1. Início
  2. /
  3. Forbes Money
  4. /
  5. Copa do Mundo Mobiliza R$ 1,8 Bilhão para Impedir Ataques de Drones
Forbes Money

Copa do Mundo Mobiliza R$ 1,8 Bilhão para Impedir Ataques de Drones

Com investimento de US$ 365 milhões (R$ 1,825 bilhão) em segurança antidrone, o Mundial de 2026 servirá como teste para a capacidade dos EUA de proteger grandes eventos contra uma ameaça cada vez mais presente

8 min

A Copa do Mundo de 2026 será um teste de US$ 365 milhões (R$ 1,825 bilhão) para os sistemas dos Estados Unidos destinados a proteger estádios lotados contra drones, que vêm transformando a guerra moderna e se tornando uma ameaça crescente à segurança doméstica.

Durante o torneio deste ano, enquanto os torcedores acompanham os jogadores em campo, empresas como Ondas Holdings e Fortem Technologies estarão observando os céus.

A competição não será apenas uma disputa pela supremacia no futebol. Também será um importante teste para avaliar se os Estados Unidos conseguem proteger estádios lotados de uma ameaça de segurança em rápida evolução: drones baratos, ágeis e autônomos, que mudaram a dinâmica dos conflitos na Ucrânia e no Irã.

Em estádios como o MetLife Stadium, em Nova Jersey, e o AT&T Stadium, em Dallas, radares da startup Fortem, sediada em Utah, monitorarão o céu em busca de atividades suspeitas. Caso um drone desconhecido sobrevoe a área, a empresa lançará o que chama de DroneHunter, equipamento projetado para perseguir o alvo e disparar uma rede capaz de capturá-lo em pleno voo. Em seguida, o drone pode ser trazido ao solo por meio de um cabo ou paraquedas, permitindo que as autoridades o recuperem como evidência.

Em diferentes regiões dos Estados Unidos, incluindo Califórnia, Massachusetts e Flórida, a empresa de tecnologia de defesa Ondas, avaliada em US$ 6,7 bilhões (R$ 33,5 bilhões), planeja implantar seu sistema Sentrycs para proteger locais com grande concentração de público contra drones hostis. Diferentemente dos sistemas tradicionais de interferência de sinal, que podem afetar rádios policiais e comunicações próximas, o Sentrycs monitora passivamente a conexão de rádio entre o drone e seu operador para identificar a aeronave e determinar sua origem. Caso o equipamento seja considerado suspeito ou ameaçador, o sistema pode assumir o controle do piloto automático e conduzi-lo a uma área de pouso designada.

Investimento federal

As duas empresas possuem contratos multimilionários com o governo federal para proteger os estádios da Copa do Mundo. Ao todo, o governo dos EUA está destinando US$ 365 milhões (R$ 1,825 bilhão) à segurança focada em drones nos 104 jogos que serão realizados nos Estados Unidos, Canadá e México.

Desse total, US$ 250 milhões (R$ 1,25 bilhão) virão da Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA) para os 11 estados americanos que receberão partidas do torneio. Outros US$ 115 milhões (R$ 575 milhões) serão destinados pelo Departamento de Segurança Interna (DHS) à tecnologia antidrone nos locais dos jogos.

“Atividades não autorizadas de drones representam sérios riscos à segurança da aviação, às operações das forças de segurança, aos esforços de resposta a emergências e à proteção dos participantes”, afirmou um porta-voz do DHS à Forbes. Segundo ele, o aumento dos investimentos busca “combater de forma agressiva o uso ilegal de drones que colocam em risco a segurança do povo americano”.

A Fifa não respondeu aos pedidos de comentário da Forbes.

O que funcionar durante a Copa poderá influenciar a forma como os Estados Unidos protegerão futuros eventos de grande porte, incluindo as comemorações dos 250 anos da independência do país e os Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028.

“Se você atua neste setor, a maior surpresa é que ainda não tivemos um evento equivalente ao 11 de Setembro”, afirma Eric Brock, 55 anos, CEO da Ondas. “Temos um país enorme, com vulnerabilidades gigantescas que simplesmente não existiam há apenas 12 meses.”

Uma ameaça crescente

Na Ucrânia e no Irã, drones de baixo custo tornaram ataques mais precisos e fáceis de executar. A Rússia os utilizou para matar centenas de civis na Ucrânia, enquanto o Irã empregou a tecnologia para atingir bases militares e instalações de petróleo no Golfo.

Em março, jogadores e integrantes da equipe de apoio de um torneio da ATP nos Emirados Árabes Unidos precisaram deixar o local após um ataque de drones iranianos provocar um incêndio em um terminal de petróleo próximo.

A proposta orçamentária mais recente do Pentágono reforça a urgência do tema, reservando mais de US$ 74 bilhões (R$ 370 bilhões) para gastos relacionados a drones.

“Quando o Irã ataca infraestrutura civil e isso aparece no noticiário da televisão, toda a população passa a pensar sobre o assunto”, diz Jon Gruen, CEO da Fortem. “Essa pressão política e essa preocupação elevaram a prioridade do tema a um ponto em que os responsáveis por grandes eventos sabem que precisam agir preventivamente, em vez de apenas torcer para que nada aconteça.”

Durante anos, os drones estiveram sujeitos a legislações originalmente criadas para aeronaves convencionais, incluindo a Lei de Sabotagem de Aeronaves, que tornava ilegal para a maior parte das forças de segurança danificar, desativar ou derrubar qualquer objeto voando no espaço aéreo americano.

Somente em dezembro do ano passado uma nova legislação concedeu a agentes estaduais e locais treinados a autoridade para detectar e neutralizar drones considerados ameaçadores durante grandes eventos e em locais de alto risco, como aeroportos.

“Até agora, se você estivesse em um estádio da NFL e visse um drone carregando uma bomba, as regras impediam qualquer ação”, afirma Brock. “Isso é inaceitável.”

Mercado em expansão

Alguns legisladores acreditam que o governo precisa de mais ferramentas para enfrentar a próxima geração de ameaças. O deputado Michael McCaul, do Texas, que lidera uma nova força-tarefa de Segurança Interna responsável pelos preparativos para grandes eventos, apresentou recentemente o projeto Guard the Skies Act.

Se aprovado, o texto dará à Guarda Nacional autoridade para responder a ameaças mais sofisticadas, incluindo drones equipados com armas químicas.

A mudança regulatória também acelerou o crescimento do mercado de tecnologias antidrone. A DroneShield, empresa de capital aberto avaliada em US$ 3 bilhões (R$ 15 bilhões), afirma que seus sistemas conseguem monitorar amplas áreas em busca da presença de drones. A tecnologia será utilizada em Kansas City para supervisionar o espaço aéreo urbano de baixa altitude durante as partidas do torneio.

No início deste mês, a Motorola Solutions concordou em pagar US$ 1,5 bilhão (R$ 7,5 bilhões) pela israelense D-Fend Solutions, cuja tecnologia é capaz de assumir o controle de drones por meio da interceptação de seus sistemas de piloto automático.

Gruen, de 51 anos, trabalhou com sistemas aéreos não tripulados ainda como integrante dos Navy SEALs antes de passar mais de uma década na Lockheed Martin. Sob sua liderança, o DroneHunter da Fortem foi implantado em bases militares americanas no Oriente Médio e utilizado na Ucrânia. Em abril, a empresa recebeu um investimento de US$ 25 milhões (R$ 125 milhões) da Lockheed Martin para ampliar sua capacidade de produção. Segundo a PitchBook, a companhia está avaliada em US$ 288 milhões (R$ 1,44 bilhão).

A Ondas atua principalmente na fabricação de sistemas de comunicação sem fio para ferrovias. No entanto, a guerra na Ucrânia evidenciou a rapidez com que drones podem se tornar armas centrais nos conflitos modernos. Segundo Brock, isso levou a empresa a investir em tecnologias antidrone, incluindo a aquisição da Sentrycs, em novembro, por US$ 225 milhões (R$ 1,125 bilhão).

O software da startup israelense, fundada em 2017 por dois ex-integrantes da unidade de elite 8200 das Forças de Defesa de Israel, é o núcleo da plataforma de defesa contra drones da Ondas, que também inclui drones equipados com redes e sistemas de mísseis utilizados no Oriente Médio.

Mesmo que a Copa do Mundo consiga evitar qualquer ataque com drones, Brock afirma que isso não significará que o problema foi resolvido. Segundo ele, mesmo após os avanços regulatórios, proteger o espaço aéreo ao redor de estádios, aeroportos e centros de dados exigirá anos de investimentos em infraestrutura e treinamento das forças de segurança.

O Mundial acelerou esse processo, mas esperar por uma tragédia pode mudar a percepção de segurança do público em grandes eventos.

“Não queremos começar esse trabalho depois que um incidente grave acontecer”, afirma. “Ninguém vai querer voltar a um estádio até que essa ameaça seja mitigada. Isso muda tudo.”

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.