Os indicadores que antecipam os rumos da economia americana apontam para um crescimento mais lento nos próximos meses. Mas há um fator impedindo uma desaceleração mais intensa: a inteligência artificial.
Essa é a principal mensagem dos economistas do The Conference Board, organização responsável pelo Leading Economic Index (LEI), um dos indicadores antecedentes mais acompanhados por investidores, empresas e formuladores de políticas públicas nos Estados Unidos.
Em respostas exclusivas enviadas à Forbes, os economistas Yelena Shulyatyeva, Erin McLaughlin, Justyna Zabinska-La Monica e Tim Brennan afirmam que os sinais vindos do consumidor e da indústria apontam para uma economia mais frágil nos próximos meses. Ao mesmo tempo, uma onda de investimentos em inteligência artificial, centros de dados e infraestrutura energética está ajudando a evitar uma desaceleração mais intensa.
“O LEI está sinalizando condições econômicas frágeis à frente. Investimentos robustos em infraestrutura de IA, data centers e produção de energia provavelmente terão impacto positivo sobre o crescimento e sustentarão os gastos corporativos, mas podem compensar apenas parcialmente a fraqueza observada do lado do consumidor”, afirmaram os economistas.
A instituição projeta crescimento de 1,7% para o PIB americano em 2026, ligeiramente acima da estimativa anterior, de 1,6%.
O indicador que Wall Street acompanha para enxergar o futuro
Fundado em 1916, o The Conference Board é um think tank independente especializado em pesquisa econômica e empresarial. Entre seus principais produtos está o Leading Economic Index (LEI), criado para antecipar pontos de virada da economia americana com cerca de sete meses de antecedência.
O índice reúne dez componentes que costumam se mover antes da atividade econômica, incluindo expectativas dos consumidores, novas encomendas da indústria, mercado de trabalho, crédito, bolsa de valores e juros.
O dado mais recente mostrou uma leve melhora. O LEI avançou 0,1% em abril, para 97,4 pontos, após uma queda de 0,6% em março. Mas o quadro geral continua inspirando cautela.
Nos seis meses encerrados em abril, o indicador acumulou recuo de 0,7%. Embora a queda seja menor do que a observada no semestre anterior, quando o índice recuou 1%, o resultado ainda aponta para um ambiente econômico mais frágil.
“O LEI subiu em dois dos últimos três meses, mas esses ganhos não foram suficientes para compensar a forte queda registrada em março ou a fraqueza observada nos meses anteriores”, disse Justyna Zabinska-La Monica. A próxima divulgação do LEI está prevista para esta semana.
Ao mesmo tempo, os indicadores que medem a situação atual da economia contam uma história diferente. O Coincident Economic Index (CEI), também calculado pelo The Conference Board, avançou 0,3% em abril e acumula alta de 0,8% nos últimos seis meses. Seus quatro componentes, emprego, renda, vendas e produção industrial, registraram contribuições positivas.
A economia americana atual continua relativamente saudável. O problema está nos sinais que apontam para frente.
Os três sinais que mais preocupam o The Conference Board
Os componentes do LEI enviando os sinais mais importantes neste momento, segundo os economistas, são três: expectativas dos consumidores, índice de novas encomendas do ISM e spread de juros. Entre eles, o principal alerta vem do consumidor.
“As expectativas dos consumidores em relação às condições futuras dos negócios têm sido o componente com impacto negativo mais consistente sobre o LEI nos últimos meses e indicam que as famílias continuam cautelosas em relação ao futuro”, afirmam os economistas à Forbes Brasil.
O sinal merece atenção porque o consumo responde por aproximadamente 70% do PIB americano. Segundo os economistas, os preços mais elevados de energia e combustíveis, combinados com um mercado de trabalho menos aquecido, tendem a reduzir o poder de compra das famílias.
“Custos mais altos de gasolina e energia, combinados com contratações mais fracas, provavelmente irão corroer o poder de compra das famílias nos próximos meses, especialmente entre consumidores de renda média e baixa”, disseram à Forbes.
Outro sinal de enfraquecimento vem da indústria. O índice de novas encomendas do ISM, considerado um dos principais termômetros da atividade manufatureira americana, contribuiu negativamente para o LEI em quatro dos últimos seis meses.
“O índice de novas encomendas do ISM também tem pesado sobre o indicador, sinalizando uma demanda mais fraca por bens manufaturados.”
O indicador que os economistas acompanhariam hoje
Se precisassem acompanhar apenas um indicador para avaliar os riscos da economia americana, os economistas apontam a diferença entre os juros dos títulos do Tesouro de dez anos e a taxa básica do Fed. Quando essa diferença diminui ou fica negativa, o mercado costuma sinalizar expectativa de desaceleração econômica e possíveis cortes de juros no futuro.Atualmente, a taxa básica de juros dos Estados Unidos está entre 3,5% e 3,75% ao ano.
Segundo os economistas, o spread de juros ajuda a capturar a relação entre as expectativas de longo prazo do mercado e a política monetária de curto prazo conduzida pelo Federal Reserve.
“O spread de juros é útil porque captura a relação entre as expectativas de longo prazo do mercado e a política monetária de curto prazo. Diante dos acontecimentos recentes, esse indicador se torna particularmente relevante por oferecer sinais sobre preocupações com a inflação, perspectivas para o investimento das empresas e riscos de recessão”.
Embora esse componente seja extremamente importante, os líderes empresariais devem ter cautela para não interpretar excessivamente um único indicador, segundo os economistas. “O sinal é mais forte quando o spread se move na mesma direção dos demais indicadores antecedentes da economia”, diz.
Ainda assim, eles fazem uma ressalva. “Nenhum indicador isolado é tão valioso quanto quando analisado em conjunto com os demais componentes do LEI.”
Desaceleração, mas não recessão
Embora o LEI continue apontando fragilidade, os economistas não enxergam uma recessão como cenário-base. “As leituras atuais do LEI sugerem que uma desaceleração é o resultado mais provável para os próximos seis a doze meses.”
Segundo eles, os sinais mistos explicam essa avaliação. Apesar de oito dos dez componentes do índice terem avançado nos últimos seis meses, os ganhos foram anulados por quedas mais intensas dos demais indicadores.
“Esses sinais mistos tornam um período de crescimento mais lento a interpretação mais razoável para as condições futuras.”
O que os indicadores antecedentes dizem às empresas
Para as empresas, os indicadores antecedentes funcionam como uma ferramenta para antecipar mudanças no ciclo econômico antes que elas apareçam nos resultados financeiros. A principal vantagem é permitir ajustes de estratégia antes que oscilações na demanda sejam refletidas em vendas, receitas ou lucros.
Segundo os economistas ouvidos pelo The Conference Board, quando vários indicadores antecedentes apontam para fortalecimento da atividade econômica, as empresas tendem a acelerar investimentos, ampliar a produção, contratar mais funcionários e reforçar estoques para atender a uma demanda futura maior.
O movimento contrário ocorre quando esses indicadores começam a perder força. Nesse cenário, os sinais macroeconômicos servem como alerta para reduzir gastos discricionários, adiar investimentos considerados não essenciais e preservar caixa.
“Os líderes empresariais podem usar indicadores antecedentes para se antecipar a grandes transições do ciclo econômico”, afirmam os especialistas. “Isso é particularmente importante para o planejamento estratégico e para as decisões de investimento porque permite que as empresas ajam antes que as mudanças na demanda estejam totalmente refletidas nas vendas ou nos lucros.”
Na avaliação dos economistas, o uso desses indicadores torna a tomada de decisão menos reativa e mais estratégica. Em vez de responder apenas aos resultados já observados, as empresas conseguem se posicionar com antecedência para aproveitar períodos de expansão ou se proteger em momentos de desaceleração econômica.
O risco que o mercado pode estar subestimando
Vários riscos econômicos podem estar sendo subestimados pelos investidores, segundo os especialistas. Entre eles estão conflitos geopolíticos capazes de elevar os preços de energia e alimentos, interrupções nas cadeias globais de semicondutores e minerais críticos, guerras comerciais, correções bruscas no mercado acionário, eventos climáticos extremos, riscos cibernéticos e incertezas regulatórias ligadas à inteligência artificial.
“O aprofundamento das guerras comerciais elevaria ainda mais a inflação e reduziria o crescimento real do PIB”, dizem os economistas.
O alerta ganha relevância em um momento em que os Estados Unidos discutem novas tarifas comerciais. As tarifas propostas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros também preocupam economistas por seus possíveis efeitos sobre inflação, crescimento e confiança empresarial. Segundo especialistas que colaboraram com a análise do The Conference Board, as medidas podem reforçar alguns dos sinais de desaceleração já captados pelos indicadores antecedentes da economia americana.
O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) propôs uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros no âmbito de uma investigação da Seção 301, além de uma possível tarifa adicional de 12,5% relacionada a trabalho forçado. Caso ambas sejam implementadas, determinados produtos poderiam enfrentar uma tarifa total de até 37,5%.
Embora as medidas ainda estejam em fase de consulta pública, os economistas avaliam que o impacto tende a ser negativo para a atividade econômica dos Estados Unidos.
“Se as tarifas avançarem, elas poderão aparecer de algumas formas”, afirmam os especialistas. Entre elas estão “leituras mais altas de inflação tanto para consumidores quanto para produtores” e a deterioração da confiança empresarial.
A incerteza em torno das tarifas dificulta decisões corporativas ao complicar “o abastecimento, a formação de preços, os contratos e o planejamento de margens”. Como resultado, empresas tendem a adiar investimentos e adotar uma postura mais cautelosa.
Os efeitos também podem ser sentidos no Brasil. De acordo com os economistas, o país pode enfrentar “queda na demanda por exportações destinadas aos Estados Unidos, pressão sobre margens de lucro e adiamento de investimentos estrangeiros diretos em setores ligados ao comércio”.
Para os especialistas, o principal risco está menos na tarifa em si e mais na incerteza que ela gera para empresas e investidores. Em um cenário em que os indicadores antecedentes já apontam fragilidade na economia americana, medidas que elevam custos e reduzem previsibilidade podem reforçar os sinais de desaceleração observados nos últimos meses.
O que pode dar certo
Apesar dos riscos, o The Conference Board também vê espaço para surpresas positivas. Segundo os economistas, o consumidor americano pode continuar demonstrando resiliência mesmo diante da inflação causada pelas tarifas. A redução das incertezas em torno da política comercial e fiscal também pode destravar investimentos.
Além disso, o foco da atual administração em setores como finanças, criptomoedas e inteligência artificial pode gerar ganhos de produtividade nos próximos anos.
A instituição também destaca o aumento da demanda europeia por equipamentos militares, que pode impulsionar a produção industrial e as exportações americanas em 2026.
Para os economistas, o cenário-base continua sendo de desaceleração. Mas a mensagem mais importante do LEI é que enquanto o consumidor perde força, a inteligência artificial está se tornando um novo motor para a economia americana.