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OpenAI, Anthropic e SpaceX: os IPOs de US$ 3,5 trilhões que vão testar Wall Street

SpaceX, OpenAI e Anthropic podem chegar ao mercado valendo mais de US$ 3,5 trilhões e exigir mais de US$ 200 bilhões dos investidores

7 min

A SpaceX estreia na Nasdaq nesta semana avaliada em US$ 1,77 trilhão. A Anthropic protocolou seu pedido confidencial de IPO em 1º de junho. A OpenAI fez o mesmo nesta semana. Juntas, as três companhias podem chegar ao mercado valendo mais de US$ 3,5 trilhões.

Mais impressionante do que as avaliações é o volume de recursos que essas operações podem exigir.” Juntas, essas três operações podem demandar mais de US$ 200 bilhões dos mercados públicos, ou seja, mais de quatro vezes o que todo o mercado americano de IPOs levantou em 2025, que somou US$ 45 bilhões”, avalia André Matos, CEO da gestora MA7 Capital.

O tamanho das cifras transformou os próximos meses em um teste para Wall Street. Até agora, as avaliações trilionárias dessas empresas foram construídas no mercado privado, financiadas por fundos soberanos, gestoras de venture capital, investidores institucionais e gigantes da tecnologia. Agora será a vez do mercado público dizer se concorda com esses preços.

“O mercado global está diante de um momento sem precedente: potencialmente, três das empresas mais transformadoras da história recente devem abrir praticamente simultaneamente suas portas ao capital público”, afirma Antonio Patrus, diretor da Bossa Invest, gestora de venture capital com centenas de investimentos em startups.

Segundo ele, os investidores não estarão avaliando apenas empresas de tecnologia. “Quando e se esses IPOs se concretizarem, será a primeira vez que os investidores públicos terão acesso direto à infraestrutura cognitiva central da economia do século 21.”

A IA vira uma classe de ativos

Para o CEO da MA7 Capital, o mercado enxerga esse conjunto de operações como um marco para a inteligência artificial. “O mercado lê esse movimento como a consolidação da inteligência artificial como uma classe de ativos por si só”, afirma.

Na avaliação dele, a escala das ofertas chama atenção não apenas pelos valores envolvidos, mas pelo peso crescente que empresas ligadas à inteligência artificial passaram a ocupar nos portfólios globais.

Ao mesmo tempo, o avanço das avaliações reacende discussões sobre concentração de risco e excesso de otimismo. SpaceX, Anthropic e OpenAI chegam ao mercado com valores próximos ou superiores a US$ 1 trilhão, patamar raramente visto mesmo entre as maiores empresas do mundo.

Para Matos, o momento exige cautela. “É um divisor de águas para os mercados de capitais globais e, justamente por isso, exige que o investidor avalie sua alocação com critério, sem se deixar levar pelo entusiasmo coletivo.”

Não é uma disputa por aplicativos

Para Pablo Alencar, sócio-diretor da gestora de venture capital Valor Capital, a corrida da inteligência artificial entrou em uma fase em que infraestrutura pesa tanto quanto software.

A rodada que levou a Anthropic a uma avaliação de US$ 965 bilhões é um exemplo dessa mudança. Entre os investidores estão Amazon, Google, Microsoft Azure, Samsung, SK Hynix e Micron.

“Quando empresas assim investem, não estão apostando num produto. Estão reconhecendo uma plataforma”, afirma.

A lista reúne alguns dos principais fornecedores globais de computação em nuvem, memória avançada e infraestrutura tecnológica. Para Alencar, isso mostra que a disputa atual envolve capacidade computacional, energia, chips e data centers, elementos que sustentam o funcionamento dos modelos de inteligência artificial em larga escala.

O avanço da demanda por infraestrutura já começa a produzir contratos de dimensões inéditas. Na semana passada, a SpaceX informou ao mercado um acordo de longo prazo com o Google para fornecimento de capacidade computacional que pode superar US$ 30 bilhões ao longo da vigência do contrato. O negócio reforça a percepção de que empresas ligadas à computação, conectividade e processamento de dados passaram a ocupar uma posição tão estratégica quanto os próprios desenvolvedores de inteligência artificial.

A Anthropic, por exemplo, fechou acordos bilionários de longo prazo com provedores de infraestrutura e fabricantes de tecnologia. O foco deixou de estar apenas no desenvolvimento dos modelos e passou a incluir os recursos necessários para operá-los em escala global.

De onde virá o dinheiro?

Se a primeira questão é quanto essas empresas valem, a segunda é quem financiará ofertas dessa magnitude. Cassio Viana de Jesus, executivo de Investimentos e Novos Negócios da Pilar Capital, chama atenção para o efeito que essas aberturas de capital podem provocar na alocação global de recursos.

A última pesquisa de gestores do Bank of America mostrou que a posição média de caixa caiu para 3,9% em maio, abaixo do patamar historicamente associado a um sinal de venda para ações globais.

Em um ambiente com pouca liquidez disponível, muitos investidores precisarão reduzir posições em outros ativos para aumentar exposição às novas ofertas.

“Uma sequência de IPOs dessa magnitude tende a disputar recursos com outras teses já existentes”, afirma Viana.

Segundo ele, mercados emergentes como o Brasil podem sentir os efeitos dessa disputa por capital. Se parte dos recursos globais migrar para SpaceX, Anthropic e OpenAI, ativos de outros países podem perder espaço temporariamente nas carteiras dos investidores internacionais.

Para Antonio Patrus, o impacto também pode aparecer no câmbio e na Bolsa brasileira. “No curto prazo, IPOs dessa magnitude podem drenar liquidez global e fortalecer o dólar, pressionando o real. No médio prazo, o valuation que o mercado atribuir a essas empresas definirá o múltiplo de toda a indústria de tecnologia.”

O investidor quer chegar antes do IPO

Os IPOs de OpenAI, Anthropic e SpaceX também expõem uma mudança que vem transformando o mercado de tecnologia nos últimos anos: boa parte da criação de valor passou a acontecer antes da estreia na Bolsa.

Nos Estados Unidos, a idade mediana das empresas no momento do IPO passou de seis anos em 1980 para 11 anos em 2021, segundo dados da Nasdaq. No mesmo período, o valor mediano de mercado das companhias na abertura de capital saltou de US$ 105 milhões para US$ 1,33 bilhão.

O resultado é que investidores de varejo passaram a acessar empresas já muito mais maduras e, muitas vezes, depois que uma parcela relevante da valorização foi capturada por fundos de venture capital, investidores institucionais e grandes fortunas.

Esse cenário abriu espaço para plataformas que tentam ampliar o acesso a empresas privadas. A Bossa Investimentos prepara o lançamento da Platta, estrutura de investimento participativo que permitirá aportes a partir de R$ 1 mil em empresas previamente selecionadas pela gestora.

“O investidor brasileiro está cada vez mais sofisticado devido ao acesso à informação. A questão não é vender acesso como atalho, mas criar uma estrutura regulada para que ele entenda a tese, o risco, o prazo e a forma real de exposição antes de tomar uma decisão”, afirma João Pedro do Val, diretor da Bossa Investimentos.

Segundo Paulo Tomazela, CEO da Bossa Investimentos, o avanço dessas estruturas exige transparência sobre os riscos envolvidos. “O investidor precisa saber se está entrando em uma participação direta, em um veículo intermediário ou em uma tese relacionada, porque essa diferença muda risco, liquidez e expectativa de retorno.”

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