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Uma Receita de R$ 10 Bi: Como o iFood Transformou um Aplicativo de Comida em um Ecossistema de Negócios

Resultado recorde confirma a mudança no modelo de negócios: 33% da receita já vem do seu braço financeiro, supermercados e outras verticais

7 min

Durante anos, o crescimento do iFood podia ser medido pelo número de refeições entregues. Hoje, essa métrica já não é suficiente para explicar a empresa. O balanço do ano fiscal de 2026 mostra que o delivery continua sendo a porta de entrada do negócio, mas deixou de ser seu único motor de expansão. Entre abril de 2025 e março de 2026, a companhia alcançou receita líquida de R$ 10,1 bilhões, EBITDA de R$ 2,2 bilhões e movimentou R$ 150 bilhões em pedidos e operações financeiras. Os resultados evidenciam a consolidação de um ecossistema que passou a crescer em áreas como marketplace de supermercados e farmácias, benefícios corporativos, oferta de crédito por meio de sua fintech e outros serviços, reduzindo a dependência do delivery de refeições.

A mudança aparece na composição da receita do iFood. Há um ano, cerca de 20% do faturamento da empresa vinha de negócios fora do delivery de refeições. Hoje, essa participação já chega a um terço (33%), impulsionada principalmente pelo crescimento da fintech, das categorias de supermercado, farmácia e outros serviços. O avanço mostra que a diversificação deixou de ser uma aposta e passou a representar uma parcela relevante do negócio. Quando a análise é ampliada para o ecossistema latino-americano da Prosus – que inclui, além do iFood, empresas como Sympla e Despegar – a transformação é ainda mais evidente. Nesse conjunto de operações, apenas 45% da receita já está ligada ao food delivery. Os outros 55% vêm dos demais negócios.

Para Pedro Pereira, CFO do iFood, a palavra que melhor resume o desempenho do ano é: ecossistema. “Há poucos anos, praticamente toda a percepção sobre o iFood estava concentrada no delivery de refeições. Hoje, os números mostram que a empresa se tornou muito mais diversificada”, diz. Segundo o executivo, essa diversificação reduz a dependência de um único negócio e amplia o potencial de crescimento da companhia. “O iFood deixou de ser apenas uma empresa de delivery para se consolidar como uma plataforma de múltiplos negócios, com crescimento, rentabilidade e capacidade de investir em novas avenidas de expansão de forma disciplinada.”

A frequência virou vantagem competitiva

Poucas empresas brasileiras possuem uma relação tão recorrente com seus consumidores quanto o iFood. O usuário abre o aplicativo várias vezes por semana para pedir refeições. A partir dessa frequência, a companhia passou a inserir novas categorias de consumo. Hoje, um em cada três clientes que compra comida também utiliza o aplicativo para adquirir produtos de supermercado, farmácia, bebidas ou pet shop. Essa recorrência passou a alimentar novos negócios, alguns deles muito maiores que o mercado de restaurantes.

O exemplo mais evidente é supermercados. Segundo a companhia, o segmento movimenta mais de R$ 1 trilhão por ano no Brasil, praticamente o dobro do mercado de alimentação fora do lar. A estratégia é atender diferentes ocasiões de compra: desde entregas ultrarrápidas até compras semanais ou de abastecimento mensal. “O mercado de supermercados talvez seja uma das maiores oportunidades do ecossistema. Queremos consolidar o iFood como a principal plataforma de supermercado digital do país”, afirma Pereira.

Delivery continua crescendo, mas muda de papel

O delivery de comida permanece como principal fonte de tráfego e recorrência da plataforma. A diferença é que ele passou a ser utilizado como porta de entrada para ampliar o consumo em outras categorias. Ao mesmo tempo, o próprio negócio principal continua sendo redesenhado.

Um dos produtos que mais cresceram foi o Turbo, modalidade que promete entregas em menos de 20 minutos. A lógica é criar ocasiões de consumo que antes não existiam. “Quando conseguimos garantir uma entrega em menos de 20 minutos, o consumidor passa a pedir refeições em momentos em que antes simplesmente não pediria porque não teria tempo para esperar”, explica o CFO.

Outro destaque é o Hits, iniciativa voltada para refeições mais acessíveis. Com tíquete médio entre R$ 35 e R$ 40 – cerca de 40% inferior ao padrão da plataforma – o produto amplia o público potencial sem depender de descontos temporários. “Nossa estimativa é que esse produto aumente o mercado endereçável em cerca de 25%. É uma expansão estrutural da demanda, não baseada em incentivos”, afirma Pereira.

A fintech se tornou um dos motores do negócio

Se as novas categorias ampliam a presença do aplicativo na rotina do consumidor, é a operação financeira que mais altera o perfil econômico da empresa. O iFood Pago já responde por aproximadamente 25% da receita do ecossistema e gerou R$ 2,5 bilhões em receita líquida no último exercício, praticamente dobrando de tamanho em relação ao ano anterior.

O foco da operação é atender restaurantes parceiros com conta digital, meios de pagamento e, principalmente, crédito. “Queremos ser o principal parceiro financeiro dos restaurantes. Mais do que oferecer crédito, queremos ajudá-los a administrar capital de giro, refinanciar dívidas mais caras e financiar expansão”, diz Pereira.

Segundo ele, a vantagem competitiva está na base de dados construída ao longo dos anos. “Pequenos e médios restaurantes tradicionalmente têm dificuldade para acessar crédito porque os bancos possuem pouca informação para avaliar risco. Nós acompanhamos diariamente o fluxo de vendas, recorrência, sazonalidade e comportamento operacional desses estabelecimentos. Isso nos permite construir modelos de crédito muito mais precisos.” A carteira de crédito da companhia já se aproxima de R$ 2 bilhões e continua crescendo em ritmo acelerado.

Benefícios e viagens ampliam o ecossistema

Outra frente que começa a ganhar relevância é o iFood Benefícios, solução de vale-alimentação e refeição para empresas. O negócio cresce acima de 100% ao ano, movimenta cerca de R$ 1 bilhão em recargas mensais e já alcançou participação estimada de 10% no mercado. “O modelo possui uma característica importante: depois que a empresa adota a plataforma, a taxa de cancelamento é muito baixa. Isso cria uma receita recorrente e previsível, o que justifica continuarmos investindo fortemente nessa expansão”, afirma o CFO.

A lógica de aproveitar a base de usuários também chegou ao turismo. A Despegar, plataforma de viagens do grupo, registrou crescimento de 29% em receita no ano fiscal de 2026 e acelerou para 50% no Brasil no início do novo exercício. Atualmente, mais de 20% da receita da operação brasileira da empresa já tem origem na base de clientes do iFood.

O próximo ciclo será de investimento

Apesar dos resultados recordes, a companhia afirma que o foco para o ano fiscal de 2027 não será maximizar margens, mas acelerar investimentos.

Segundo Pereira, a diferença em relação aos anos anteriores é que os testes já foram concluídos. “Depois de alguns anos ajustando produtos e validando hipóteses, chegamos a um estágio em que diversas diversas iniciativas já apresentam economia unitária positiva, ou seja, cada novo pedido ou cliente gera retorno suficiente para justificar a expansão”, diz.

Os recursos serão direcionados para ampliar o Turbo, expandir o Hits, fortalecer supermercados, desenvolver novas categorias e aumentar a concessão de crédito para restaurantes.

Para o executivo, a companhia entrou em uma nova fase. Os números mostram consistência: volume transacionado de R$ 150 bilhões, receita e EBITDA crescendo em ritmo acelerado e uma parcela cada vez maior da receita vindo de fora do food delivery. “É essa solidez que nos permite investir com disciplina. Hoje deixamos de investir para descobrir quais modelos funcionam e passamos a investir para escalar aqueles que já provaram seu potencial”, afirma Pereira.

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