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Crise nas Faculdades Privadas dos EUA: o Que Está Acontecendo?

Enquanto as universidades da Ivy League dominam manchetes, a queda no número de alunos e a má gestão financeira pressionam faculdades privadas nos EUA

14 min

Em setembro de 2016, o professor de economia Matthew Hendricks e 3 mil outros funcionários da Universidade de Tulsa receberam um e-mail preocupante da administração. A pequena universidade privada de pesquisa deixaria de financiar seu plano de aposentadoria, e 43 funcionários perderiam seus empregos.

Hendricks, que lecionava econometria com especialização em educação, ficou perplexo ao tentar entender por que uma instituição com um patrimônio tão robusto estava adotando medidas aparentemente tão drásticas. Com apenas 4.500 alunos matriculados na época, a universidade de Oklahoma possuía um fundo patrimonial superior a US$ 1 bilhão (R$ 5,2 bilhões) — grande parte proveniente da generosidade de um único magnata do petróleo —, o que deveria garantir uma situação financeira sólida.

Por isso, Hendricks, que tinha estabilidade acadêmica (e, portanto, não poderia ser demitido), decidiu investigar como sua empregadora havia acumulado um déficit orçamentário de US$ 26 milhões (R$ 135,2 milhões).

Como outras pequenas faculdades com grandes ambições, a liderança da Universidade de Tulsa havia embarcado em um plano agressivo de expansão chamado “Embrace The Future”, lançado em 2010. Entre os projetos estavam a elevação do programa esportivo para a divisão “D-1” (o nível mais alto do esporte universitário), a reforma do estádio de futebol americano, a construção de novos dormitórios estudantis e um centro de artes cênicas de 70 mil pés quadrados.

“Estávamos com praticamente o dobro de funcionários em áreas que não tinham nada a ver com ensino”, afirma Hendricks. “Tínhamos uma equipe interna de marketing com 20 pessoas. Havia 30 policiais trabalhando em tempo integral, uma enorme equipe de manutenção do campus e uma biblioteca com um quadro gigantesco, talvez 20 funcionários. Também administrávamos internamente o serviço de alimentação, o que geralmente é uma péssima ideia.”

Hendricks mergulhou nos relatórios financeiros auditados da universidade e comparou os números com os de instituições semelhantes. Então, em abril de 2019, o novo presidente da universidade, Dr. Gerard Clancy, anunciou um plano de recuperação chamado “True Commitment”.

Gestão de crise

A proposta previa a eliminação de mais de 80 programas acadêmicos, principalmente nas áreas de humanidades e artes, além de uma reorientação para cursos de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) e formações pré-profissionais, como saúde, negócios e direito.

“Foi a pior ideia possível”, diz Hendricks. “O plano sequer explicava claramente como iria economizar dinheiro, porque não havia nada sobre demissão de professores ou qualquer medida semelhante.” Diante disso, Hendricks começou a realizar apresentações dentro do campus expondo o que considerava uma grave má gestão financeira em comparação com instituições equivalentes. Seu trabalho chegou a ser destaque em um programa de rádio local.

O diretor financeiro da universidade rebateu suas conclusões, mas posteriormente contratou uma consultoria externa que chegou exatamente às mesmas parciais. Menos de um ano depois do anúncio do plano de reestruturação, Clancy e o reitor receberam um voto de desconfiança. Alguns meses mais tarde, em janeiro de 2020, Clancy renunciou.

Desde então, a Universidade de Tulsa já passou por outro presidente e anunciou recentemente que a advogada Stacy Leeds, integrante da Nação Cherokee e ex-diretora da Faculdade de Direito da Universidade Estadual do Arizona, assumirá o comando da instituição a partir de 1º de julho. Com as dificuldades da universidade para manter o número de matrículas e dos prejuízos operacionais recorrentes, ela enfrentará uma tarefa nada fácil.

Os problemas enfrentados pela Universidade de Tulsa não são incomuns entre as mais de 900 faculdades e universidades privadas sem fins lucrativos dos Estados Unidos que a Forbes analisa e classifica anualmente em termos de saúde financeira. Este ano marca o início de uma redução há muito prevista no número de formandos do ensino médio, resultado da queda na taxa de natalidade observada durante a Grande Recessão de 2008. Esse fenômeno deve provocar uma redução de 13% no número de potenciais calouros.

Esse abismo demográfico ocorre ao mesmo tempo em que dados do Departamento de Educação mostram que estudantes de famílias de renda média, pressionados pelo aumento do custo de vida, estão desistindo de faculdades privadas caras — onde apenas a anuidade pode chegar a US$ 75 mil (R$ 390 mil) — e optando por instituições públicas mais acessíveis ou abandonando completamente a ideia de cursar o ensino superior.

Além disso, novos limites estabelecidos pelo One Big Beautiful Bill Act, do governo Trump, passaram a restringir os empréstimos Parent PLUS a US$ 20 mil por estudante ao ano (R$ 104 mil), enquanto o número de estudantes internacionais matriculados caiu quase 20%. A combinação desses fatores está criando um desafio para os administradores universitários, muitos dos quais possuem pouca experiência em gestão financeira e menos ainda em estratégias de recuperação institucional.

Das 928 faculdades privadas com pelo menos 500 alunos analisadas pela Forbes, mais de 25% receberam nota D, a pior classificação possível. Trata-se do pior resultado desde que a revista começou a avaliar a saúde financeira das instituições, em 2013. Quase metade das instituições analisadas recebeu nota C ou inferior. Ao mesmo tempo, universidades altamente seletivas e de elite, como as integrantes da Ivy League e do ranking Forbes New Ivies, continuam demonstrando força financeira.

Mais de 100 instituições — ou 11% do total —, desde o Pomona College, na Califórnia, até Harvard, MIT e St. Olaf College, em Minnesota, receberam a nota máxima: A+.

Professor que virou especialista em finanças universitárias

O trabalho desenvolvido por Hendricks analisando as finanças da Universidade de Tulsa foi tão revelador e preciso em suas previsões que ele logo começou a oferecer sua metodologia para outras instituições interessadas. “Fiquei realmente chocado ao descobrir algumas universidades que estavam em situação muito pior do que a Tulsa”, afirma Hendricks, hoje com 44 anos.

Inicialmente, ele disponibilizou gratuitamente seu software para professores e ex-alunos de instituições como a Universidade St. Xavier, em Chicago (nota B-), e o Mills College, em Oakland, Califórnia — posteriormente incorporado pela Northeastern University, de Boston, em 2022. À medida que a demanda pela ferramenta cresceu, especialmente entre grandes consultorias especializadas em ensino superior, Hendricks deixou seu cargo de professor no fim de 2022.

Com recursos próprios, criou uma startup chamada Perspective Data Science, operando inicialmente em sua garagem, com o objetivo de analisar as finanças de faculdades e universidades privadas. Até então, ele já havia incorporado a plataforma de inteligência artificial de código aberto Qwen, da Alibaba, treinando-a com demonstrações financeiras auditadas e outros dados específicos do setor universitário, que hoje podem ser processados em tempo real.

Um dos principais indicadores utilizados pela Perspective Data Science, especialmente para faculdades que dependem fortemente das mensalidades dos alunos, é chamado UNAEP (Unrestricted Net Assets Exclusive of Plant). Trata-se de uma medida de liquidez criada para mostrar quanto dinheiro uma instituição realmente possui disponível para cobrir suas despesas anuais, excluindo ativos de baixa liquidez, como dormitórios estudantis e prédios acadêmicos, descontadas também as dívidas associadas a esses ativos.

Esses recursos são, em grande medida, independentes dos fundos doados por benfeitores, que normalmente não podem ser utilizados para custear despesas operacionais, já que costumam ser destinados a programas acadêmicos específicos. A análise da Forbes, baseada em três anos de dados coletados por Hendricks, revela que 192 faculdades privadas operam atualmente com UNAEP negativo.

Muitas delas estão, na prática, insolventes, recorrendo a linhas de crédito ou utilizando recursos de fundos restritos de doadores para pagar salários e manter suas operações funcionando.

Faculdades operando no vermelho

Um exemplo é o Hampshire College, em Massachusetts, uma tradicional instituição de artes liberais com perfil progressista que recebeu nota D no ranking financeiro da Forbes. Após 60 anos de história e ex-alunos de destaque como Ken Burns, Michael Pollan e Lupita Nyong’o, a instituição anunciou recentemente que encerrará suas atividades ao final de 2026.

Seu indicador UNAEP tornou-se negativo em US$ 9 milhões (R$ 46,8 milhões) em 2024, enquanto a universidade registrava perdas operacionais recorrentes e enfrentava dificuldades para honrar US$ 21 milhões em dívidas com títulos (R$ 109,2 milhões).
As demonstrações financeiras auditadas mostram que, a partir de 2021, a instituição passou a utilizar entre 17% e 29% de seu fundo patrimonial reduzido, então avaliado em US$ 26 milhões (R$ 135,2 milhões), para cobrir despesas operacionais e dívidas.

Normalmente, a maioria das universidades limita os saques de seus fundos patrimoniais a 5% ou menos por ano.
Pela legislação conhecida como Uniform Prudent Management of Institutional Funds Act (UPMIFA), qualquer retirada superior a 7% pode ser considerada imprudente e sujeita à investigação por parte das autoridades estaduais.

Pelo menos na última década, a Universidade de Tulsa vem registrando prejuízos operacionais e mantendo um UNAEP negativo.
Em 2025, esse indicador atingiu impressionantes US$ 87 milhões negativos (R$ 452,4 milhões negativos). No entanto, graças ao seu fundo patrimonial de US$ 1,3 bilhão (R$ 6,76 bilhões), financiado principalmente por recursos oriundos da indústria petrolífera, a universidade consegue continuar operando acima de suas possibilidades financeiras.

O patrimônio equivale a aproximadamente US$ 368 mil por aluno em tempo integral (R$ 1,91 milhão por aluno). Assim, mesmo consumindo recursos de fundos doados, a instituição ainda pode sustentar esse modelo por mais uma década ou até mais. O número de alunos da universidade vem diminuindo continuamente, passando de 4.172 em 2020 para 3.475 no ano passado.
Ainda assim, principalmente graças à dimensão de seu patrimônio, a Forbes atribui à Universidade de Tulsa nota B+ em saúde financeira.

A disseminação do que a revista chama de “gastos de insolvência” entre faculdades privadas levou a Forbes a reformular sua metodologia de avaliação financeira. Com o apoio da Perspective Data Science, a publicação passou a incluir em seu sistema de classificação a relação entre a média de três anos do UNAEP e as despesas operacionais.

Esse indicador agora possui peso de 15% na nota final — o maior da metodologia, empatado com a importância atribuída ao patrimônio por aluno em tempo integral. Segundo a Forbes, a nova métrica ajuda a identificar quais instituições operam de forma sustentável e quais estão consumindo seus fundos patrimoniais de maneira irresponsável para sobreviver.

Nada menos que 192 instituições da lista apresentam uma relação negativa entre a média de três anos do UNAEP e suas despesas.
A maioria são pequenas faculdades localizadas fora dos grandes centros urbanos, mas também há universidades conhecidas enfrentando esse problema, como:

  • Bennington College (nota C-), em Vermont;
  • Howard University (nota B), em Washington;
  • Yeshiva University (nota C-), em Nova York;
  • Pace University (nota D), também em Nova York.

“Elas já ficaram sem pista para decolar. Se esse número é negativo e a instituição está perdendo dinheiro, basicamente ela já ficou sem pista para decolar”, afirma Rebeka Mazzone, da FuturEDFinance, consultoria sediada em Providence, Rhode Island, especializada em estratégias de recuperação universitária. “Isso significa que a instituição está pegando dinheiro emprestado de algum lugar sem ter condições de devolver. Se for uma linha de crédito, chegará um momento em que ela estará totalmente utilizada. Também pode significar que a universidade deixou de depositar US$ 10 milhões (R$ 52 milhões) em doações em seu fundo patrimonial.”

O caso Loras College

Um exemplo é o Loras College, universidade católica localizada em Dubuque, Iowa, fundada em 1839 e com 1.151 alunos de graduação. Em sua página inicial, a instituição convida futuros estudantes a “fazer parte de uma comunidade que prospera com autenticidade, transmite acolhimento e mantém integridade inabalável”.

Apesar disso, seus números financeiros contam outra história. O UNAEP negativo cresceu de US$ 33 milhões negativos (R$ 171,6 milhões negativos) para US$ 51 milhões negativos (R$ 265,2 milhões negativos) em apenas um ano, chegando a esse valor em 2025. A universidade também enfrenta:

  • queda no número de matrículas;
  • anos consecutivos de prejuízos operacionais;
  • inadimplência recente junto ao banco MidWestOne.

Mesmo assim, a administração minimiza os chamados riscos de continuidade operacional em suas demonstrações financeiras mais recentes. A liderança da universidade pretende tomar emprestados pelo menos US$ 42 milhões (R$ 218,4 milhões) de seu fundo patrimonial de US$ 60 milhões (R$ 312 milhões) durante o ano fiscal de 2026 — o equivalente a 70% do patrimônio. A expectativa é recompor esses recursos por meio de campanhas agressivas de arrecadação de doações e cortes de custos. “É ridículo”, afirma Mazzone, ex-auditora e ex-diretora financeira de instituições de ensino. “Eles não vão conseguir sair dessa situação arrecadando doações. Não consigo acreditar que ainda estejam aceitando novos alunos. O conselho administrativo deveria ser processado.”

Fechando as portas?

Mazzone acredita que pequenas faculdades que serviram comunidades locais durante gerações começarão a fechar as portas em um ritmo cada vez mais acelerado. Algumas das instituições que figuravam na lista da Forbes no ano passado já desistiram de continuar operando. Entre elas estão:

  • Eastern Nazarene College, em Quincy, Massachusetts;
  • Northland College, em Wisconsin;
  • St. Andrews University, na Carolina do Norte;
  • Limestone University, na Carolina do Sul.

Todas encerraram suas atividades por motivos financeiros. Por que as fusões não são a solução para todos? Se o mercado de ensino superior funcionasse sob condições normais de livre mercado, seria razoável esperar uma onda de fusões ou consolidações entre faculdades de pequeno e médio porte. No entanto, devido ao excesso de instituições oferecendo produtos educacionais muito semelhantes e às estruturas jurídicas complexas das organizações sem fins lucrativos, muitas vezes é mais fácil e menos custoso para as universidades sobreviventes simplesmente absorver os estudantes de instituições que inevitavelmente irão fechar.

Algumas instituições mais fortes financeiramente têm utilizado esse cenário para expandir suas operações. Um dos exemplos mais citados é a Northeastern University (nota B), que ampliou sua presença por meio da incorporação de instituições em dificuldades financeiras. Em 2022, a universidade assumiu o controle do Mills College, adquirindo não apenas suas obrigações financeiras, mas também seu patrimônio, incluindo um fundo patrimonial de US$ 250 milhões (R$ 1,3 bilhão) e um histórico campus de 125 acres em Oakland, Califórnia.

A Northeastern está repetindo a estratégia com a recém-anunciada aquisição do Marymount Manhattan College (nota D), criando a unidade Northeastern New York City. Outro exemplo é a Universidade Vanderbilt (nota A+), de Nashville, que assumirá em 2027 o campus de São Francisco do problemático California College of the Arts (nota D), além de seus valiosos ativos imobiliários.

Infelizmente, não existem instituições suficientes como Northeastern e Vanderbilt para resgatar todas as faculdades em dificuldades. Além disso, segundo Mazzone, quando muitos presidentes universitários finalmente compreendem a gravidade da situação financeira de suas instituições, normalmente já é tarde demais para implementar mudanças capazes de evitar o colapso.

“Não se trata de um problema temporário”, afirma Mazzone. “Estamos diante de um mercado em declínio sustentado e de longo prazo. A maioria dos gestores universitários não possui as habilidades necessárias para administrar uma instituição em um cenário de retração.”

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

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