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Por Que a Embraer Fechou Negócio com a Abra – e o Que Isso Diz sobre a Estratégia da Fabricante Brasileira

Acordo com a controladora da Gol e da Avianca reforça a posição da Embraer no maior avião da sua linha e mostra o apetite da América Latina por renovar frotas

5 min


Por trás de todo pedido de avião existe uma lógica de negócio, e o anúncio da Embraer nesta terça-feira em Farnborough não foge à regra. À primeira vista, é só mais um contrato: até 45 aviões do modelo E195-E2 para o Grupo Abra, que controla a Gol, a Avianca e a Wamos Air. Mas o que está por trás do acordo importa mais do que o número de aviões.


Um cliente que aposta no maior avião da Embraer

O E195-E2 é o maior avião que a Embraer fabrica, e é justamente nesse tamanho que a empresa tenta provar que consegue competir com os aviões menores da Airbus e da Boeing, sem perder a eficiência que é a marca registrada dos seus modelos regionais.

Para Gabriel Cecco, especialista da Valor Investimentos, o dado que mais chama atenção é justamente o perfil do comprador. Segundo ele, o anúncio é relevante “principalmente pela qualidade do cliente” – um grupo que reúne Gol e Avianca sob o mesmo controle. Cecco destaca que o negócio se divide entre um pedido firme de 20 aeronaves, mais 10 opções e 15 direitos de compra, podendo chegar às 45 unidades, com as primeiras entregas previstas para o fim de 2027 e a parte garantida do contrato entrando na carteira da Embraer no terceiro trimestre, após o cumprimento de condições contratuais.


Mais do que vender aviões: conquistar um cliente da concorrência

O que mais pesa nessa conta, segundo Cecco, não é o número de unidades, mas o histórico do comprador. Ele observa que a Embraer conquista um cliente que, historicamente, voa quase só com aviões da Boeing e da Airbus, dois fabricantes que, nas palavras do especialista, por muito tempo dividiram o mercado praticamente sozinhos. Isso valida, segundo ele, a estratégia da Embraer de oferecer um jato mais eficiente para rotas de média demanda, permitindo que companhias aéreas aumentem a frequência de voos e abram novos mercados com menor custo operacional, o que, segundo Cecco, já vem mudando a forma como essas rotas são geridas pelas próprias empresas.


Mais do que crescimento: um movimento de padronização

O Grupo Abra não é um comprador qualquer. Ao reunir Gol, Avianca e Wamos Air sob o mesmo controle, a holding sinaliza que quer padronizar a frota entre companhias que hoje voam em mercados diferentes – Brasil, Colômbia e rotas europeias, no caso da Wamos. Ter o mesmo modelo de avião em todas elas reduz custos de manutenção, treinamento de tripulação e peças de reposição. Mas isso também exige um fabricante capaz de entregar em escala e dar suporte técnico em vários países ao mesmo tempo.
Fabio Louzada, economista e fundador da B7 Business School, reforça esse ponto sob outro ângulo: para ele, o anúncio marca a primeira encomenda do Grupo Abra à Embraer, o que abre espaço para uma relação comercial que pode se aprofundar com o tempo, e que já nasce alinhada à estratégia de expansão do grupo aéreo na América Latina.


O momento escolhido não é acaso

O anúncio não veio sozinho. Na mesma feira, a Embraer fechou outros três negócios: com a espanhola Binter, a luxemburguesa Luxair e a americana Azorra, que já tinha comprado aviões da Embraer em junho. Reunir vários anúncios num único evento é estratégico: feiras como Farnborough servem para mostrar ao mercado que a fila de pedidos está crescendo, o que costuma melhorar a forma como investidores enxergam o risco e o valor da empresa.


O que o negócio representa para a Embraer

Os dois especialistas convergem num ponto: o principal ganho do acordo não é o valor da venda em si – que não foi divulgado -, mas o fortalecimento da carteira de pedidos.

Cecco explica que, para o investidor, o impacto mais importante é justamente esse: uma carteira robusta, já em nível recorde, aumenta a previsibilidade de receita para os próximos anos, melhora a visibilidade do fluxo de caixa e reduz a percepção de risco do negócio. Ele destaca ainda que as opções e os direitos de compra previstos no contrato criam um potencial de expansão futura sem que a Embraer precise sair atrás de um novo cliente.

Louzada segue na mesma linha: o anúncio reforça a demanda pelos jatos da família E2 e aumenta a visibilidade da carteira de pedidos da companhia, ampliando a previsibilidade de receita da Embraer para os próximos anos. Para ele, o momento também é simbólico. O pedido chega justamente quando a Embraer mostra uma evolução operacional relevante, combinando crescimento da carteira com melhora no ritmo de entregas.


Uma ressalva importante

Nem todo pedido anunciado vira avião entregue. Das 45 aeronaves citadas, só 20 são garantidas; o restante depende de a Abra decidir exercer as opções, o que vai depender da demanda por rotas domésticas e regionais que a empresa espera atender. Ainda assim, esse formato – pedido garantido robusto acompanhado de opções generosas – é comum em contratos pensados para dar espaço a crescimento futuro sem comprometer capital antes da hora.

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