Durante os anos da pandemia, o capital parecia inesgotável. Fundos internacionais desembarcavam na América Latina em busca do próximo Nubank, da próxima Rappi ou do próximo unicórnio capaz de transformar mercados inteiros. Entre todos os investidores estrangeiros, poucos simbolizaram melhor aquela euforia do que o SoftBank.
Sete anos depois de lançar um fundo de US$ 5 bilhões para a América Latina, posteriormente reforçado por outros US$ 3 bilhões, o conglomerado japonês faz um diagnóstico que soa como um alerta para o ecossistema regional: há poucas startups capazes de justificar grandes aportes. O problema não é falta de dinheiro. É falta de empresas consideradas maduras o suficiente para recebê-lo.
A avaliação veio de Alex Szapiro, responsável pelas operações do SoftBank no Brasil, ao afirmar que o grupo encontra cada vez menos companhias na região aptas a receber cheques superiores a US$ 50 milhões, valor que costuma caracterizar as operações da gestora japonesa. Atualmente, o grupo analisa apenas quatro ou cinco potenciais investimentos na América Latina e realizou somente dois novos aportes nos últimos dois anos.
A declaração vai além de uma simples revisão de portfólio. Ela ajuda a explicar como a geografia global do capital de risco está sendo redesenhada pela inteligência artificial.
Nos últimos três anos, o centro de gravidade do venture capital migrou rapidamente. Se antes investidores buscavam plataformas digitais capazes de digitalizar setores tradicionais, agora o capital se concentra em empresas que desenvolvem modelos de IA, infraestrutura computacional ou aplicações com potencial de escala global. O próprio SoftBank transformou essa mudança em estratégia corporativa. O grupo liderado por Masayoshi Son passou a direcionar uma parcela crescente de seus recursos para gigantes da inteligência artificial e ativos ligados à infraestrutura tecnológica necessária para sustentar essa revolução.
Nesse novo cenário, a América Latina enfrenta uma desvantagem estrutural. Diferentemente dos Estados Unidos, que concentram laboratórios de ponta, universidades de pesquisa e acesso praticamente ilimitado a capital, ou da Ásia, que combina escala industrial e políticas tecnológicas agressivas, a região ainda carece de infraestrutura avançada, especialistas em IA e financiamento para projetos de longo prazo. Szapiro resumiu o problema de forma direta ao afirmar que é difícil imaginar uma OpenAI ou uma Anthropic surgindo na América Latina.
Os números ajudam a contextualizar a mudança. O investimento em startups latino-americanas atingiu cerca de US$ 16 bilhões em 2021, auge da liquidez global e dos juros próximos de zero. Desde então, o mercado entrou em retração. Em 2025, os aportes haviam caído para US$ 4,3 bilhões, segundo dados da Lavca.
O Brasil continua sendo o principal destino do capital de risco regional. Empresas como QuintoAndar, Creditas, e o próprio Nubank demonstraram que é possível construir negócios de escala continental a partir do país. O desafio é que a próxima geração de startups precisa competir em um mercado muito diferente daquele que produziu esses campeões.
Durante a década passada, bastava digitalizar um setor ineficiente – crédito, imobiliário, logística ou varejo – para atrair investidores. Hoje, a régua foi elevada. Os fundos querem empresas com tecnologia proprietária, acesso exclusivo a dados, capacidade de competir globalmente e aplicações concretas de inteligência artificial. Não se trata apenas de crescer rápido, mas de possuir uma vantagem tecnológica difícil de replicar.
Isso ajuda a explicar por que o recado do SoftBank é relevante mesmo para empreendedores que jamais receberão um cheque da gestora japonesa. O que está em jogo não é apenas a estratégia de um investidor, mas uma redefinição dos critérios de excelência do mercado.