em até 28 graus Fahrenheit.
Ben Abbott, professor de Ecologia da Universidade Brigham Young, alertou que essa mudança poderia transformar o clima semiárido de Utah em condições comparáveis às do Deserto do Saara, com consequências devastadoras para a fauna, a flora e as áreas de pecuária da região.
Em 4 de maio, os comissários do Condado de Box Elder votaram unanimemente pela aprovação do projeto, apesar da forte oposição de centenas de moradores. O comissário Boyd Bingham disse à multidão: “Pelo amor de Deus, amadureçam”.
Mais tarde, em maio, apenas nove dias após a aprovação do projeto pela Military Installation Development Authority (MIDA) — órgão estadual criado para apoiar infraestruturas relacionadas à defesa — a fase inicial avançou por um processo acelerado de aprovação no condado. Para atrair o investimento, a MIDA reduziu a alíquota tributária aplicável à energia de 6% para apenas 0,5%.
Resistência
Os pedidos de direitos de uso da água geraram alguns dos maiores protestos públicos contra solicitações hídricas da história recente de Utah, obrigando os desenvolvedores a retirar sua primeira proposta. Uma coalizão local chamada BEAR (Box Elder Accountability Referendum) protocolou, em 8 de maio, dois pedidos de referendo para submeter a aprovação do condado à votação popular em novembro.
Entretanto, em 28 de maio, o procurador do Condado de Box Elder decidiu que as resoluções tinham caráter administrativo, e não legislativo, bloqueando completamente a possibilidade de consulta popular. O grupo BEAR avalia recorrer à Justiça.
Outra organização, chamada Alliance for a Better Utah, já ingressou com ações judiciais. Um terceiro grupo, o Utah Civic Compact, argumenta que a MIDA violou a legislação estadual ao utilizar indevidamente o vínculo militar do projeto para contornar os mecanismos democráticos tradicionais de controle do uso do solo.
A pressão está produzindo resultados — embora limitados. Em 1º de junho, o presidente do Senado de Utah, J. Stuart Adams, exigiu que o investidor Kevin O’Leary reduzisse em 75% a área ocupada pelo projeto, ampliasse as proteções ambientais e aumentasse a transparência.
Poucos dias depois de Adams anunciar que O’Leary havia aceitado todas as exigências, o investidor publicou na rede X que uma redução de 75% “simplesmente não é realista para um projeto dessa magnitude”. Em outras palavras, os dois lados ainda não chegaram a um consenso sequer sobre aquilo que afirmam ter acordado.
O Projeto Stratos pode ser um caso extremo em termos de escala, mas a disputa em torno dele — e o padrão que representa — não é uma exceção.
Em todo o país, a infraestrutura necessária para a inteligência artificial está sendo construída rapidamente. Isso vem com um custo e com consideração limitada pelas pessoas que terão de conviver com as consequências, gerando insatisfação pública.
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com