Quando Ronaldo e Rivaldo levantaram a taça da Copa do Mundo em Yokohama, no Japão, o Brasil ocupava a 13° posição no ranking global de Produto Interno Bruto, o PIB. Na televisão estreou o Big Brother Brasil, que premiava o campeão com R$ 500 mil no ano que o salário mínimo era R$ 200,00.
Nesse cenário, o poder de compra era esmagado pela inflação. O IPCA, (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), fechou o ano em 12,53%, muito diferente de como iniciou – em 0,52% em janeiro. Entre os principais motivos dessa deterioração foi a alta do dólar, que subiu quase 50%.
No início do ano, o câmbio da moeda americana era de R$ 2,30 e em outubro, o dólar marcou R$ 4,00. A alta, impulsionada pelo cenário eleitoral, tinha como principal protagonista o “risco Lula”, que provocou incertezas no mercado sobre dívidas públicas, acordos com o Fundo Monetário Internacional (o FMI), e metas de inflação.
Sem saber como agir, investidores e bancos nacionais tiraram dinheiro do Brasil em massa e a onda de compra de dólares fez o preço da moeda americana explodir.
De acordo com o professor Miguel Huertas, economista e coordenador do curso de Gestão e Negócios da Universidade São Judas, “o Brasil tinha em torno de 35 ou 40 bilhões de dólares de reservas cambiais” e por isso o Banco Central não tinha capacidade para controlar melhor as oscilações do dólar porque a reserva era frágil internacionalmente.
De lá pra cá, e de acordo com dados consolidados de 2025, o Brasil ocupa o 10° lugar no ranking mundial do PIB; o salário mínimo é de R$ 1.621,00; a inflação (IPCA) acumulou alta de 3,93% nos últimos 12 meses e deve fechar o ano controlada dentro da meta de 3%.
Além disso, o Brasil construiu uma blindagem financeira com reservas cambiais robustas na casa dos US$ 355 bilhões, o Banco Central hoje consegue suavizar oscilações bruscas e segurar altas pontuais do dólar injetando moeda diretamente no mercado à vista ou por meio de leilões de swaps cambiais, ferramentas que não existiam com eficiência em 2002.
O pilar da economia brasileira: o boom das commodities
Se no ano do pentacampeonato o Brasil ainda engatinhava na abertura comercial e sofria para equilibrar suas contas externas, as duas décadas seguintes transformaram o país em uma potência global.
O PIB brasileiro saiu de US$ 509 bilhões (R$ 1,2 trilhão) em 2002 para mais de US$ 2,6 trilhões (R$ 13,5 trilhões) projetados para 2026 pelo FMI. Grande parte desse avanço foi sustentada pelo agronegócio e pelo petróleo, beneficiados pelo boom global das commodities que marcou boa parte das últimas duas décadas.
A entrada da China na Organização Mundial do Comércio disparou um apetite por matérias primas que o Brasil tinha para oferecer: soja, minério de ferro e petróleo – os três grandes motores da balança comercial que sustentam o país até hoje.
Atualmente, a China consolidou-se como o principal parceiro comercial. Em 2002, as exportações para o país oriental totalizaram US$ 2,5 bilhões, de acordo com o Comex Brasil, e agora nos cinco primeiros meses do ano, o Brasil acumulou superávit de US$ 32,66 bilhões (R$ 163,3 bilhões). Apenas o comércio com os chineses gerou saldo positivo de US$ 15,5 bilhões (R$ 77,5 bilhões) para o Brasil.
Em 2002, o principal parceiro comercial era os Estados Unidos isolado no topo. Segundo o Comex Stat, o país enviou mais de US$ 15 bilhões para o mercado americano naquele ano, o que representava cerca de um quarto de tudo o que o Brasil exportava.
Por outro lado, hoje os Estados Unidos ocupam o terceiro lugar no top três de parceiros comerciais – atrás da União Europeia, mas mantêm sua relevância invertendo a ordem. Hoje os EUA importam rodutos manufaturados e semi-manufaturados, como aeronaves da Embraer e aço processado.
Em paralelo, o Brasil exportou US$ 14,8 bilhões para a União Europeia no ano do pentacampeonato, desde então o número cresceu e as vendas para o bloco ultrapassaram os US$ 46,2 bilhões para a União Europeia no último ano, segundo o governo.
Além dessas três potências econômicas tradicionais, a grande mudança estrutural nas últimas duas décadas foi a expansão das fronteiras comerciais em direção a novos parceiros estratégicos.
O Brasil diversificou suas exportações abrindo mercados no Oriente Médio, que se tornou um dos principais compradores de proteína animal do país, além de estreitar laços com a Índia e fortalecer o comércio intrazona na América Latina.
Essa receita gerada pelas exportações sustenta o colchão de reservas cambiais de US$ 355 bilhões do Banco Central mas apesar do ganho financeiro que blindou o país, Huertas faz um alerta sobre a natureza desse crescimento: “O Brasil se torna cada vez mais um grande exportador de produtos produtos primários o que não é tão bom do ponto de vista da estrutura econômica”.
Tecnologia: bancarização e Pix
A criação em 2020 e a popularização do Pix operaram uma inclusão bancária incluindo milhões de brasileiros no sistema financeiro nacional e acelerando a velocidade com que o dinheiro troca de mãos na economia.
Pix já é utilizado por mais de 170 milhões de brasileiros, o equivalente a cerca de 80% da população. Em janeiro de 2026, o sistema movimentou mais de 7 bilhões de transações, consolidando-se como o principal meio de pagamento do país, segundo o Banco Central. O sucesso do Pix motivou uma investigação dos Estados Unidos e a recente proposta de sobretaxa punitiva.
Em valor financeiro, o Pix ultrapassou a marca de R$ 3 trilhões em outubro de 2025, montante equivalente a três vezes o PIB mensal brasileiro. O sistema também bateu recorde de uso ao registrar 313,3 milhões de transferências em um único dia, em 5 de dezembro de 2025.
Para o professor Huertas, essa mudança de comportamento foi um dos passos mais importantes do período, embora carregue dualidades para o bolso do consumidor. “Mudou a forma com que as pessoas lidam com dinheiro o que permite um volume maior de compras e maior movimento no comércio. Isso diminuiu o uso do dinheiro físico e promoveu uma mudança também na própria liquidez”, analisa o economista.
Em 2002, apenas cerca de 45,6 milhões de pessoas tinham contas-corrente ativas e o país tinha mais de 70% da população adulta sem qualquer relação com bancos, e como resultado, o dinheiro físico e a informalidade dominavam o comércio.
Hoje, de acordo com o BC, o número de pessoas físicas com relacionamentos ativos no Sistema Financeiro Nacional disparou para 205,9 milhões. Na prática, mais de 96% dos adultos brasileiros possuem pelo menos uma conta bancária ou de pagamentos ativa.