Os Estados Unidos oficializaram, já na madrugada desta quinta-feira (16), em Brasília, a sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros. As novas tarifas, que atingem cerca de 29% das exportações do Brasil para o mercado americano, elevam a alíquota de 10% para 25%.
Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a taxação pode chegar a 37,5% quando somada à alíquota de 12,5% decorrente da investigação sobre trabalho forçado, que abrange cerca de 60 países. Os setores atingidos podem acumular perdas de até US$ 14,9 bilhões em exportações.
Entre as novas exceções estão ferro-gusa, café solúvel sem sabor, hidróxido de alumínio e mel orgânico.
A Lei da Reciprocidade deve ser utilizada?
A Lei da Reciprocidade no comércio internacional permite que um país responda a barreiras comerciais impostas por outra nação por meio da aplicação de medidas equivalentes sobre suas importações. Na prática, o Brasil poderia elevar as tarifas sobre produtos importados dos Estados Unidos.
Embora pareça uma resposta imediata à medida americana, essa estratégia pode elevar o custo de produtos essenciais no mercado doméstico.
“Se você aplica isso no Brasil, é um tiro no pé. Aquilo que a gente importa dos Estados Unidos vai ficar mais caro aqui. Vai trazer inflação para o mercado interno”, afirma Alberto Ajzental, professor de economia da FGV.
Além da pressão inflacionária, Ajzental destaca a assimetria entre as duas economias.
Enquanto o mercado brasileiro representa uma parcela relativamente pequena das exportações americanas, empresas e indústrias nacionais dependentes de insumos dos Estados Unidos tendem a sentir um impacto proporcionalmente maior.
Diante desse cenário, o economista defende medidas de apoio direcionadas aos setores mais afetados.
“Já que é pontual, o governo pode, por exemplo, dar um apoio temporário para esses setores. Por exemplo, crédito, seguro, financiamento à exportação, ajudar com capital de giro. O Brasil pode ajudar dando um fôlego para essas indústrias que dependem de exportar para os Estados Unidos encontrarem outros mercados no mundo”, detalha Ajzental.
Impactos para o mercado
A medida acende um sinal de alerta para a atividade econômica brasileira em 2026.
Segundo Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, embora a sobretaxa não seja suficiente para provocar uma recessão, seu impacto potencial sobre o Produto Interno Bruto (PIB) é relevante.
“Uma subtração de 0,3 a 0,5 ponto percentual sobre uma base dessa magnitude é material. Pode significar retirar entre um quarto e um terço do crescimento esperado para o ano, ainda que não seja, por si só, um evento recessivo.”
Trevisan afirma que os efeitos vão além da balança comercial, alcançando o câmbio e a confiança dos agentes econômicos, o que tende a encarecer insumos importados e a rolagem de dívidas corporativas em moeda estrangeira.
No comércio exterior, os US$ 14,9 bilhões expostos representam um cenário de risco máximo, e não necessariamente a perda efetiva, já que a exclusão de produtos relevantes da pauta exportadora brasileira, como café, carnes e petróleo, reduz parte do impacto.
Ainda assim, setores sem exceções tarifárias, como calçados, vestuário, etanol e máquinas agrícolas, enfrentam uma perda expressiva de competitividade com a tarifa de 25%.
O revés ocorre em um momento delicado. No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para os Estados Unidos já haviam recuado 13%, consolidando um cenário de déficit comercial com os americanos observado desde o ano anterior.
O advogado tributarista Leonardo Roesler, sócio do RCA Advogados, afirma que “a nova tarifa imposta pelos Estados Unidos ao Brasil revela uma utilização cada vez mais explícita do comércio exterior como instrumento de pressão política e econômica”, classificando a medida como unilateral e discriminatória à luz do direito internacional.
Com a taxa Selic em 14,25% e a inflação medida pelo IPCA acima do teto da meta, uma eventual sobretaxação de insumos americanos elevaria os custos internos, dificultaria um ciclo de redução dos juros e ampliaria a desaceleração da atividade econômica.
Para Roesler, a resposta brasileira deve combinar firmeza e cautela.
“O Brasil deve reagir com firmeza, mas sem adotar uma retaliação automática e generalizada. A resposta mais inteligente é combinar negociação diplomática, questionamento na Organização Mundial do Comércio e medidas de reciprocidade proporcionais. Uma escalada tarifária sem planejamento pode prejudicar empresas brasileiras, elevar custos internos e atingir justamente os setores que o país pretende proteger.”