Rivais históricos nos gramados, Brasil e Argentina voltaram a medir forças no campo econômico após uma troca de ataques entre os dois governos. Em resposta às críticas feitas por Javier Milei durante sua passagem por São Paulo, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que os indicadores brasileiros são melhores que os argentinos.
“O risco-país da Argentina é muito mais alto, a dívida pública é muito mais alta, a inflação é muito mais alta”, disse Durigan. Se no futebol a rivalidade se resolve pelo placar, na economia o resultado depende do indicador analisado.
Segundo o Fundo Monetário Internacional, o Brasil fechou 2025 com um Produto Interno Bruto nominal de cerca de US$ 2,27 trilhões, o que o mantém como a 11ª maior economia do mundo. A Argentina, por sua vez, soma cerca de US$ 688 bilhões e ocupa a 27ª posição no ranking global. Na prática, a economia brasileira é aproximadamente 3,3 vezes maior que a argentina.
Mas o Brasil é gigante territorialmente, e a Argentina inteira é equivalente aos estados do Amazonas e do Pará juntos. A partir daí, é possível alinhar as expectativas para observar outros dados econômicos.
Inflação, risco país e reservas internacionais
A inflação da Argentina é uma das maiores do mundo. Em 2025 acumulou 31,5% contra 4,26% do Brasil, de acordo com dados do INDEC (Instituto Nacional de Estadística y Censos) e do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), respectivamente. A situação é fruto de problemas históricos como déficits públicos, excesso de pesos versus a escassez do dólar e a desconfiança histórica na moeda.
O professor da FIA Business School, Paulo Feldmann, explica que o poder de compra é facilmente afetado e o dólar se torna uma proteção. “Se você é um argentino, você não confia na moeda do teu país. Você tem aquela moeda, mas você quer se livrar dela. Se possível, você vai comprar dólar. É a única forma de você se proteger”.
Apesar do problema crônico, o governo de Milei têm colhido bons resultados.Alberto Ajzental, professor de economia da FGV, chamou atenção para o pacote de medidas do presidente argentino. “Ele está tentando diminuir o déficit do governo, está controlando a questão do dólar e a questão da dívida”.
É a motosserra de Milei que leva os créditos dessa vitória. O instrumento é a representação do corte de gastos que levaram o país ao superávit fiscal e do corte do controle cambial, além de um empréstimo de US$ 20 bilhões do FMI que serviu para reorganizar a casa.
Mas ainda não parece ser suficiente. Mesmo com os dados do país apresentando melhoras, os argentinos não conseguem transmitir muita confiança, o que limita os investimentos externos.
Na classificação de risco-país da Coface, referência global sobre informações de negócio, a Argentina recebe a nota D, a pior da escala da seguradora, contra a nota B do Brasil, dois degraus acima, o que limita a entrada de capital externo e influencia diretamente no volume de reservas internacionais. O colchão Brasil é de US$ 360,9 bilhões enquanto o da Argentina soma US$ 49 bilhões, de acordo com o Banco Central de cada um dos países.
Desemprego, pobreza e IDH
Apesar dos impactos que foram herdados de outras gerações, o dado recente sobre desemprego na Argentina melhorou. A projeção do Fundo Monetário Internacional, o FIMI, para 2026 é de 7,2% de desocupados, contra 7,4% de 2025. O indicador é parecido com o do Brasil, mas ainda é maior. Nossa projeção para 2026, pelo mesmo órgão, é de 6,8%.
O número de pessoas empregadas reflete um índice importante: a população abaixo da linha da pobreza, medida pelo Banco Mundial. Os dados consolidados divulgados em 2025 mostram que 26,2% da população brasileira vivia abaixo da linha de pobreza social, contra 24,1% na Argentina.
Sobre a redução da pobreza, Ajzental afirma que a desaceleração da inflação ajudou a recuperar o poder de compra dos argentinos em relação à canasta básica, como é chamada a cesta básica no país. Com maior acesso a esses produtos essenciais, explica, uma parcela da população deixou a linha de pobreza.
O dado puxa outro índice conhecido, o IDH, que conta um pouco mais sobre a qualidade de vida da população. O índice de desenvolvimento humano da Argentina é mais alto do que o do Brasil.
Segundo relatório do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), a Argentina alcançou o 47º lugar entre 193 países, com IDH de 0,865, enquanto o Brasil aparece na 84ª colocação, com IDH de 0,786.
PIB X dívida pública
Se no tamanho da economia o Brasil larga muito à frente, no endividamento a distância encolhe. A economia brasileira, de cerca de US$ 2,27 trilhões, é mais de três vezes maior que a argentina, de US$ 688 bilhões, mas também carrega uma dívida pública proporcionalmente mais pesada.
No Brasil, a Dívida Bruta do Governo Geral fechou 2025 em 78,7% do PIB, o equivalente a R$ 10 trilhões, segundo o Banco Central, o maior patamar desde a pandemia. Pelo critério do FMI, que também soma os títulos públicos na carteira do próprio Banco Central, o número sobe para 93,3% do PIB.
Do outro lado da fronteira, a dívida pública bruta da administração central argentina somava US$ 455 bilhões ao fim de 2025, de acordo com a Secretaría de Finanzas do Ministério da Economia. Em proporção à economia, o FMI estima a dívida geral do governo argentino em 80,3% do PIB em 2025, abaixo do Brasil, portanto, na mesma base de comparação.
Comércio bilateral
Apesar da rivalidade, nós somos ótimos parceiros de negócio. No primeiro semestre de 2026, os dois países movimentaram US$ 13,75 bilhões em importações e exportações, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o MDIC.
As exportações superaram as importações e o Brasil manteve superávit na relação. O Brasil vendeu US$ 7,35 bilhões, queda de 19,4%, e comprou US$ 6,40 bilhões, alta de 3,8%, gerando um saldo positivo de US$ 951 milhões.
A Argentina foi o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas de China que movimentou US$ 96,87 bilhões em contratos e dos Estados Unidos, na marca de US$ 36,4 bilhões.
Embora ambos os países realizem trocas comerciais significativas, o peso dessa parceria é assimétrico, diz Ajzental. “Para o Brasil, a Argentina é o terceiro parceiro comercial mais importante, mas para a Argentina, o Brasil é o parceiro comercial mais importante”.
O mercado brasileiro absorve cerca de 13% de todas as exportações argentinas e concentra 69% das vendas destinadas ao Mercosul, ou seja, mais de dois terços de tudo que a Argentina vende ao bloco tem endereço no Brasil.