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Tecnologia Não Substitui Histórias: a Visão do Presidente da Disney para o Futuro do Entretenimento

Na primeira entrevista concedida por Martín Iraola a um veículo brasileiro desde que assumiu a presidência regional da Disney, o executivo fala sobre streaming, conteúdo local, e os planos para ampliar presença na América Latina

10 min


Poucas marcas ocupam um espaço tão presente no imaginário dos brasileiros quanto a Disney. Todos os anos, milhares de famílias do país visitam os parques da companhia em Orlando, um dos destinos internacionais mais populares entre turistas brasileiros. Ao mesmo tempo, filmes como Divertida Mente 2 quebram recordes de bilheteria e personagens criados há décadas continuam atravessando gerações. Ainda que a América Latina não tenha um parque da Disney e, segundo o presidente da companhia na região, não haja planos conhecidos para isso, a empresa busca ampliar sua presença por outros caminhos: do streaming às experiências presenciais, passando pela produção de conteúdo local.

O argentino Martín Iraola conhece essa transformação de perto. Há 34 anos na companhia e presidente da Disney América Latina desde dezembro de 2025, ele acompanhou a evolução de uma empresa que nasceu quando o entretenimento era essencialmente analógico. Os desenhos eram feitos à mão, a internet comercial sequer existia e os parques ocupavam um papel central na relação entre o público e as marcas.

Desde então, a indústria foi reinventada diversas vezes. Vieram a TV por assinatura, os videogames, a internet, as redes sociais, os smartphones, o streaming e, mais recentemente, a inteligência artificial. Poucas empresas atravessaram tantas revoluções tecnológicas mantendo relevância global quanto a Disney.

Mais do que acompanhar essas mudanças, a companhia aprendeu a transformar histórias em um ecossistema de negócios que vai muito além das telas. Personagens e franquias se converteram em produtos de consumo, espetáculos ao vivo, experiências imersivas, licenciamentos e parcerias com empresas de diferentes setores. O objetivo, segundo Iraola, permanece o mesmo: criar conexões emocionais duradouras com o público.

Para o executivo, a explicação para essa longevidade não está na tecnologia em si, mas na capacidade de adaptação sem perder a essência. “Adaptabilidade” é a característica que ele considera mais importante para um líder atualmente. Mas, em uma era obcecada por velocidade, faz um alerta pouco comum: rapidez não pode substituir profundidade.

A reflexão ajuda a entender como a Disney enxerga o futuro. Enquanto empresas disputam espaço na corrida pela inteligência artificial, a gigante do entretenimento continua apostando em um ativo que considera insubstituível: histórias capazes de criar conexões emocionais com o público.

Em entrevista exclusiva à Forbes Brasil durante o Rio2C – a primeira concedida por Iraola a um veículo brasileiro desde que assumiu a presidência regional -, o executivo falou sobre a estratégia da companhia para a América Latina, o papel do Brasil dentro da operação, os investimentos em experiências e conteúdo local, os desafios da inteligência artificial e as características que considera essenciais para liderar uma empresa centenária em um período de transformação acelerada.

Forbes Brasil: Qual é hoje a maior aposta da Disney e quais são as principais estratégias para a América Latina?
Martín Iraola: A estratégia da Disney hoje está apoiada em dois grandes pilares. De um lado, temos nossos negócios tradicionais, como cinema, entretenimento ao vivo, teatro, produtos de consumo e outras experiências ligadas às nossas marcas. Do outro, temos o universo digital, liderado pelo Disney+ e pelo streaming. Esses dois mundos estão cada vez mais conectados. A força da Disney está nas suas marcas – Disney, Pixar, Marvel, Star Wars e National Geographic – e em como elas transitam entre o mundo físico e o digital. Nosso foco é continuar expandindo os negócios tradicionais e, ao mesmo tempo, acelerar o crescimento do Disney+, que segue em fase de expansão e investimento.

Forbes Brasil: O Brasil é o principal mercado da Disney na América Latina?
Martín Iraola: Sim. Hoje o Brasil representa aproximadamente 30% de todos os negócios da Disney na América Latina. Estamos falando de um mercado extremamente relevante dentro de uma região composta por 22 países. A escala do Brasil e a relação que os consumidores brasileiros têm com nossas marcas fazem do país uma peça fundamental para a companhia.

Hoje o Brasil representa aproximadamente 30% de todos os negócios da Disney na América Latina. Estamos falando de um mercado extremamente relevante dentro de uma região composta por 22 países.

Forbes Brasil: O que explica essa relevância do Brasil para a Disney?
Martín Iraola: Existe uma conexão muito especial entre a Disney e o público brasileiro. No turismo, o Brasil está entre os principais mercados para nossos parques em Orlando. No cinema, muitos dos maiores sucessos da história do país vieram dos nossos estúdios. Divertida Mente 2, por exemplo, tornou-se o filme de maior público da história do Brasil, com cerca de 22 milhões de espectadores em 2024. Essa relação emocional construída ao longo de décadas ajuda a explicar a força da Disney no país.

Animação foi sucesso de bilheteria, com cerca de 22 milhões de espectadores em 2024

Forbes Brasil: Qual é o negócio mais forte da Disney no Brasil?
Martín Iraola: É difícil apontar apenas um. Temos um negócio muito forte de cinema, uma operação muito relevante de streaming e um mercado expressivo de produtos de consumo. Além disso, existem áreas que talvez não tenham o maior peso em receita, mas possuem enorme valor de marca. O entretenimento ao vivo é um exemplo. São experiências que criam memórias duradouras e fortalecem o vínculo emocional com nossos personagens e histórias.

Forbes Brasil: Onde a Disney está investindo mais no Brasil: conteúdo, streaming ou experiências?
Martín Iraola: Em todas essas áreas. Nas experiências, queremos ampliar cada vez mais os eventos ao vivo. Assim como acontece com o cinema, essas experiências criam memórias duradouras e fortalecem a relação das pessoas com as nossas marcas. No streaming, estamos vivendo uma nova fase de investimentos em conteúdo local. Inclusive, nossa presença no Rio de Janeiro nesta semana está relacionada ao Rio2C, um dos principais eventos de conteúdo da região. Estamos ampliando significativamente nossa produção local. Nos próximos meses, nossa meta é chegar a cerca de 12 produções por ano, entre séries e outros formatos. Realizamos um evento para apresentar essa estratégia à comunidade criativa brasileira. Tivemos uma recepção muito positiva e nos sentimos honrados com o interesse e a receptividade dos criadores locais.

Forbes Brasil: Por que a Disney decidiu apostar mais em produções locais?
Martín Iraola: O Brasil possui uma comunidade criativa extraordinária. Existe uma oportunidade enorme de conectar a Disney ao talento criativo brasileiro e contar histórias que tenham relevância local e potencial global. Já trabalhamos com grandes talentos brasileiros e atualmente estamos desenvolvendo projetos com Carlos Saldanha, que considero uma das mentes mais brilhantes do cinema mundial.

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O Brasil possui uma comunidade criativa extraordinária. Existe uma oportunidade enorme de conectar a Disney ao talento criativo brasileiro e contar histórias que tenham relevância local e potencial global.

Forbes Brasil: A Disney está utilizando inteligência artificial? Como você vê o desenvolvimento dessa tecnologia?
Martín Iraola: A inteligência artificial é algo que veio para ficar e pode ser extremamente positiva, mas deve ser utilizada com responsabilidade. O primeiro aspecto que precisamos proteger é a criação artística, a propriedade intelectual e o trabalho dos criadores. A IA apresenta uma dualidade: por um lado, oferece oportunidades importantes para a criatividade e para as propriedades intelectuais; por outro, exige limites claros para garantir o respeito às obras e aos seus autores. Por isso, acreditamos que a inteligência artificial deve continuar sendo incorporada aos processos, mas sempre com muito cuidado e responsabilidade.

Forbes Brasil: Como você vê o futuro do entretenimento?
Martín Iraola: O futuro depende da qualidade das histórias que contamos. A Disney nasceu em 1923 e hoje é uma das poucas empresas de entretenimento presentes no índice Dow Jones. Isso demonstra a relevância do que fazemos, tanto para o mercado quanto para os consumidores. Enquanto continuarmos sendo relevantes para as famílias e para as comunidades que atendemos, continuaremos crescendo. A tecnologia continuará evoluindo, mas o elemento central seguirá sendo o storytelling. O futuro está na capacidade de contar grandes histórias e na paixão dos criadores que dão vida a essas histórias.

A tecnologia continuará evoluindo, mas o elemento central seguirá sendo o storytelling. O futuro está na capacidade de contar grandes histórias e na paixão dos criadores que dão vida a essas histórias.

Forbes Brasil: Como você definiria seu estilo de liderança?
Martín Iraola: Eu diria que é baseado em proximidade, confiança e colaboração. Estou há 34 anos na Disney. Comecei muito jovem e fui aprendendo com diferentes líderes ao longo da minha trajetória. Meu estilo evoluiu com o tempo e também reflete minha personalidade. Gosto muito de trabalhar com pessoas. Em inglês, costumo dizer que sou um people person. Procuro liderar por meio da confiança, da proximidade e do desenvolvimento das equipes, mas sempre com clareza sobre a responsabilidade de liderar, tomar decisões e definir direções.

Forbes Brasil: Qual característica é indispensável para um líder atualmente?
Martín Iraola: Adaptabilidade. O ritmo das mudanças é cada vez mais acelerado. Precisamos aprender mais rápido, nos adaptar mais rápido e tomar decisões mais rapidamente. Mas existe um ponto importante: velocidade não pode significar superficialidade. Empresas que desejam permanecer relevantes por décadas precisam combinar agilidade com profundidade de análise.

Velocidade não pode significar superficialidade. Empresas que desejam permanecer relevantes por décadas precisam combinar agilidade com profundidade de análise.

Forbes Brasil: Qual foi a decisão mais difícil que você tomou como presidente da Disney América Latina?
Martín Iraola: Todos os mercados possuem seus desafios e suas oportunidades. Na América Latina, e especialmente em países como o Brasil, existe uma realidade socioeconômica complexa. Nosso objetivo é fazer com que as histórias que contamos cheguem ao maior número possível de pessoas. Nem todos têm o mesmo nível de acesso ao entretenimento e essa é uma questão importante para nós. A grande vantagem é que a maior parte dos profissionais que trabalham na Disney América Latina são latino-americanos. Somos brasileiros, mexicanos, argentinos e entendemos profundamente nossas culturas, desafios e características locais. Buscamos adaptar a companhia a essa realidade e responder às necessidades dos mercados onde atuamos.

Forbes Brasil: Por que não existe um parque da Disney no Brasil ou na América Latina?
Martín Iarola: Não sei. Eu também me faço essa pergunta.

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