Os investimentos experienciais estão surgindo como uma das tendências mais atraentes no mercado de ativos alternativos. O movimento reflete uma mudança na forma como os investidores enxergam a geração de riqueza.
Embora a busca por retornos financeiros sempre tenha sido prioridade, um número crescente de investidores também procura retorno em experiências, acesso e estilo de vida. De adquirir participações em cavalos de corrida de elite e casas de férias de luxo a investir em cobiçadas bolsas Hermès, os investimentos alternativos atuais combinam cada vez mais oportunidade financeira com interesses pessoais.
Empresas como Luxus, MyRacehorse e Pacaso estão na linha de frente desse movimento, utilizando tecnologia e novas estruturas para transformar ativos exclusivos em oportunidades de investimento. Ao mesmo tempo, elas redefinem o significado de ser proprietário na economia moderna.
Durante décadas, muitos dos ativos alternativos mais desejados do mundo ficaram restritos a um grupo seleto de colecionadores e pessoas influentes. A posse de artigos de luxo raros, normalmente exigia grande volume de capital, conhecimento especializado e conexões diretas com o setor.
Hoje, porém, plataformas tecnológicas estão reduzindo as barreiras de entrada e criando novos caminhos para que investidores participem de mercados que antes eram inacessíveis.
Essas empresas atuam na interseção entre finanças, tecnologia e estilo de vida. Dessa forma, criam oportunidades de investimento que unem potencial de retorno financeiro a experiências e paixões que, até pouco tempo atrás, estavam disponíveis apenas para um grupo privilegiado.
Transformando bolsas de luxo em ativos
As bolsas de luxo há muito tempo são consideradas itens de coleção. A Luxus está ajudando a transformá-las em uma categoria reconhecida de investimento.
Fundada pela ex-executiva da Blackstone, Dana Auslander, e apoiada pela gigante de leilões Christie’s, a Luxus administra um fundo de investimento especializado em bolsas Hermès Birkin altamente cobiçadas. Em vez de comprar uma bolsa, os investidores adquirem participações em um portfólio diversificado administrado pela empresa.
O modelo é semelhante ao de um fundo tradicional de investimentos alternativos. O capital dos investidores é reunido em uma estrutura específica que adquire bolsas classificadas como ativos de investimento, desde que atendam a padrões de autenticidade e qualidade.
O que torna o negócio inovador é o uso de dados e da infraestrutura de mercado. A plataforma permite que pessoas invistam no mercado de revenda de artigos de luxo sem possuir fisicamente as bolsas. A empresa também utiliza ferramentas próprias de avaliação, incluindo um índice de preços da Hermès, para acompanhar os movimentos do mercado e identificar os melhores momentos para venda.
“O capital cultural costumava ser descrito como um investimento movido pela paixão de colecionadores de nicho. Nós transformamos esses ativos, começando pelas bolsas de cota da Hermès, em uma nova classe de ativos alternativos”, afirmou Auslander. “A Hermès não é uma história de moda nem uma tendência das redes sociais. Hoje, ela representa a tese de investimento mais atraente entre os ativos alternativos de nicho, e construímos nossa vantagem competitiva em torno disso. Agora vamos expandir para outros segmentos do mercado de luxo.”
Democratizando a propriedade de cavalos puro-sangue
Se a Luxus transforma bolsas em investimentos, a MyRacehorse faz algo ainda mais ambicioso: permite que investidores comuns adquiram participações em cavalos de corrida de elite.
Historicamente, possuir um cavalo puro-sangue sempre foi uma das atividades mais exclusivas do esporte. Comprar um animal de corrida frequentemente exigia centenas de milhares ou até milhões de dólares, além de despesas contínuas com treinamento, veterinários e administração. Fundada por Michael Behrens, ex-diretor de marketing da Casper Sleep, a MyRacehorse reinventou esse modelo por meio da propriedade fracionada.
A empresa cria uma entidade jurídica independente para cada cavalo e oferece participações aos investidores por meio de ofertas registradas e qualificadas pela Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC). Os interessados podem comprar microcotas, muitas vezes por menos deUS$ 100 (R$ 520), obtendo exposição a alguns dos animais mais promissores do esporte.
A inovação vai além da acessibilidade. A MyRacehorse estrutura suas ofertas de forma que os principais custos — incluindo aquisição, treinamento, cuidados veterinários, seguro e administração — já estejam, em grande parte, incorporados ao investimento inicial. Assim, os investidores conhecem desde o início sua exposição financeira máxima e, em geral, ficam protegidos contra futuras chamadas de capital.
A empresa também demonstrou que a propriedade fracionada pode competir no mais alto nível das corridas. Em 2024, o cavalo Seize the Grey, da MyRacehorse, conquistou uma vitória histórica na 149ª edição do Preakness Stakes. Desde então, a plataforma ampliou seu sucesso internacional, com investidores comemorando recentemente uma vitória em Royal Ascot.
Esses resultados mostram como modelos de propriedade viabilizados pela tecnologia estão permitindo que investidores comuns participem de experiências e conquistas que antes eram reservadas a um pequeno grupo de proprietários milionários.
Os retornos financeiros vêm de premiações, direitos de reprodução, taxas de cobertura dos garanhões e da venda futura dos animais. Ainda assim, a plataforma oferece algo que muitos investimentos tradicionais não conseguem proporcionar: envolvimento emocional. “Quase 100 mil pessoas já compartilharam o sucesso de possuir um cavalo de corrida, incluindo a oportunidade de vencer provas do mais alto nível mundial”, afirmou Behrens.
Os proprietários recebem atualizações constantes, acesso aos bastidores e oportunidades para assistir às corridas e participar de experiências exclusivas.
Reinventando residências
Enquanto a Luxus concentra sua atuação em itens colecionáveis e a MyRacehorse em ativos esportivos, a Pacaso está transformando uma das maiores classes de ativos do mundo: o mercado imobiliário.
Fundada por ex-executivos da Zillow, a Pacaso busca solucionar um desafio comum entre compradores de alto patrimônio. Muitas pessoas desejam uma casa de férias de luxo, mas a utilizam apenas durante algumas semanas por ano. No modelo tradicional, isso significa manter um volume significativo de capital imobilizado em imóveis subutilizados. A solução da Pacaso é a propriedade fracionada com participação patrimonial real.
A empresa adquire imóveis de alto padrão em destinos disputados e coloca cada propriedade em uma estrutura jurídica própria. Os compradores adquirem participações que variam de um oitavo a metade do imóvel, recebendo participação efetiva no patrimônio, e não apenas um direito de uso semelhante ao sistema tradicional de multipropriedade (timeshare).
A tecnologia desempenha papel central no funcionamento do modelo. A plataforma proprietária de agendamento da Pacaso distribui os períodos de uso de forma equilibrada entre os proprietários, conciliando feriados, alta temporada e preferências individuais. Os donos podem reservar estadias por meio de um aplicativo, enquanto a empresa cuida da mobília, manutenção, impostos, jardinagem e operação do imóvel.
Talvez o aspecto mais importante seja que os proprietários mantêm o direito de participar da eventual valorização do imóvel. Após o período mínimo obrigatório de permanência no investimento, as participações podem ser vendidas no marketplace da Pacaso, criando uma liquidez que historicamente sempre foi difícil de obter no mercado de casas de férias.
Na prática, o modelo separa os benefícios da propriedade de muitos dos encargos tradicionalmente associados à posse de um imóvel.
Acesso a investimentos exclusivos
A tecnologia está tornando possível fracionar a propriedade, simplificar estruturas jurídicas, aumentar a transparência e reduzir barreiras em classes de ativos que, durante muito tempo, estiveram fora do alcance da maioria dos investidores.
Atualmente, essas plataformas ainda são utilizadas principalmente por indivíduos de alto patrimônio e consumidores de alta renda. Ainda assim, elas ilustram uma tendência mais ampla de democratização do acesso. A mesma infraestrutura tecnológica que permite aos investidores possuir uma participação em um cavalo de corrida, em um portfólio de bolsas de luxo ou em uma casa de férias poderá, no futuro, transformar inúmeras outras categorias de ativos.
Mais importante ainda, esses negócios refletem uma mudança nas preferências dos investidores. Cada vez mais, eles buscam oportunidades alinhadas aos seus interesses, paixões e estilo de vida. Em vez de se limitarem aos portfólios tradicionais, procuram ativos capazes de proporcionar experiências exclusivas, além do potencial de retorno financeiro.
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com