Durante anos, a indústria financeira apostou que as carteiras digitais se tornariam o centro da vida financeira dos consumidores. A lógica parecia inevitável: concentrar pagamentos, transferências, crédito e investimentos em um único aplicativo. Foi o que aconteceu na China com Alipay e WeChat Pay. Na Argentina, o Mercado Pago seguiu caminho semelhante e se transformou em um dos principais instrumentos de pagamento do país. O Brasil, porém, seguiu uma rota diferente.
Em vez de uma empresa privada ocupar o papel de plataforma dominante, foi o Banco Central quem construiu a infraestrutura capaz de conectar todo o sistema financeiro. O lançamento do Pix, em 2020, criou uma espécie de “camada universal” de pagamentos, acessível a qualquer banco ou fintech.
O Pix se tornou um dos principais responsáveis pela redução do uso de dinheiro em espécie no país e colocou o Brasil entre os mercados mais digitalizados do mundo em meios de pagamento. Mas, ao mesmo tempo, reduziu o espaço para que as carteiras digitais assumissem o protagonismo observado em outros países.
“Existem carteiras digitais no mercado brasileiro, mas elas não têm a mesma popularidade que em outros países”, afirma Juan Pablo D’Antiochia, gerente-geral de Enterprise da Global Payments para a América Latina. “Na Argentina, por exemplo, as carteiras digitais já ultrapassam 50% do uso pelo consumidor para fazer pagamentos.”
A comparação ajuda a entender a singularidade brasileira. Enquanto em muitos mercados as wallets surgiram para preencher falhas da infraestrutura bancária, no Brasil o Pix resolveu boa parte dessas deficiências.
Na América Latina, as wallets ainda respondem por apenas 16% dos pagamentos em lojas físicas, abaixo da média global de 33%. Apesar disso, o mercado regional deve crescer a uma taxa anual composta de 11% até 2030. No caso brasileiro, especialistas acreditam que a oportunidade está na convergência entre Pix, Open Finance e agregação de contas. A ideia é simples: em vez de competir com os bancos, as carteiras digitais podem se transformar em um painel único para acessar diferentes instituições financeiras. “Uma hipótese para as carteiras digitais no Brasil é se tornar uma fonte de Pix, permitindo debitar de diferentes contas bancárias sem que o usuário precise abrir vários aplicativos”, afirma D’Antiochia.
É justamente nessa direção que o Google Pay vem evoluindo. A carteira digital passou a incorporar o Pix à mesma experiência de pagamento já utilizada para cartões, permitindo que o usuário escolha, no momento da compra, se deseja pagar com cartão ou via Pix, sem precisar sair do aplicativo ou abrir o app do banco. A integração também permite selecionar a conta bancária vinculada para realizar a transferência, tornando a carteira uma interface única para diferentes instituições financeiras. “Nossa visão de longo prazo vai além dos cartões tradicionais. Ao integrarmos também o Pix de forma nativa e fluida ao ecossistema, garantimos que o consumidor tenha a mesma experiência ágil e sem fricção em qualquer método de pagamento que ele escolha utilizar”, diz Willian Ferreira, head de parcerias do Google Pay.
A força do cartão em tempos de juros altos
Se o Pix explica por que as carteiras digitais não dominaram o mercado, os juros elevados ajudam a entender por que os cartões continuam tão relevantes. A decisão mais recente do Copom manteve a taxa Selic em 14,25% ao ano, reforçando uma característica histórica do mercado brasileiro: o cartão de crédito continua funcionando como instrumento de financiamento para milhões de consumidores.
Dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) mostram que as transações com cartões de crédito, débito e pré-pagos movimentaram R$ 1,1 trilhão no primeiro trimestre de 2026, alta de 8,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. O crédito foi o principal motor desse crescimento. Sozinho, respondeu por R$ 810,2 bilhões em transações, avanço de 12,8%.
A explicação passa pelo parcelamento sem juros, um hábito profundamente enraizado no consumo brasileiro. No início deste ano, 43,2% do valor movimentado no crédito veio de compras parceladas.
Trata-se de um benefício que o Pix não oferece e que as carteiras digitais ainda não conseguiram substituir de forma eficiente. O resultado é um mercado no qual diferentes meios de pagamento convivem e se complementam, em vez de um substituir o outro.
Se as carteiras digitais ainda não conquistaram o protagonismo esperado, isso não significa que a digitalização esteja desacelerando. O pagamento por aproximação tornou-se um dos hábitos mais disseminados entre os consumidores brasileiros. Segundo a Abecs, o volume movimentado por NFC alcançou R$ 504,8 bilhões no primeiro trimestre de 2026, crescimento de 19,3% na comparação anual.
Atualmente, 74,8% de todas as compras presenciais feitas com cartões já ocorrem por aproximação. Pesquisa realizada pela entidade em parceria com o Datafolha mostra que 72% da população utiliza essa modalidade, e 64% o fazem com frequência.
A lição do Mercado Pago
No mercado argentino, as carteiras digitais se tornoram uma peça central do sistema financeiro. No Brasil, a empresa opera em um ambiente onde o Pix já oferece parte da conveniência que impulsionou a expansão das wallets em outros países.
Ainda assim, a companhia vê espaço para crescimento. Um exemplo vem do turismo. Segundo levantamento da empresa, 70% dos turistas argentinos utilizaram Pix pelo celular durante visitas ao Brasil. O dado mais revelador é que oito em cada dez afirmaram ter deixado o cartão físico de lado durante a viagem.
Para o Mercado Pago, o avanço das carteiras digitais depende menos da tecnologia e mais da construção de hábitos. Hoje, usuários da plataforma já conseguem realizar pagamentos por aproximação, inclusive com Pix, sem precisar abrir o aplicativo. A aposta é que a conveniência seja capaz de transformar o celular em uma carteira digital completa.