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AbbVie Compra Biotech por US$ 10,9 Bilhões para Ampliar Aposta em Remédios contra Doenças Inflamatórias

A farmacêutica americana busca fortalecer sua próxima geração de tratamentos em meio à crescente pressão pela renovação de receitas e ao vencimento de patentes que movimentam bilhões de dólares no setor

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A indústria farmacêutica vive uma corrida contra o tempo. Nos próximos anos, medicamentos que hoje sustentam parte relevante das receitas das grandes empresas do setor perderão suas patentes, abrindo espaço para concorrentes e versões genéricas. Nesse cenário, comprar inovação tornou-se, muitas vezes, mais rápido, e menos arriscado, do que desenvolvê-la internamente.

Foi essa lógica que levou a AbbVie a anunciar a aquisição da biotecnológica americana Apogee Therapeutics por US$ 10,9 bilhões. O negócio, o maior da companhia desde 2019, adiciona ao portfólio da farmacêutica um dos ativos mais promissores da nova geração de tratamentos para doenças inflamatórias.

Pelos termos do acordo, os acionistas da Apogee receberão US$ 135,11 por ação em dinheiro, um prêmio de 49% sobre o valor de fechamento dos papéis na última quinta-feira. As ações da empresa dispararam nas negociações pré-mercado após o anúncio.

A aposta da AbbVie está concentrada em um único ativo: o zumilokibart, medicamento experimental voltado inicialmente para dermatite atópica, doença inflamatória da pele que afeta mais de 200 milhões de pessoas em todo o mundo. Embora ainda esteja em desenvolvimento, o tratamento é visto por analistas como um potencial concorrente de longo prazo ao Dupixent, blockbuster desenvolvido por Sanofi e Regeneron que faturou US$ 17,8 bilhões em 2025. O principal diferencial do zumilokibart está na possibilidade de intervalos maiores entre as aplicações.

Para a AbbVie, a aquisição também representa um movimento defensivo. A empresa ainda colhe os frutos de Humira, o medicamento mais vendido da história da indústria farmacêutica, utilizado no tratamento de artrite reumatoide, psoríase e outras doenças inflamatórias. Mas o auge do produto já passou. Desde a expiração de suas patentes, a companhia vem enfrentando concorrência crescente de biossimilares e acelerando a migração de pacientes para terapias mais recentes, como Skyrizi e Rinvoq.

O problema é que nenhum gigante farmacêutico pode depender indefinidamente de um grupo restrito de medicamentos. A necessidade constante de renovação explica por que os departamentos de fusões e aquisições das grandes farmacêuticas permanecem tão ativos.

Segundo dados da LSEG, mais de US$ 200 bilhões em aquisições no setor de saúde foram anunciados apenas neste ano. O movimento reflete uma realidade estrutural: enquanto grandes laboratórios possuem caixa abundante, pequenas empresas de biotecnologia concentram boa parte da inovação científica.

A Apogee é um exemplo típico desse modelo. Fundada em 2022 pelos fundos de venture capital Venrock e Fairmount, a companhia nasceu com foco exclusivo em doenças inflamatórias. Em apenas três anos, conseguiu levar seu principal medicamento a estágios avançados de desenvolvimento clínico e atrair um acordo de financiamento de US$ 1,3 bilhão com a Blackstone para bancar estudos e eventual lançamento comercial.

Mas a própria estrutura do financiamento deixava aberta a possibilidade de venda da companhia – uma cláusula que, na prática, sinalizava ao mercado que a empresa poderia se tornar alvo de aquisição.

Histórico de oportunidades

A AbbVie tem histórico de aproveitar essas oportunidades. Nos últimos anos, a companhia desembolsou US$ 10,1 bilhões pela oncologia da ImmunoGen, US$ 8,7 bilhões pela desenvolvedora de medicamentos psiquiátricos Cerevel Therapeutics e, em sua maior transação, US$ 80 bilhões pela Allergan, fabricante do Botox.

Nem todas as apostas funcionaram. O principal medicamento da Cerevel decepcionou em estudos clínicos recentes, lembrando que mesmo aquisições bilionárias continuam sujeitas ao alto grau de incerteza inerente ao desenvolvimento farmacêutico.

Ainda assim, investidores parecem enxergar o negócio da Apogee como uma aposta mais alinhada à estratégia histórica da AbbVie. A companhia construiu sua reputação justamente em torno da imunologia, área que continua entre as mais lucrativas da medicina moderna.

Durante décadas, grandes laboratórios investiram fortemente em pesquisa própria. Hoje, uma parcela crescente da inovação nasce fora de seus laboratórios, em startups financiadas por fundos especializados. Quando um ativo demonstra potencial comercial, as gigantes entram em cena com cheques bilionários.

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